Hoje, numa "praça de gente madura", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como fizeram em abril de 1974. Tal como cantou Zeca Afonso, o povo saiu à rua e juntou-se numa praça, e não foi só em Lisboa, foi no Porto e foi em outras cidades do país, foi em outras cidades da Europa, onde as pessoas se juntaram, perdendo o medo de ir contra aquilo que lhes é esperado, perdendo a vergonha de dar a cara, enfrentando quem lhes viesse dizer o que afinal seria esperado que fizessem.
Hoje, o povo saiu e não ficou quieto. Nem se calou. Hoje o povo cantou, gritou, entoou pedidos e gritos. Pediu por melhores condições de vida, daquelas que já fazem parte da Constituição, mas que tantas vezes ficam esquecidas.
Hoje, o povo saiu à rua, pais e mães, filhos e avós, juntaram-se na praça e pediram condições para que todos possam ter uma casa. Não pediram para não trabalhar, pediram um ordenado digno. Não exigiram que lhes fosse oferecida uma casa, mas que houvesse no mercado casas que qualquer trabalhador pudesse comprar para habitar. O que vai acontecer depois, logo, quando a noite vier e na praça ficarem apenas alguns mais resistentes, não se sabe. A comunicação social não sai dali, não deixa os manifestantes sozinhos, não deixa de transmitir as suas posições e imposições. Filmam as "mães da acampada", quatro mulheres que se vieram juntar ao protesto e a quem é perguntado se "não têm medo?" Lembremo-nos que ainda há dias, as pessoas acabaram por ser dispersadas
à bastonada, quando se recusaram a arredar pé, quando a polícia decidiu que tinha chegado a hora de terminar com a manifestação.
E agora quando a noite vier e se a polícia mandar levantar as tendas, o que irá acontecer? O problema nem nunca foram as tendas. As manifestações espalham-se por várias cidades da Europa, quase num movimento coletivo que começou em França no início de setembro. As imagens desta acampada portuguesa surpreendem e contrastam com a violência que se expande lá fora.
Em França, os protestos têm sido muito violentos. Esta tarde, já se fala em "centenas de milhares de pessoas nas ruas - mais de 320 mil, segundo o ministério do Interior," e já houve registo de vários confrontos. Em Paris, tenta-se afastar os manifestantes que lutam "contra as condições nas escolas e a crise do custo de vida", para fora da cidade, para que se proteja a imagem, o turismo e o comércio. Lyon ou Grenoble também vivem em tensão. Em França estão mobilizados cerca "de 70.000 agentes policiais," com o risco acrescido de hoje coincidir "com a festa do Halloween." A violência é visível nas imagens que nos vão chegando através da televisão. Em França, não se bordam mantas coletivas nem se cantam canções de intervenção em coro. Em França, "os manifestantes lançaram cocktails Molotov contra as forças de intervenção, que responderam com gás lacrimogéneo." Há vítimas a lamentar de ambos os lados e foi colocado em "vigor um recolher obrigatório noturno em várias zonas de Paris afetadas pelos distúrbios nas manifestações de 17 de outubro, com episódios de violência e pilhagens."
Em Espanha, as pessoas unem-se para proteger e entaipar as montras e as portas, tentando evitar a destruição que possa advir de intervenções mais violentas. Ali, hoje não houve uma convocatória para que as pessoas se manifestassem. Ali, jovens, muitos deles menores de idade, estão a ser aliciados para se juntarem e pilharem determinadas lojas e para provocarem o caos e a destruição nas ruas. Ontem foram detidas "cerca de uma dezena de pessoas ligadas ao movimento de caráter violento Blocus", que atua, pelo que dizem, em nome da defesa da "qualidade da escola", e que foram "acusados de instigar a realização de múltiplas pilhagens, apelando aos jovens para que se juntassem ao protesto utilizando armas e também para que fabricassem `cocktails` molotov, com o objetivo de sobrecarregar os agentes da polícia que enfrentassem as sabotagens." No passado sábao, o grupo que na maiorira foi convocado pelas redes sociais e que diz agir sob o lema “Institut Indignats”, tentou "reproduzir na capital catalã as manifestações violentas que França vive há dias, na sequência das mobilizações estudantis que decorrem há semanas." Aas suas ações passam por provocar "incêndios em equipamentos urbanos," por atos de "vandalismo contra o comércio" e por saquear artigos, que depois são também ensinados como vender.
Também na Alemanha e na Albânia, os manifestantes saíram à rua. Em Berlim, os protestos têm como mote principal a oposição ao "serviço militar obrigatório," mas também exigem "maiores investimentos em educação e apoio aos estudantes, que enfrentam dificuldades com a subida custo de vida." A organização é liderada pelo "grupo Gen Z Regelt" e tem como inspiração os "protestos que nas últimas semanas têm percorrido vários países da Europa, incluindo Portugal." Este grupo, acabou por se demarcar dos atos violentos a que se tem assistido, mas o receio de que os confrontos escalem na violência tal como aconteceu noutras cidades da Europa, levou a que a polícia tivesse tomado algumas precauções, receando que estas "
Fontes:
https://www.dn.pt/internacional/alemanha-o-pas-que-se-segue-na-onda-de-protestos-dos-jovens-europeus#goog_rewarded