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21/06/2026

Pai atira-se da janela do oitavo andar com a filha

Não há palavras que possam suavizar a ação de alguém que tira a vida a uma criança inocente. A primeira intenção dele não era matar-se, certamente, era dar à sua mulher e mãe desta criança o maior sofrimento possível. Para ele, já não chegava bater-lhe ou ofendê-la. Era preciso mais! A vingança foi matar a filha de ambos, a forma de o fazer foi suicidar-se com a criança no colo. Ele tinha 33 anos, ela apenas 4. Ele vivia em Santarém, naquele mesmo prédio há seis anos. 

Dizem que para alguém se suicidar é preciso coragem - concordo que sim, na maioria dos casos. Neste caso, aquilo que foi preciso foi ódio e raiva. 

As discussões eram frequentes. Os vizinhos sabiam-no, mas segundo o relato de um dos vizinhos que testemunhou a queda dos dois e que tentou ainda socorrer a menina, das vezes em que terá chamado a polícia, ninguém veio. Aquela mulher e aquela criança continuaram a viver com o agressor até que a tragédia chegou. Aqui não importa a nacionalidade. Podiam haver diferenças linguísticas, mas neste caso o fator cultural não modificou o resultado. É mais um crime que acontece em contexto de violência doméstica em Portugal. A mulher acabou por ser agredida da forma mais violenta de todas, atingindo-a naquilo que de mais preciso tinha na sua vida, a sua menina de apenas quatro anos. 

Se fez queixas? Se denunciou à polícia? Se estava disposta a sair de casa e a cortar o contato com este homem? Não o sabemos. Se alguém a ouviu e se a quis ajudar? Não sabemos também... Havia sinais de violência? Em tantos casos há sinais e depois a justiça não age, nada é feito, nada se resolve e a vítima continua a ser vítima. Aqui havia duas vítimas: a menina e a sua mãe. Mas foi a filha que ele matou, agindo assim contra a mãe. Como explicar isto? Não sei explicar algo tão bárbaro. 

No local do crime, haveria também outra pessoa. Um tio da menina, irmão do pai. A principal razão, ao que se diz, foi a ameaça que a mãe da menina fez de ir à polícia fazer queixa e de ir também contar à família dele as agressões de que era vítima. O cobarde, em vez de fazer algo correto uma única vez e se afastar de ambas, matou a menina e "matou" esta mãe, pois esta perda é também de certa forma uma morte.

Uma vizinha diz ao "Observador" que a menina andava numa creche. Esta informação (talvez por falta de conhecimento da senhora) é falsa. Aos quatro anos (se realmente era essa a idade da vítima) uma criança não pode estar a frequentar a creche, mas sim um Jardim de Infância. Pormenores que não tiram deste crime nenhuma da sua gravidade! Aquela menina tinha colegas que se vão lembrar dela durante algum tempo, notar a sua falta no mapa de presenças e que, daqui a pouco tempo, se vão esquecer dela. Talvez de tempos a tempos, quando forem mais velhos e escutarem alguém conversar sobre ela se lembrem de como ela era, ou talvez seja apenas um nome. 

É uma criança que morre, mais uma que entra para a trágica contagem deste ano. Ainda há uns dias, uma outra menina foi assassinada de forma crua por alguém que não sendo a sua família direta, a deveria em todo o caso, proteger e essa menina tinha apenas 8 anos.

Fontes:

https://observador.pt/especiais/por-mais-anos-que-eu-viva-vou-me-lembrar-sempre-desta-noite-discussao-acabou-em-vinganca-quando-pai-saltou-do-8-o-andar-com-a-filha/


05/06/2026

Violência no namoro e violência doméstica

Bianca tinha apenas 16 anos. 

Por motivos que não me são conhecidos, vivia com uma amiga mais velha e namorava um rapaz de 20 anos. Namorava desde os 14 e já este facto é algo a ter em conta. Na véspera tinha tentado acabar com este namoro. Na quarta-feira à noite, este ex-namorado tocou à campainha de uma vizinha, que facilmente lhe deu acesso ao interior do prédio. Entrou e subiu ao primeiro andar. 

Surpreendida, Bianca, não teve qualquer hipótese. Foi arrastada pelas escadas, a cabeça foi atirada com violência contra o corrimão. Foi esfaqueada cerca de vinte vezes. Os vizinhos que ouvindo os gritos tentaram acudir, afirmam que ainda a viram com vida, mas Bianca acabou por se esvair em sangue. E porque é que eu não me coíbo de fazer esta descrição detalhada? Porque é preciso que se entenda o nível de violência, que se saiba que ela era apenas uma jovem de 16 anos. Esta era uma menor de idade, que já vivia em perigo. O assassino está no hospital em estado grave depois de ter sido atropelado por um camião. Talvez por acidente, talvez tentando tirar a própria vida. Não vou sequer escrever aqui qual acho que devia ser o seu destino.

E temos de falar sobre estes assuntos, de relatar, de sermos firmes! Ainda há uns dias publiquei sobre violência doméstica e hoje já estou a escrever sobre esta morte!

Porque a violência não acontece apenas uma vez e com esta brutalidade - acredito que tenham havido outras agressões anteriores, fossem elas verbais ou físicas. Que razões terão tido estes pais para a deixarem sair de casa com um homem mais velho com apenas 14 anos? Houve fuga? Houve queixas na polícia? O que foi feito pelos pais e por quem mais sabia?

E porque esta história me fez lembrar outra, há uns anos. Uma imagem que nunca mais me vou esquecer. A certeza de que não valia a pena tocar em nada, pois nada do que eu fizesse poderia salvar aquela vida. Ela já se tinha esvaído em sangue. Tinha tanto cortes, tantas facadas, que não fui capaz de os contar. À porta, uma criança ao colo de uma vizinha, apenas nos ia dizendo "A mãe tá xuja"... Aquele menino tinha visto o corpo da mãe, tinha-lhe tocado, tentado acordá-la... "A mãe acodou?" perguntava ele.

Não, aquela mãe nunca acordou. E quem a matou foi o pai. A casa arrumada, os brinquedos com que a criança tinha estado a brincar antes de dormir estavam numa caixa ao canto da sala, numa sala cujas paredes estavam pintadas de sangue. O assassino tirou a própria vida.

Em 2012, Sara, com apenas 16 anos, também foi esfaqueada pelo namorado. Ele tinha 23 anos e ela tentou falar com a mãe, contar-lhe sobre este namoro que estava farta de viver às escondidas. Foi agredida e atingida por vinte e três facadas, que a deixaram em risco de vida. Sara sobreviveu para contar a sua história e fá-lo de forma corajosa. A violência no namoro é apenas uma das vertentes da violência doméstica. Estes agressores conduzem a sua vítima através da manipulação, de palavras que rapidamente passam de doces a amargas, do pseudo-amor que se transforma em ameaças. 

Considera-se Violência no Namoro, quando existe um padrão de comportamento que se repete ao longo do tempo, onde um dos elementos exerce o poder, através da violência (física, psicológica, económica e/ou sexual), com o intuito de controlar, dominar e submeter o outro/a." Pode manifestar-se em agressões verbais ou físicas, em violência sexual, em stalking ou em violência emocional ou psicológica. Tal como na violência doméstica entre dois adultos, as vítimas muitas vezes têm vergonha ou acham que fizeram algo de errado que despoletou esse comportamento, o que é em ambos os casos, completamente errado.

As vítimas de violência doméstica, incluindo as vítimas de violência no namoro, acabam por ceder ao medo, mantendo-se nestas relações durante meses e até anos. Mas o que mais me assusta é que perante isto, continuem a haver jovens, miúdos e miúdas entre os 14 e os 18 anos, que já nasceram no século XXI e que ainda consideram "normal" haver ameaças e agressões durante um namoro, alguns dizem aceitar que os namorados ou namoradas controlem aquilo que vestem ou que tenham acesso às suas redes sociais e aos seus telemóveis. Muito facilmente, estes agressores perdem "o controlo quando está perante uma crise de ciúmes e promove a ideia de que ciúmes é sinal de amor." É capaz de ter gestos de humilhação e de desvalorização da vítima, perante outros, ou quando se encontram sozinhos.

Fontes:

Programa "Linha Aberta", SIC, episódio 20, temporada 12, 05/06/2026;

https://www.amcv.org.pt/jovens/violencia-no-namoro

https://www.casa-qui.pt/index.php/perguntas/32-como-saber-se-sou-vitima-de-violencia-no-namoro

https://apav.pt/wp-content/uploads/2024/02/FolhaInformativa_VNamoro_2020.pdf





23/05/2026

Os dados mostram que ainda há muito a dizer sobre o flagelo da Violência Doméstica

Embora seja um tema amplamente abordado e que, na maioria das vezes associamos à violência contra as mulheres (que representam de acordo com dados do RASI, "cerca de 69% das vítimas") em ambiente doméstico, esta tem de ser uma luta para a qual não devemos baixar os braços. A violência doméstica é um problema que afeta milhares de famílias e que, só este ano, já levou em Portugal à detenção de 800 pessoas. Um número que é o retrato da gravidade daquilo que está em causa, pois estas detenções representam apenas uma parte do problema. 

Segundo dados divulgados pelo Jornal Expresso e pelo Observador,  "entre janeiro e março deste ano, foram registadas em Portugal quase 80 ocorrências diárias de violência doméstica. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima alerta para uma falta de sensibilidade da sociedade face a crimes que se mantêm permanentemente altos." 

Uma das medidas aplicadas aos agressores passa muitas vezes pela colocação de pulseira eletrónica, o que se traduz numa percentagem muito elevada de casos em que o agressor regressa à mesma casa onde a vítima habita, uma vez que na maioria dos casos essa é a sua residência. De acordo com dados divulgados pelo Observador, o "número de penas e de medidas com vigilância eletrónica no âmbito da violência doméstica aumentou 222,61% em 10 anos e, atualmente, representa 60% do total de pulseiras eletrónicas," tendo em conta que a 30 de abril se encontravam em vigor "1.653 pulseiras eletrónicas." Sabe-se que os números são altos, mas na prática temos de ver o que representam: de acordo com o Ministério da Justiça citado pelo Observador, "cerca de 9% dos reclusos que estavam nas cadeias portuguesas em 2025 cometeram crimes de violência doméstica." 

De relembrar que no ano de 2025, houve 27 mortos em contexto de violência doméstica em Portugal e, estranhamente, não há dados sobre a reincidência.

De acordo com dados do RASI, no que diz respeito à área da violência doméstica, foram registadas em 2025, "29.644 participações, mantendo este crime entre os mais reportados no país." Destes casos, houve um crescimento na ordem dos "8,6%" no que diz respeito especificamente a "participações por violência doméstica contra menores."

Deixo aqui também alguns contatos importantes:

Linha Telefónica de Informação às Vítimas de Violência Doméstica - número 800 202 148

A chamada é gratuita, anónima e confidencial, e o serviço está disponível 24 horas por dia, todos os dias.

Se não pode ou não quer telefonar, pode usar um dos canais alternativos, também gratuitos, anónimos e confidenciais:


Nestes links, encontra também algumas recomendações importantes: 

https://www.cig.gov.pt/area-portal-da-violencia/portal-violencia-domestica/apoio-vitimas-violencia-domestica/

https://www.cig.gov.pt/area-portal-da-violencia/portal-violencia-domestica/enquadramento/


Fontes:

https://observador.pt/programas/conferencia-de-imprensa/violencia-domestica-autoridades-detem-9-pessoas-a-cada-dia-2/

https://observador.pt/2026/05/22/numero-de-pulseiras-eletronicas-no-ambito-de-violencia-domestica-aumentou-222-em-10-anos/

https://www.publico.pt/2026/05/23/sociedade/noticia/criancas-abandonadas-mp-pede-prisao-preventiva-mae-companheiro-2175768

https://www.gov.pt/servicos/contactar-linha-telefonica-de-informacao-as-vitimas-de-violencia-domestica

https://www.cig.gov.pt/area-portal-da-violencia/portal-violencia-domestica/apoio-vitimas-violencia-domestica/

https://www.cig.gov.pt/area-portal-da-violencia/portal-violencia-domestica/enquadramento/

https://pessoas2030.gov.pt/2026/05/04/rasi-2025-destaca-persistencia-da-violencia-domestica-e-desafios-no-combate-ao-trafico-de-seres-humanos/

https://portugal.gov.pt/gc25/comunicacao/documentos/rasi-2025-relatorio-anual-de-seguranca-interna


24/12/2025

Violência doméstica - fim de ano com balanço negativo

Ao longo do ano, os casos de violência doméstica que resultaram em morte foram-se sucedendo. O de ontem, foi um dos ataques mais violentos, resultando na morte de um rapaz de apenas 13 anos. Por muito que nos custe a morte de uma criança, é ainda pior se pensarmos que não foi o primeiro. 

O agressor esfaqueou o rapaz de 13 anos, que era seu enteado, bem como a ex-companheira, tendo-se depois suicidado com a mesma arma. Antes de morrer, provocou ainda uma explosão de gás. O rapaz e o padrasto acabaram por falecer, tendo a mãe e um militar da GNR sofrido ferimentos devido a estilhaços da explosão. Um vizinho relatou que o carro do agressor era ali visto quase diariamente. A situação era conhecida por muitos dos habitantes da aldeia de Casais, em Tomar, até mesmo pela Junta de Freguesia e o homem "tinha já cumprido pena de prisão por homicídio qualificado." Esta família encontrava-se já "sinalizada na sequência de processos de violência doméstica registados em 2022 e 2023." Então, o que falhou? A prisão efetiva do agressor! Apenas isso.

As vítimas, apesar de tudo, acabam muitas vezes por aceder a visitas dos agressores, seja por causa do contato com os filhos, seja até porque ainda têm por estes sentimentos de amor ou de dependência. Não devem ser as vítimas a ser culpabilizadas, como tantas vezes são, a serem estas a ter de sair de casa, a mudar de freguesia ou, até, a sair do país. Tantas vezes, esta falta de proteção e de respeito pela vítima faz com que a mesma regresse para a mesma casa onde vive o agressor, ou que lhe abra a porta de sua casa, cedendo aos seus pedidos.

Em agosto, as imagens de uma câmara de videovigilância circularam por todo o lado. Os gritos da mulher e do seu filho mostraram-nos a realidade de muitas famílias. Não fossem as imagens e este episódio passaria, escondido como tantos outros, com as vítimas a apanhar e a calar! As agressões foram tão violentas que a mulher foi hospitalizada e sujeita a cirurgia de reconstrução facial! Mas pasmem-se, como eu me pasmei: depois de ter "passado de prisão preventiva para pulseira eletrónica em meados de outubro," o homem foi agora libertado, com "a condição de frequentar um curso de prevenção do alcoolismo e de violência doméstica." E isto aconteceu porque a mulher o perdoou. Perdoar é algo privado, algo íntimo, que nada devia influenciar nas decisões judiciais. Ele cometeu, pelo menos, dois crimes graves de agressão, um contra a mulher e outro contra o filho ao fazê-lo assistir às agressões à mãe, mas ficou em liberdade. 

A vítima, acabou por solicitar "que fosse restabelecido o contacto entre o filho e o pai." E se a mãe não quer proteger aquela criança, então não se encontra bem e deve também ser avaliada. A vítima pode estar a ser pressionada, a sua vida ou a do filho ameaçada, pode ter medo ou não estar a conseguir organizar a sua vida económica sem ajudas, ou pode apenas ser conivente e aí o problema será outro. Podemos apontar aqui muitas causas para este "perdão", que estranhamente vem contradizer aquilo que é visto nas imagens. Mas a justiça apenas devia decidir com factos e não opiniões: perdoar é, digo novamente, algo pessoal. Se o crime de violência doméstica não precisa que a vítima faça queixa, então porque é que, havendo um crime provado, o agressor não é condenado?

A diferença entre os dois casos? Até agora nenhuma. Ele não matou... pois em 2023 o outro também ainda não os tinha morto. Não matou a mulher, mas matou o filho dela, seu enteado. Entendem? Os sinais já lá estavam.

Os dados de 2025 não são animadores. Em apenas seis meses, morreram 13 pessoas vítimas de violência doméstica: entre janeiro e março "registaram-se 7 vítimas (6 mulheres e 1 homem) de homicídio voluntário em contexto de Violência Doméstica," no primeiro trimestre de 2025 e no "segundo trimestre deste ano morreram seis pessoas" (das quais cinco mulheres e um homem). No "terceiro trimestre deste ano, foram registados cinco homicídios em contexto de violência doméstica, elevando para 18 o número de mortos este ano." Os dados estão agora por atualizar. 

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/bombeiro-que-agrediu-mulher-na-madeira-sai-em-liberdade-apos-perdao-da-vitima_n1705704

https://www.dn.pt/sociedade/violncia-domstica-criana-de-13-anos-e-agressor-morrem-numa-exploso-em-tomar

https://www.cig.gov.pt/2025/07/dados-oficiais-relativos-a-violencia-domestica-em-portugal-1o-trimestre-de-2025/

https://www.publico.pt/2025/11/19/sociedade/noticia/violencia-domestica-18-mortes-policias-contabilizam-25327-ocorrencias-valor-alto-ultimos-sete-anos-2155237

15/08/2024

Violência doméstica - as falhas nas medidas aplicadas e na prevenção

Desde o início do ano, são diversos os casos de violência doméstica que terminaram em ferimentos graves ou mesmo em morte. E, claro, nem todas as situações de violência chegam a ser conhecidas pelas autoridades. A violência doméstica é já um crime público no nosso país, o que veio trazer mais denúncias e mais condenações, embora ainda estejamos muito longe daquilo que seria esperado. Mais uma vez, correndo o risco de me tornar repetitiva, venho alertar para um conjunto de casos exemplificativos desta situação, muitas delas, mostrando que as medidas de coação não foram aplicadas ou que as mesmas falharam!

No passado dia 28 de julho, uma mulher de 34 anos foi baleada na aldeia do Pego, concelho de Abrantes (Santarém). A situação "envolveu um casal em contexto de violência doméstica, com uma mulher de cerca de 30 anos a ser baleada por um homem de 61", tendo a vítima dado "entrada no hospital de Abrantes em estado crítico”. O suspeito já não co-habitava com a vítima, mas mesmo assim, esta não deixou de ser agredida violentamente.

Já no dia 5 de agosto, a GNR de Portalegre procedeu à detenção de um indivíduo "por suspeitas de violência doméstica contra a companheira, de 44 anos, envolvendo coação psicológica e emocional." Como medida de coação, foi aplicada "a proibição de contactar e permanecer a menos de 100 metros da residência da vítima" - o que na prática não evita que a mate se assim entender - sendo que foram apreendidas pela GNR "cinco armas de caça, dois punhais, um bastão de madeira, um machado, um cutelo, três facas, um zagalote, 208 cartuchos e 16 munições."

No dia 8 deste mês, um homem de 24 anos, foi indiciado pela "prática continuada do crime de violência doméstica contra a avó," e acabou por ser "detido na Ribeira Grande, ilha de São Miguel", nos Açores. Os crimes que alegadamente terão sido praticados serão, designadamente, atos de "violência física, psicológica, económica e patrimonial." Neste caso, foi decretada a prisão preventiva para o agressor.

No dia 12 de agosto, um indivíduo de 51 anos foi detido "por suspeita do crime de violência doméstica contra a sua companheira e os seus dois filhos, numa ação desencadeada após uma denúncia," que alertava para "agressões em curso no interior de uma residência" na cidade de Bragança. Os agentes quando chegaram ao local, ainda encontraram "o suspeito a agredir fisicamente as vítimas" tendo sido "necessário o uso de força" para conseguirem parar com as agressões e imobilizar o agressor. "Durante a intervenção, a vítima confirmou que as agressões físicas eram uma situação recorrente." Além das agressões físicas, o "suspeito usou uma faca de grandes dimensões para ameaçar as vítimas." Neste caso, foi decretada como medida de coação "a proibição de contacto com as vítimas, devendo manter um afastamento superior a 300 metros, controlado por pulseira eletrónica."

Mas também os homens são vítimas. Hoje, foi detida uma mulher, de 26 anos, que na passada quarta-feira, tentou "matar o companheiro," na localidade de Santa Cruz do Bispo. Esta mulher, "na sequência de uma discussão entre o detido e a vítima, que viviam juntos há já cerca de um ano”, terá agredido "o homem com vários golpes no tórax, pescoço e membros superiores," provocando-lhe vários ferimentos.

Num dos mais recentes casos, uma mulher de nacionalidade brasileira foi encontrada morta em casa, na vila do Carvoeiro, depois de alguns vizinhos e familiares terem estranhado a ausência dos dois membros do casal. Anteriormente, a mulher teria já "feito pelo menos uma queixa por violência doméstica na GNR", sendo que o homem já tinha sido "levado por diversas vezes pela GNR" e pelos bombeiros "ao hospital, com surtos psicóticos." O último episódio aconteceu na semana passada, mas o homem voltava sempre para junto da vítima, mesmo havendo conhecimento destas situações e do risco que ela corria. Infelizmente, o pior acabou por acontecer. A mulher foi encontrada com sinais de ter sido atingida "na cabeça por um tubo metálico e também esfaqueada no peito e no pescoço". Já o companheiro, de quem nada se sabia, acabou por ser encontrado esta manhã, enforcado.

As crianças são também vítimas desta situação, mesmo quando as agressões não lhes são diretamente dirigidas. "Segundo a lei, as crianças que assistem ou são expostas a uma relação violenta em casa passaram a ser consideradas, há 3 anos, vítimas autónomas, mesmo quando não são o alvo direto." Em 2023, o número de crianças vítimas de violência doméstica foi de 10343 crianças.

Estas são apenas algumas situações que podemos encontrar nas notícias, mas a verdade é que são apenas a ponta do iceberg. Em 2023, registaram-se 22 mortes (7 mulheres, 3 homens e 2 meninas). Acrescente-se que oito dos agressores se suicidaram depois de matarem as suas vítimas.

Fontes:

https://observador.pt/2024/07/28/mulher-baleada-em-abrantes-em-cenario-de-violencia-domestica/

https://observador.pt/2024/08/05/violencia-domestica-gnr-detem-homem-em-portalegre-por-coacao-psicologica-a-companheira/

https://observador.pt/2024/08/08/violencia-domestica-prisao-preventiva-para-suspeito-de-agredir-a-avo-na-ribeira-grande/

https://observador.pt/2024/08/12/psp-deteve-em-braganca-um-homem-de-51-anos-por-alegada-violencia-domestica/

https://www.dn.pt/2261553406/assassinadas-22-pessoas-em-contexto-de-violencia-domestica-em-2023/

https://sicnoticias.pt/pais/2024-06-16-video-10.343-criancas-vitimas-de-violencia-domestica-em-2023-e6f9028c

https://www.algarveprimeiro.com/d/pj-investiga-morte-de-mulher-em-casa-com-sinais-de-violencia-na-vila-de-carvoeiro/57850-1

30/12/2019

Um ano negro - violência doméstica

Este foi um ano com vários casos de violência doméstica que resultaram na morte de, ao que se sabe, 30 pessoas: 26 mulheres, 1 criança e 7 homens. O crime de violência doméstica é muitas vezes o ponto de partida para crimes de homícídio na forma tentada e consumada. Esta é uma temática que me deixa sempre bastante preocupada. Muitas vezes acontece mesmo ao nosso lado e não nos apercebemos ou desvalorizamos aquilo que se "escuta". Nos noticiários, há diariamente alertas. Nos programas diários contam-se relatos de superação mas, infelizmente, também se relatam muitos casos de homicídio em contexto de violência doméstica.


Um dos casos mais mediáticos foi o que vitimou a pequena Lara e a sua avó, Helena, no dia 5 de fevereiro. A avó foi esfaqueada à porta de casa e a menina, levada para parte incerta pelo pai. No dia seguinte, o corpo da menina aparece dentro do porta bagagens do carro do progenitor, que ainda avisou onde tinha deixado o carro antes de se suicidar. Nesta data, já eram 10 as vítimas de violência doméstica. O caso aconteceu aqui perto, o que me fez sentir uma certa revolta, por pensar como é que "ninguém" deu conta, ninguém o travou! Não teria havido forma de evitar a morte da avó e da menina?


Mas ao longo do ano, o número de casos foi-se acumulando! Em Torres Vedras, a 7 de abril, uma menina de 14 anos, encontrou o corpo da mãe, vítima de estrangulamento deixada dentro da banheira. A vítima tinha 44 anos e o crime terá sido cometido pelo ex-namorado da vítima. A menina de apenas 14 anos, estaria fora de casa a trabalhar como babysitter. Depois do crime, o suspeito conseguiu fugir, mas acabou por ser detido mais tarde pela GNR para ser presente a um juiz. 


Na passada sexta-feira, uma mulher foi morta em Leiria pelo companheiro. O homem, de 35 anos, degolou a mulher de 34 anos com um x-ato. Na mesma casa estavam presentes os filhos da vítima, de dois e seis anos, que estão atualmente sob a responsabilidade da Comissão da Proteção de Crianças e Jovens. Fonte policial revelou à agência Lusa que a PSP tinha sido alertada para discussões entre o casal, “mas nada previa este desfecho”.




Em Cascais, um homem de 43 esfaqueou mortalmente a ex-companheira este sábado à noite, à porta do prédio da vítima. O suspeito, entretanto detido pelas autoridades, terá ficado à espera da mulher no prédio onde esta habitava com o filho e o novo namorado. Esfaqueou-a duas vezes e depois pôs-se em fuga. A mulher acabou por morrer.


Estes são apenas alguns dos casos que marcaram as notícias deste ano e que nos fazem pensar. Sendo a violência doméstica um crime público e, sabendo nós que, em alguns destes casos, já haveria medidas de afastamento, o que falta ainda fazer para diminuir este número elevado de mortes?


De que forma é que é possível manter as vítimas em segurança? É que em muitos casos, as mortes ocorrem depois dos agressores saberem que tinham sido denunciados. E quando as autoridades nem as queixas aceitam? Se uma mulher ou um homem, se desloca a uma esquadra ou a um posto para pedir ajuda, como é que ainda existem elementos da autoridade que desvalorizam estas queixas? No final de 2018, cerca de 63% dos postos e esquadras de competência territorial possuía uma Salas de Atendimento à Vítima (SAV), refere o MAI. O objetivo é que "todas as novas infraestruturas da PSP e da GNR - a construir de raiz ou a serem recuperadas" já tenham ou venham a ter uma destas salas.


Eu própria já vi vários casos de violência doméstica, em que o mais extremo foi o de uma jovem mãe assassinada com dezenas de facadas e com um filho pequenino na mesma casa. Não foi este ano, mas por muitos anos que viva nunca vou esquecer aquela imagem. Nunca mais me esquecerei do cenário, nem penso que algum me sairá da cabeça a sensação de perceber que aquela mulher deu luta por toda a casa e que havia salpicos de sangue no chão, nas paredes, no sofá, no teto... e muito, muito, nas mãos e roupinha da criança que estava a tentar "acordar" a mãe.




Muitos outros casos não resultaram em morte, mas em agressões muito graves e com danos físicos e psicológicos graves. E quando as vítimas ganham a coragem para se queixar, são muitas vezes "detidas" com palavras que desvalorizam o que estão a passar e em alguns casos com incentivos à reconcilização do casal. Isto transmite à vítima que ela não é importante o suficiente para que se importem com ela, fortalecendo o poder que o agressor investe sobre a vítima.


Fontes:


https://tvi.iol.pt/noticias/sociedade/mortos/os-crimes-de-violencia-domestica-que-marcaram-2019


https://sol.sapo.pt/artigo/652831/viol-ncia-domestica-mortes-voltam-a-subir


https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/violencia-domestica-mais-mulheres-mortas-em-2019-do-que-em-2018


https://www.esquerda.net/artigo/violencia-domestica-matou-30-mulheres-em-portugal-so-em-2019/65152


https://www.dn.pt/pais/dois-meses-e-11-dias-23-pessoas-mortas-14-por-violencia-domestica-10667254.html


 

07/03/2019

Luto pelas vítimas de violência doméstica

Hoje é dia de Luto nacional em homenagem às vítimas de violência doméstica e às suas famílias. A data foi determinada no final de fevereiro, no mesmo dia em que o Governo deu luz verde à criação de uma equipa técnica multidisciplinar para a melhoria da prevenção e combate a este fenómeno.


Hoje às 12h00, o Primeiro-Ministro António Costa, os membros do Governo presentes no Conselho de Ministros e os dirigentes e funcionários da Presidência do Conselho de Ministros fizeram um minuto de silêncio, na escadaria frontal do edifício. Vale o que vale e não muda o que aconteceu. Não muda o facto de aquelas mulheres não terem sido devidamente protegidas. Ainda se escuta da parte de vítimas de violência doméstica que as autoridades (algumas) em vez de receberem a sua queixa lhes dizem para tentar a reconciliação.


A ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva, garantiu "total empenho" do executivo na melhoria e reforço das respostas a esse tipo de casos. Esta data vem alertar para a problemática cada vez mais visível das vítimas de violência doméstica e para o aumento do número de mortos que dela advém.


A nossa sociedade, ainda tem costumes de submissão de um dos elementos do casal perante o outro, e que normalmente é a mulher que se submete, o que vem de hábitos patriarcais antigos. Ontem, mais uma vítima declarada. 11º vítima deste ano e ainda vamos apenas em março. Neste caso, uma mulher foi morta pelo marido, que se entregou mais tarde às autoridades, em Vieira do Minho, distrito de Braga. 


Há ainda a lamentar a criança de dois anos que morreu no mesmo contexto. Sobre isto, ainda estamos todos revoltados e sem saber como reagir.


Fontes:


https://www.tsf.pt/sociedade/7-de-marco-dia-nacional-de-luto-nacional-contra-a-violencia-domestica-10630482.html


https://www.cig.gov.pt/2019/03/7-marco-dia-luto-nacional-pelas-vitimas-violencia-domestica/


https://www.publico.pt/2019/03/07/sociedade/noticia/dia-luto-nacional-violencia-domestica-1864445


 

Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...