Quem me conhece sabe que me recuso a ter qualquer religião e que não acredito em nada que se relacione com deus, santos ou pseudo-milagres. Dito isto, respeito quem o faz não entrando em locais de culto quando estes estão a decorrer, ou não tratando essas pessoas de forma diferente. Agora, o que peço, é que me respeitem também a mim. Se eu não entro num local onde está a decorrer uma missa, não interrompendo ou fazendo a minha presença notada, então não entendo porque é que num local em que estão crianças e pais e sem qualquer aviso prévio de que tal iria ocorrer, entra um bispo e um padre para fazerem sei lá o quê. Se me tivessem avisado de que essa intervenção religiosa iria ocorrer, eu não teria lá ido ou sairia do local antes da entrada dessas pessoas.
E ainda menos entendo o seguinte. Um clube, que tem atletas de várias nacionalidades e, possivelmente, de várias religiões e outros sem religião, não deveria ter informado os encarregados de educação da existência de um ato oficial desta envergadura? Há atletas católicos, há, mas também há os que não o são. E não foi dito na inscrição que qualquer atleta teria de assistir a atos ligados à igreja católica ou a outra qualquer confissão religiosa e, ainda por cima, pediram aos atletas para pousar para uma fotografia com os ditos senhores. Perguntaram a cada um deles se era católico?
E espero que alguém me elucide, com que fundamento científico é que a benção vai fazer diferença à vida utilitária da carrinha e da segurança das crianças e jovens que lá viajarem. Não terá a mesma possibilidade de avaria e de acidente que outra carrinha? Não seria mais correto, estar presente alguém da empresa de seguros e ter sido assinado na presença de todos um seguro contra todos os riscos? Ou ter sido oferecido aos motoristas habituais um curso de transporte coletivo de crianças e de segurança rodoviária?
Outra coisa, não teria a Junta de Freguesia em causa e a sua respetiva Câmara Municipal, ao se fazerem representar num ato desportivo com tanta gente que participa e que movimenta milhares de atletas, afixar também essa informação de que iriam estar presentes ao lado de entidades da igreja católica, para que, mais uma vez, pudéssemos todos livremente, escolher se estaríamos presentes ou não?
Somos um Estado laico, portanto o concelho onde resido, é laico também, ou estou enganada? Há atos que são públicos, como por exemplo as procissões, mas a esses vai quem quer, quem não gosta, desvia e passa ao lado. Agora, ali, naquele local não havia como o fazer. Senti-me insultada e magoada, como mãe e como cidadã merecedora de respeito. Não falando sequer dos custos que podem ter estado envolvidos.
Mas este não foi caso único. No passado dia 21 de setembro de 2026, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, realizou uma bênção católica ao edifício escolar durante a cerimónia de inauguração das novas obras da Escola Secundária de Cascais. Estavam também presentes algumas das mais altas figuras do Estado, tais como o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Educação.
Concordo plenamente com a opinião da Associação República e Laicidade quando refere que "a inclusão de um rito confessional num ato oficial do Estado viola a Lei da Liberdade Religiosa (que dita a separação entre a Igreja e o Estado) e infringe o princípio de que o ensino público é não confessional, discriminando cidadãos de outras religiões ou agnósticos." Neste caso, "A associação considera que “a não confessionalidade do ensino público foi infringida, assim como o direito individual de não assistir a atos religiosos”, tendo existido “também uma discriminação a favor da comunidade católica”.
Como refere a associação RiseUp Portugal "O nome do bispo ficou na placa. O do ministro da Educação, pelos vistos, já não coube." A associação acrescenta ainda que "o melhor é que nem no Estado Novo, quando o Plano dos Centenários espalhou milhares de escolas pelo país e até havia crucifixos obrigatórios nas salas de aula, era prática pôr na placa oficial o nome de quem benzia a escola."
E o problema é que isto está a ser normalizado. Porquê? Seria normal se, perante este convite, se tivesse convidado alguém de todas as outras religiões presentes na escola para fazer o seu ritual - assim, não haveria discriminação - e se avisassem aqueles que, como eu, são ateus e que, merecem também ser respeitados na sua não-crença.
Comparo aqui o ensino escolar com um clube de cariz desportivo. Lá porque a direção é católica não pode implementar estes atos nas suas cerimónias, sem avisar os pais e os atletas. Se o quisesse fazer deveria marcar um dia, ao qual apenas iriam os atletas que quisessem participar. Não sendo assim, é vergonhoso que o tenham imposto a quem lá estava.
Fontes:
https://www.instagram.com/p/DdlwUV1tN9b/


Subimos em direção ao Parque Urbano do Seixal, fomos ao miradouro e descobrimos uma vista maravilhosa lá de cima. Depois, lá descansamos um pouco nas mesas de piquenique, onde várias familias comiam ou brincavam.