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11/09/2025

Desastre de Alcafache

Dias depois do acidente que ocorreu em Lisboa e que voltou a trazer à discussão pública a qualidade dos serviços de caminhos de ferro em Portugal, relembro um outro caso: o da colisão entre um comboio internacional e um comboio regional, que ocorreu a 11 de setembro de 1985, na região norte do país, mais propriamente em Moimenta da Beira. Podem encontrar. com um pouco mais de detalhe, a publicação no meu novo blog: https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/o-maior-acidente-ferroviario-do-seculo-1059?tc=209085692981.


O acidente aconteceu perto do apeadeiro de Moimenta-Alcafache, a 11 de setembro de 1985 e foi mesmo considerado como um dos maiores acidentes ferroviários do país. Esta colisão que envolveu "um comboio internacional e um regional," ficou para a história pela sua violência e quanto ao número de mortos, apenas se pode estimar, "já que a larga maioria dos corpos nunca foram identificados."


É possível ainda lamentar que, teria bastado uma chamada para um dos maquinistas e tudo se poderia ter evitado. Os factos são os seguintes: 


"Às 15h57, parte de Campanhã, no Porto, um comboio Sud-Express com destino a Paris-Austerlitz" e que seguirá caminho passando por Vilar Formoso. "Levava à volta de 400 passageiros, a maior parte emigrantes que tinham vindo passar férias a Portugal. Sai com um atraso de 17 minutos."


Precisamente "às 16h55, parte da estação da Guarda um comboio regional com destino a Coimbra, cumprindo o horário." Uma vez que o "Sud-Express" irá atravessar "a faixa centro-interior portuguesa, ambos os comboios terão de, a certa altura da sua viagem, passar no mesmo troço da Linha da Beira Alta, eixo ferroviário central na região, mas que na maior parte do percurso tem apenas uma única via."


"Com o "ganho de tempo" entretanto conseguido, havia que "alterar o cruzamento do comboio Internacional, onde estariam cerca de 350 passageiros, com o Regional 1439, que circulava no sentido oposto, da Guarda para Coimbra. Como a linha era, e ainda é, de via única, esse cruzamento apenas podia acontecer numa estação, e isso devia agora ocorrer em Nelas — em vez do local habitual, Mangualde."


"O Sud-Express chega a Nelas às 18h19. Entretanto, o comboio regional alcança quatro minutos depois a estação de Mangualde, a poucos quilómetros. Aqui, tendo em conta o atraso do comboio internacional, esta locomotiva devia ter aguardado. Mas não o fez." 


E é aqui que uma decisão provoca um acidente que poderia ter sido evitado. Na época dependiam do "posto de comando em Coimbra" para comunicar "às estações a mudança no cruzamento dos comboios, e aos chefes de estação comunicar entre si antes de mandar avançar comboios, para se assegurarem de que o caminho estava livre."


Mas isso não aconteceu e o "comando em Coimbra, que supervisionava a linha com base nas informações dos chefes de estação, não comunicou a Nelas a necessidade de o Internacional esperar lá pelo Regional. Com essa informação em falta, os chefes de Nelas e Mangualde não sabiam que estavam a enviar dois comboios para uma colisão fatal." O então "responsável da estação de Nelas" ainda chegou a ligar "para a passagem de nível, pedindo que se fizesse sinal para o comboio parar, com petardos na via ou o agitar de uma bandeira," porém, infelizmente, o pedido chegou tarde e "o comboio já tinha passado. O acidente era agora inevitável " e foi confirmado pela visualização de "uma nuvem de fumo a elevar-se no meio do pinhal."


É indiscritível e assustadora a imagem da "certeza assustadora de choque frontal." Esta impossibilidade de "comunicar, na altura, com dois comboios em andamento, os passageiros e funcionários circulando em ambas as viaturas rumam a um desastre inevitável," que ocorreria "às 18h37, quando o internacional 315 e o regional 1324 chocaram com estrondo e violência, descarrilando ao longo de dezenas de metros num espaço florestal." Embora tivessem sido os homens que se encontravam na passagem de nível e de uma ambulância que passava na estrada no momento a dar o alerta, acabaram por ser os populares os primeiros a tentar ajudar, resgatando mortos e feridos por entre os ferros retorcidos, que a deflagração de violentos incêndios, que "o derrame de gasóleo das locomotivas gerou" nas carruagens e "no pinhal em redor," tornou impossível.


Os bombeiros que, algum tempo depois, ali chegaram e que "participaram na operação de salvamento descreveriam um cenário de absoluto horror. Desde terem de descolar literalmente o que restava de corpos de pessoas, inclusive pais abraçados aos filhos num acto derradeiro e desesperado de proteção." Muitas das vítimas morreram carbonizadas. "A demora no auxílio deveu-se ao facto de o local onde ocorreu o acidente ser remoto, mas também à falta de organização dos meios, num país pouco habituado à gestão deste género de tragédias."


O presidente da República da altura, Ramalho Eanes, visitou o local e falou com sobreviventes. Foi no seu "helicóptero que acabaria por ser transportado para o hospital" de São José, em Lisboa, um dos feridos graves, depois realizada "uma análise do próprio médico presidencial." Também a "Força Aérea Portuguesa e o Exército colaboraram activamente nas operações, nomeadamente no resgate dos feridos e no transporte dos mesmos por via aérea."


No local da catástrofe, "Eanes, ciente da importância do sucedido e também dos fantasmas de um país que dez anos antes vivera sob um ditadura que controlava as notícias, declarou que o país tinha o direito de saber o que se passara ali, e na hora." As imagens, recolhidas por um operador de vídeo que foi ao local do acidente, naquele dia, que havia registado tudo o que lhe tinha sido possíveis, foram depois enviadas para "os estúdios da RTP no Porto" para serem transmitidas e, assim, se mostrar aos portugueses o resultado daquele desastre. "Na sequência desta transmissão televisiva, centenas de cidadãos dirigiram-se aos hospitais para dar sangue."


Ainda hoje não se sabe exatamente o número de vítimas, estando atualmente assumidas como mortas, as vítimas contabilizadas à época como desaparecidas. As contagens, foram sendo feitas ao longo dos anos, mas nunca se soube um número exato. "Algumas estimativas colocam o número de vítimas de Alcafache na ordem dos 150."


No local do acidente foi aberta "uma vala comum. Aqui se reuniram todos os pedaços soltos de corpos e cinzas calcinadas possíveis e, depois de uma pequena cerimónia, fechou-se então esta sepultura improvisada."


"O primeiro-ministro, Mário Soares, chegou uma hora depois, anunciando ao país três dias de luto nacional e um inquérito para apuramento dos factos." Este inquérito, "rapidamente concluiu que este acidente foi causado por erro humano." Depois de quatro anos de julgamento, o juís absolveu os arguidos pois era a palavra de um contra a do outro e não existiam registos.


No mesmo ano, tinham já sido registados oito "desastres ferroviários," embora de menor dimensão. "Antes de 1985, os fatídicos desastres na Linha Porto-Póvoa em 1963, com entre 91 e 102 mortos, e em Santa Clara, Odemira, dez anos antes, registando 54 vítimas, habituaram o país a esta realidade. Aliás, um ano antes do desastre de Alcafache-Moimenta, a colisão entre uma camioneta e uma automotora em Recarei causa 17 mortos.


Naquele dia, não houve forma de evitar esta catástrofe e, hoje, haveria? Sim ainda existem linhas que em algumas regiões se tornam em pontos de circulação únicos e este "erro" que esteve na origem deste cenário “aterrador”, poderia voltar a repeir-se uma vez que "Portugal ainda tem linhas dependentes de chamadas entre estações para controlar os comboios." No entanto, depois deste desastre "foi instalada uma rede de sistemas mais avançados de comunicação e sinalização do tráfego, o que teria impedido este desastre, e ocontrolo de velocidade, que tornou estes desastres muito mais difíceis de acontecer." Ocorreu ainda a "introdução desistemas de rádio solo, que permitem que os maquinistas comuniquem entre si e com as centrais de controlo."


Apesar disso, não nos podemos esquecer que "quarenta anos depois, a presença do cantonamento telefónico em quatro linhas significa que há 412,5 quilómetros da ferrovia portuguesa onde um erro humano pode ter consequências mais graves." Este sistema, que data do século XIX, consiste num "sistema de operação de uma linha ferroviária onde os agentes numa estação pedem autorização à estação seguinte para que o trem ou comboio possa avançar." Inicialmente, chegou a ser feita por telégrafo. Atualmente, tal como era na época do acidente de Alcafache, "para controlar a circulação ferroviária, as linhas são divididas por cantões, que não podem ser ocupados por mais do que um comboio ao mesmo tempo. Esses cantões tanto podem corresponder a toda a linha entre duas estações — o que acontece no sistema telefónico e no de interpostos — como espaços mais reduzidos, de poucas centenas de metros, num equilíbrio entre a capacidade necessária na linha e a velocidade permitida aos comboios."


Fontes:


https://www.nationalgeographic.pt/historia/11-setembro-1985-quando-a-linha-da-beira-alta-foi-palco-de-uma-tragedia-nacional_4197


https://www.rtp.pt/noticias/pais/alcafache-40-anos-jose-augusto-sa-nunca-encontrou-nem-o-pai-nem-a-irma_a1682895


https://pt.wikipedia.org/wiki/Cantonamento_telef%C3%B3nico


https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/o-maior-acidente-ferroviario-do-seculo-1059?tc=209085692981

17/04/2025

Faleceu o cantor Nuno Guerreiro e perdeu-se mais uma grande voz

Faleceu Nuno Guerreiro. Para mim, uma das maiores vozes portuguesas da atualidade. Ainda no outro dia, mostrava ao meu filho a canção "Caçador de sóis", uma das minhas preferidas.

https://youtu.be/SYV6MECcouI

Nascido em Loulé, a 5 de Setembro de 1972, cedo Nuno quis ir para a capital estudar. Estudou na Escola de Dança do Conservatório Nacional, para onde foi com apenas 16 anos para tentar uma carreira como bailarino, mas foi com a limpidez e singularidade da sua voz que se destacou. Dançou no palco do Teatro São Luiz, tendo também sido neste palco que cantou pela primeira vez, numa colaboração "com o grupo Diva de Natália Casanova." 

Carlos Paredes viu-o a cantar e convidou-o "a participar, em 1992," nos seus concertos de Lisboa e do Porto. "Colaborou também com o ex-Madredeus Rodrigo Leão." Mais tarde, integraria a "Ala dos Namorados", convidado por João Gil e Manuel Paulo.

Gravou a solo o álbum "Carta de Amor", e o álbum "Tento Saber" em 2002. Juntou-se a outros grandes nomes para um tributo a José Afonso (com Olavo Bilac, dos "Santos & Pecadores" e Tozé Santos da banda "Per7ume"). Em 2014 lança o álbum "Felicidade." Em 2021 participou no programa "A Máscara" da SIC, onde desempenhou brilhantemente o papel de "Coruja".

Atualmente, Nuno era colaborador no Cineteatro de Loulé, na área da produção e estava também envolvido num projeto intitulado "Nuno Guerreiro & Mau Feitio, composto pelos músicos do Algarve Ricardo J. Martins, João Palma, Vítor Bacalhau e Vasco Moura. O grupo deu vários concertos recentemente." Chegou mesmo a dar dois espetáculos, "com casa cheia", nos dias 30 e 31 de março, juntamente com os 'Mau Feitio' e com a Banda Filarmónica da Sociedade Recreativa Artistas de Minerva. 

Nuno Guerreiro tinha apenas 52 anos. Lançou o seu último trabalho como vocalista da banda Ala dos Namorados em 2023. O seu último trabalho a solo tinha sido lançado no ano anterior e encontrava-se ainda a colaborar com a AR para a produção de um evento nas celebrações do 10 de Junho deste ano.

Uma enorme perda para o nosso panorama musical... fica por saber o que esta voz ainda teria para nos dar, tal o seu talento! 


Fontes:

https://sicnoticias.pt/cultura/musica/2025-04-17-morreu-nuno-guerreiro-vocalista-da-ala-dos-namorados-893846d5

https://pt.wikipedia.org/wiki/Nuno_Guerreiro_(cantor)

https://famashow.pt/famosos/2025-04-17-revelada-causa-da-morte-de-nuno-guerreiro-vocalista-da-ala-dos-namorados-039c910f


 


 

12/08/2023

120 anos de uma Associação Real

Hoje comemoram-se os 120 anos dos Bombeiros de Sesimbra. A minha primeira casa, o meu primeiro trabalho, mesmo que na altura com apenas 14 anos eu tivesse uma perspetiva diferente daquela que hoje tenho. Deixo aqui hoje um pequeníssimo registo.


Hoje quero dar os parabéns a todos os homens e mulheres que fizeram e fazem a história daquela casa. Uma associação que nasceu em 1903, fundada por El-rei Dº Carlos I. O rei e o princípe Dº Luiz Filipe (mortos no Regicídio de 1908) foram de facto Presidentes de Honra e Comandantes Honorários desta casa. Em 1904 recebeu o título de "Real".


No Blogue ca Família Real Portuguesa, podemos ler que a "atribuição dos títulos honoríficos ficou a dever-se ao apoio concedido pela coroa à Fundação dos BVS, para o qual concorreu a influência do capitão de fragata D. Fernando de Serpa Pimentel, comandante do iate real "Amélia", Ajudante de Campo de Dom Carlos e amigo do Tenente Alfaro Cardoso, Comandante da Guarda Fiscal em Sesimbra, grande entusiasta da Comissão Organizadora da Associação de Bombeiros."


Na verdade, ambos ofereceram grandes donativos: "o Rei disponibilizou-se desde logo a atribuir a quantia de 300 mil réis destinados à aquisição de uma bomba tipo americana" e o "Príncipe Dom Luiz Filipe decidiu apoiar monetariamente a compra de uma manga de salvação, concedendo para o efeito a verba de 50 mil réis." Estas informações estão na obra de António Reis Marques, sobre a história da Associação e a que é feita referência no blogue (por acaso, eu também tenho esta monografia e devo dizer que está excelente e relata muito bem a história da vila de Sesimbra e da Associação). 


A Associação adoptou como bandeira a então bandeira nacional, azul e branca, passando o símbolo da Monarquia a ser também o dos bombeiros. Mais tarde, com o advento da república, foi adoptada a nova bandeira verde-rubra, situação que se mantém, pelo que a Associação "em qualquer acto, formatura ou desfile, em que se apresente, tem direito às honras e prerrogativas devidas à bandeira nacional", escreve António Reis Marques no seu livro. 


Alguns dirão que os bombeiros de Sesimbra não serão tão antigos, contando apenas desde o ano de 1927, altura do retorno efetivo da atividade dos mesmos na medida em que após o Regicídio e a forte ligação desta casa à monarquia, houve uma grande dificuldade em retomar em pleno as atividades. Mas na verdade, a associação continuou em funções. Em 1931 têm a sua primeira ambulância motorizada.


O local onde está hoje o quartel-sede não foi a sua primeira localização. Ali havia um aterro, onde se transferia o peixe transportado em burros para as carroças que depois o iam distribuir por outras zonas. Este mesmo aterro, ficando numa zona limítrofe à vila foi também aproveitado para construção do Quartel dos Bombeiros Voluntários. Numa fase mais recente, próxima dos finais dos anos 70, o Largo viria a ser remodelado, permitindo maior eficiência na circulação. Em 1978, por deliberação da Câmara Municipal, receberia o nome de Largo dos Bombeiros, numa clara e reconhecida homenagem à corporação de bombeiros.


Na minha primeira noite de piquete, em 1998, eu tinha apenas 14 anos. Sabia pouco da vida mas era uma miúda cheia de vontade de fazer e de aprender. E felizmente, isso nunca me foi vedado pelos meus pais. Conhecia o quartel por já fazer parte da fanfarra à cerca de um ano e pouco, mas não tinha experiência nem formação nenhuma. Na época, era comandante Fernando Gato, e tive a sorte de conhecer e aprender com grandes bombeiros da altura. Recebi as minhas divisas de bombeiro com 17 anos. Era uma casa muito tradicional com uma grande relação com as gentes e com os costumes da terra. Era na altura o quartelo que enchia quando a sirene soava e vínhamos de todos os lados, largando tudo o que não fosse prioritário para acudir aos outros. Muita coisa mudou em mim desde então.


Cresci ali como mulher e como pessoa e levei com as minhas primeiras desilusões da vida. Ali aprendi que ser mulher num mundo de homens é difícil, aprendi a defender as minhas próprias ideias e a argumentar. Aprendi o valor da vida e também da morte. Ali cresci de menina a mulher, ganhei uma carapaça da qual tem sido difícil me livrar, ri muito e chorei ainda mais. Dei a mão na morte e assisti ao nascimento da vida.


 


Fontes:


MARQUES, António Reis, Bombeiros Voluntários de Sesimbra. Origem, Formação e Percurso (1903-2003)


http://realfamiliaportuguesa.blogspot.com/2009/07/dom-carlos-e-principe-dom-luiz-filipe.html


http://ruascomhistoria.sesimbra.pt/largo-dos-bombeiros-voluntarios/

18/05/2023

Dia da Espiga

Dia da Espiga


Lembraram-me hoje que é Dia da Espiga, ou Quinta-Feira da Ascensão. Lembro-me de ver os raminhos atrás da porta da cozinha da minha avó, ou na casa das vizinhas, mas nunca liguei muito a isso. É uma tradição muito antiga e como tal decidi procurar um pouco mais sobre esta data e o simbolismo do raminho.


Neste dia celebra-se a consagração da Primavera, uma tradição ligada à agricultura. Começou há muito muito tempo com os celtas e os romanos a agradecerem aos deuses as primeiras colheitas do ano. Mais tarde, de acordo com a tradição católica, começou a festejar-se neste dia a subida de Jesus Cristo aos céus 40 dias após a sua ressurreição (na Páscoa).


Segundo a tradição, o Dia da Espiga era considerado “o dia mais santo do ano”, em que não se devia trabalhar e que as pessoas partiam num passeio matinal pelos campos para colherem espigas e depois fazerem um ramo que incluía também flores silvestres como papoilas ou malmequeres, raminhos de oliveira, de alecrim e de videira. Infelizmente, agora trabalha-se neste dia e encontrar espigas por aí também não é tarefa fácil.


Por ter uma ligação com a Natureza, pensa-se que este costume está relacionado com antigas tradições pagãs associadas às festas da deusa Flora que aconteciam por esta altura. Com a chegada do Cristianismo, a Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e tendo em conta as datas de celebração da Páscoa, em Portugal este dia foi associado à Festa da Ascenção, celebrada 40 dias depois da Páscoa e que em tempos foi comemorada com feriado nacional.


Cada planta que é colocada no ramo, está associada a um significado:



  • As espigas representam o pão, como a base do sustento da família, e a fecundidade.

  • A papoila significa o amor e a vida.

  • O malmequer simboliza a riqueza e a prosperidade.

  • A oliveira significa a Paz e a Luz. 

  • O alecrim representa a saúde, a força e resiliência.

  • A videira simboliza o vinho e a alegria.


Ditam os antigos costumes que o ramo deve ser colocado atrás da porta de entrada de casa e apenas deve ser substituído no ano seguinte, por um ramo novo, como símbolo de sorte e prosperidade do lar.


Além destas associações ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da tarde, tomando mesmo, nalguns sítios do país a designação de Dia da Hora.


Nas localidades em que assim é entendida esta quinta-feira, acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e encantatórios poderes da data e nas igrejas realiza-se um serviço religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam”. Nalgumas povoações era também do meio-dia à uma que se colhia a espiga.


Não se cozia nem se remendava e havia quem deixasse comida feita de véspera para não ter de cozinhar neste dia. Em algumas aldeias, era também costume guardar-se pão, para que durante todo o ano não falte este alimento em casa. Este pão consumia-se no ano seguinte «sem bolor», prova da santidade do dia.


Fontes:


https://hortodocampogrande.pt/flores/dia-da-espiga-conheca-a-historia-e-o-simbolismo-desta-data/


https://ensina.rtp.pt/artigo/quem-sabe-o-que-e-o-dia-da-espiga/


OLIVEIRA, Ernesto Veiga – Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984. 357 p.(Colecção Portugal de Perto n.º 6) in https://www.santovarao.net/17-de-maio-dia-da-ascensao-dia-da-espiga-ou-quinta-feira-de-espiga/


 


 

13/05/2023

A Eutanásia - liberdade para morrer

O tema que escolhi hoje, é bastante complexo e divide ainda muitas opiniões. A minha publicação é apenas para que se fale, para que se saiba do que se trata e para que se possam esclarecer algumas das opiniões divergentes. Para já, acho que a aceitação deste decreto, não significa que sejamos obrigados a fazê-lo um dia. Mas permite que quem o queira fazer, possa seguir a sua vontade, sem estar a cometer algo que vá contra a lei. E sim, ainda há muito a fazer em especial no que diz respeito aos cuidados paliativos, ao acesso aos cuidados de saúde e ao acesso a tartamentos e terapias.


“A Assembleia confirma, o Presidente promulga. Eu vou promulgar, claro, é o meu dever constitucional”, afirmou o Presidente da República aos jornalistas. O diploma sobre a morte medicamente assistida, que tinha sido vetado pelo Presidente da República, foi aprovado esta sexta-feira com um total de 129 votos a favor, 81 votos contra e uma abstenção, resultados anunciados pelo presidente do parlamento, Augusto Santos Silva, no final da votação.


Depois de dois vetos presidenciais e dois chumbos no Tribunal Constitucional, o Parlamento português aprovou, esta sexta-feira, pela quinta vez a lei para a morte medicamente assistida. A proposta determina que a morte através de eutanásia só pode ser realizada e maiores de 18 anos e se o suicídio assistido for impossível por incapacidade física do doente.


A Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP) lamentou hoje que o parlamento tenha confirmado o decreto sobre a morte medicamente assistida e depositou agora a sua “esperança” num pedido de fiscalização sucessiva da lei. Também o Papa Francisco se manifestou triste com esta notícia. 


A AMCP salientou ainda que os profissionais de saúde dispõem atualmente de “meios muito eficazes para apaziguar o sofrimento físico, psicológico e espiritual” dos doentes e reafirmou que a Ordem dos Médicos não deve participar na Comissão de Verificação. E é aqui que coloco a questão: será que tem mesmo?


Eu já vi tanto sofrimento que sei que isto não é verdade. Viver com feridas cheias de pus, com dores lancinantes durante todo o dia e noite, durante os tratamentos, é criminoso por si só. Nem sempre os tratamentos são feitos sob anestesia. Pensem em doentes oncológicos graves em que o sofrimento é a sua única certeza, em doentes acamados que ficam anos presos a uma cama sem qualquer perspetiva de melhoria, existem inúmeras situações em que eu acho que eutanasiar, se for a única hipótese de acabar com a dor e com o sofrimento e se for da vontade da pessoa, que assim seja.


Este é um tema muito polémico e iremos ainda ouvir falar muito dele, dos argumentos contra e dos argumentos a favor. Pessoalmente, eu sou a favor.


Entre os argumentos a favor da prática da eutanásia estão a alegação de que as pessoas têm o direito a tomar decisões sobre o seu corpo e escolher como e quando querem morrer, que o direito à morte está implícito nos restantes Direitos Humanos, que a lei não deve interferir em assuntos da esfera privada que não prejudiquem outras pessoas, que a eutanásia continua a ser praticada mesmo que ilegal e que a morte não é necessariamente má.


Entre os argumentos contra a prática de eutanásia estão a alegação que a eutanásia é contra a vontade de Deus, que não respeita a inviolabilidade da vida, que desvaloriza o valor da vida, de que a permissão da eutanásia voluntária levaria a casos de eutanásia involuntária e de que cuidados paliativos de qualidade retiram a necessidade de praticar eutanásia. Algumas pessoas alegam que, ainda que moralmente justificável, a eutanásia pode ser usada para encobrir um homicídio.


Nos últimos dias de vida da minha mãe, vi o seu sofrimento, assisti às despedidas que ela acabou por fazer, sabendo que já nada havia a fazer por ela e que a única coisa que podia esperar, era a dor, intercalada em períodos de inconsciência. A medicação já não fazia efeito. Os rins pararam, respirar era difícil e quando ela estava consciente, a sua expressão era de sofrimento. Não comeu durante vários dias, porque o seu corpo não aceitava comida. Já não urinava nem defecava, ficou praticamente cega, mas ainda conseguia ouvir. Felizmente, a vida tomou o seu curso e o coração acabou por parar, sem interferência de ninguém. Ver o seu sofrimento terminado foi ao mesmo tempo uma grande dor e um grande alívio. Se nessa altura, houvesse a eutanásia, quase de certeza que ela a ser capaz de manifestar a sua opinião, a teria escolhido. Sei porque ela me tinha falado sobre não a deixar sofrer quando deixassem de haver tratamentos disponíveis.


A Eutanásia pode definir-se como o ato intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa. Geralmente a eutanásia é realizada por um profissional de saúde mediante pedido expresso da pessoa doente.


A eutanásia é diferente do suicídio assistido, que é o ato de disponibilizar ao paciente meios para que ele próprio cometa suicídio. Entre os motivos mais comuns que levam os doentes terminais a pedir uma eutanásia estão a dor intensa e insuportável e a diminuição permanente da qualidade de vida por condições físicas como paralisia, incontinência, falta de ar, dificuldade em engolir, náuseas e vómitos. Entre os fatores psicológicos estão a depressão e o medo de perder o controlo do corpo, a dignidade e independência.


A eutanásia pode ser classificada em voluntária e involuntária. Na eutanásia voluntária é a própria pessoa doente que, de forma consciente, expressa o desejo de morrer e pede ajuda para realizar o procedimento. Na eutanásia involuntária a pessoa encontra-se incapaz de dar consentimento para determinado tratamento e essa decisão é tomada por outra pessoa, geralmente cumprindo o desejo anteriormente expresso pelo próprio doente nesse sentido.


A eutanásia pode também ser classificada em ativa e passiva. A eutanásia ativa é o ato de intervir de forma deliberada para terminar a vida da pessoa (por exemplo, injetando uma dose excessiva de sedativos). A eutanásia passiva consiste em não realizar ou interromper o tratamento necessário à sobrevivência do doente.


 


Fontes:


https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/papa-francisco-critica-aprovacao-da-lei-da-eutanasia-no-parlamento-portugues


https://pt.euronews.com/2023/05/13/marcelo-promulga-lei-da-eutanasia-porque-a-constituicao-o-obriga


https://pt.wikipedia.org/wiki/Eutan%C3%A1sia


 


 

07/05/2023

Dia da Mãe

Hoje festeja-se em Portugal o dia da mãe, mas nem sempre assim foi. A tradição é que se ofereçam flores, cartões ou outros presentes às mães nestes dias, mas como surgiu este dia e porquê?

O Dia da Mãe é uma data comemorativa que, em Portugal, se celebra no primeiro domingo do mês de maio, por isso acaba por não ter um dia exato. Nem todos os países têm esta tradição e dos que têm nem todos o festejam na mesma data.

A data chegou a ser celebrada a 8 de dezembro em Portugal, que é o Dia da Imaculada Conceição. Mas, a pedido da igreja, a comemoração foi mudada para que o Dia da Imaculada Conceição não perdesse o seu destaque. Assim, a comemoração passou a ser feita no mês de maio, porque é o mês conhecido entre os católicos como o mês de Maria, mãe de Jesus.

O Dia da Mãe é um dia de homenagem e de agradecimento. Para mim, é uma data feliz porque tenho o privilégio de ser mãe. Apesar de ter perdido a minha, neste dia, celebro também as outras mães (avós, tias e amigas) que merecem este destaque neste dia. Hoje por exemplo, pude passar o dia com o meu filho e pude almoçar com o meu pai e com uma das minhas avós, por isso, foi um dia bom para mim. Para ser especial, um domingo não precisa de muito mais, nem de prendas, nem de flores, nem de cartões nem mensagens, basta que os meus estejam presentes ou que eu me possa fazer presente nas suas vidas!

Sabiam que a comemoração mais antiga do Dia da Mãe remonta às comemorações primaveris da Grécia Antiga? Era feita em honra de Rhea, mulher de Cronos e Mãe dos Deuses.

Em Roma, as festas do Dia da Mãe eram dedicadas à Cybele, a mãe dos deuses romanos, e as cerimónias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos antes do nascimento de Cristo. Ou seja, o dia da mãe, apesar de estar ligado à religiosidade, era uma festa politeísta e não monoteísta, e por isso é mais um dos vários exemplos em que se começou a fazer uma associação a um festejo muito mais antigo.

Durante o século XVII, em Inglaterra celebrava-se no 4º domingo da Quaresma (conjunto de 40 dias que antecedem o domingo da Páscoa cristã) um dia chamado “O Domingo da Mãe”, dedicado a todas as mães inglesas. Nesta época, a maior parte da classe baixa inglesa trabalhava longe de casa e vivia com os patrões. Assim, os criados tinham um dia de folga neste domingo especial e eram encorajados a regressar a casa e passar esse dia com a sua mãe.

Fontes:

https://www.calendarr.com/portugal/dia-da-mae/

https://www.mulherportuguesa.com/lazer/festas-tradicoes/verdadeira-historia-do-dia-da-mae/

04/05/2023

Senhor das Chagas... as tradições da minha terra

Todos os anos, são centenas as pessoas que enchem as ruas da vila de Sesimbra para assistir à procissão em honra do Senhor Jesus das Chagas, padroeiro dos pescadores de Sesimbra, que se realiza na tarde de 4 de maio, feriado municipal.


Desde pequena que me lembro da festa do Senhor das Chagas. A imagem, imponente, do Cristo pregado na cruz, percorre a 4 de maio algumas das ruas da vila, saindo da Igreja "de cima", fazendo a sua tradicional paragem no Largo da Marinha e terminando novamente na Igreja Matriz de Santiago. A procissão é composta por diversos elementos desde os "anjinhos", aos pescadores, escuteiros, à Banda da Sociedade Musical Sesimbrense e à Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Sesimbra. Nas janelas, algumas pessoas colocam colchas brancas e muitas flores. O andor é sempre enfeitado com muitas flores e é levado por representantes das várias instituições e pessoas da comunidade sesimbrense. Pelo caminho, vão alternando os hinos tocados pela Fanfarra e pela Banda, com cantares das pessoas que acompanham, tocando em especial "A teus pés".


Mas a festa começa vários dias antes, quando a imagem é trazida em procissão (mais pequena e simples) do local onde está todo o restante ano, do altar da Igreja do Senhor Jesus das Chagas, conhecida também como a Igreja da Misericórdia e fica durante cerca de duas semanas na Igreja Matriz de Santiago. Durante este tempo, é realizada a Novena - nove missas, à noite onde se celebram diversos temas e instituições - os pescadores, os bombeiros, os voluntários, as crianças...


Durante estes dia decorre também a feira. Antes a feira era realizada na Avenida da Liberdade, com barraquinhas que iam desde a curva "do desportivo" até ao Largo do Jardim. Os carrocéis eram muitos e ficavam no Campo da bola (hoje Estádio Vila Amália), mas agora a festa é mais pequenina, tendo perdido muito do seu brilho e tradição. Lembro-me que era nesta altura que se compravam andorinhas para colocar nas fachadas das casas, ou que se trocavam as panelas por outras novas e se adquiriam novas peças para os enxovais. Nós, as crianças, nessa altura, gostavamos de umas bolas coloridas cheias de serradura e com um elástico que prendiamos no dedo. Havia também as farturas e as pipocas que só se comiam nessas noites. Ah! E vestiamos sempre roupa nova (era o dia dos vestidos feitos pela avó, ou comprados na boutique e dos sapatos novos com "souquetes").


E são boas memórias as desses dias...


Durante alguns anos participei nas procissões, através da Fanfarra onde toquei caixa e timbalão. Pisavamos o alecrim, desfilando praticamente na frente da procissão. Rapidamente, os collants ficavam com buracos e as pernas cheias de arranhões por causa de alguns ramos maiores do alecrim que nos picava as pernas, e no fim, os joelhos ficavam com enormes hematomas por causa do timbalão que durante cerca de duas horas ou mais nos batia nas pernas a compasso.


Depois deixei de ir e a verdade é que, como estou normalmente a trabalhar neste dia (só é feriado em Sesimbra) já estou com saudades de dar uma espreitadela à festa, porque acredito que as tradições são para se manter - salvo algumas exceções, claro - e que esta festa, tal como outras, são manifestações simbólicas que unem as pessoas de uma comunidade.


 

01/05/2023

1º de maio

O 1.º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, teve origem nos acontecimentos de Chicago de 1886 quando se realizou uma jornada de luta pela redução do horário de trabalho para as oito horas. 

A homenagem remonta ao dia 1 de maio de 1886, quando uma greve foi iniciada na cidade norte-americana de Chicago com o objetivo de conquistar melhores condições de trabalho, principalmente a redução da jornada de trabalho diária, que chegava a 17 horas, para oito horas. Durante a manifestação houve confrontos com a polícia, o que resultou em prisões e mortes de trabalhadores. Este acontecimento serviria de inspiração para muitas outras manifestações que se seguiriam. Em 1889, a Segunda Internacional Socialista decidiu, em Paris, proclamar o 1º de Maio como o Dia do Trabalhador em memória dos que morreram em Chicago.

O Dia Internacional do Trabalhador, passou assim a ser uma data comemorativa internacional, dedicada aos trabalhadores, sendo feriado em muitos outros países como é em Portugal.

Encontramos registos mais antigos, em relação a manifestações que hoje chamaríamos de sindicais. Entre 1852 e 1910 realizaram-se 559 greves no nosso país. A subida dos salários, a diminuição da jornada de trabalho e a melhoria das condições de laboração eram as principais exigências dos operários. No nosso país, a data para as celebrações do 1º de Maio, foi decidida no Congresso Socialista de 1889, como uma campanha internacional a favor das oito horas de trabalho. Assim, os trabalhadores aderiram a esta comemoração e sob o olhar de D. Carlos, nasceram os encontros da massa de trabalhadores, no que eram secundados pelos patrões, que se consideravam oficiais dos mesmos ofícios.

A comemoração centrava-se num desfile que atravessava a Avenida da Liberdade e seguia até ao Cemitério dos Prazeres, onde eram colocadas flores no túmulo de José Fontana, republicano socialista que levantara o movimento operário em Portugal.

A manifestação era organizada pela Federação das Associações Operárias, com bandas de música que tocavam o Hino do 1º de Maio, composto pelo pianista Eduardo Garrido. A cidade apresentava-se de traje domingueiro e alinhava no cortejo, que contava ainda com carros alegóricos que a Associação da Classe correspondente enfeitava.

Portugal enfrentava uma época económica problemática, devido aos conflitos que existiam entre os países imperialistas e à crise argentina, que culminou em Portugal com a falência da casa bancária Baring & Bros, os banqueiros do Estado Português.

No século XIX foi reconhecido o direito de associação aos trabalhadores, o que possibilitava a formação das associações de classe, a que se seguiu a regulamentação, por parte do Estado, do trabalho das mulheres e dos menores nos estabelecimentos industriais. Mas o movimento operário chegou mais longe e empenhou-se na conquista das melhorias laborais e sociais, promoveu ações culturais e de desenvolvimento da educação. Conta-se que no 1º de Maio de 1900 se juntaram em Lisboa cerca de 40 mil pessoas, numa altura em que “as classes médias ainda viam as organizações de trabalhadores com alguma simpatia”.

Durante a I República não se deixou de festejar o Dia do Trabalhador, mas sublinhe-se que um dos primeiros diplomas aprovados, com a instituição do novo regime, dizia respeito ao estabelecimento dos feriados nacionais e destes não constava o dia do trabalhador.

Em 1933 é decretada a “unicidade sindical” e o “controle governamental dos sindicatos” esmorecendo um movimento operário que só ganharia novo ânimo na década de 40. Durante o Estado Novo as manifestações no Dia do Trabalho (e não do Trabalhador) eram organizadas e controladas pelo Estado. O primeiro 1º de Maio celebrado em Portugal depois do 25 de Abril foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Só na cidade de Lisboa juntaram-se mais de meio milhão de pessoas. Para muitos, foi a forma dos portugueses demonstrarem a sua adesão ao 25 de Abril, que uma semana antes restituía ao país a democracia.

Em 2023, as ruas continuam cheias e uma das novidades deste ano é a Agenda do Trabalho Digno e de Valorização dos Jovens no Mercado de Trabalho que entra hoje em vigor. Esta Agenda é composta por 70 medidas que trazem alterações nos contratos, nos despedimentos e nos direitos dos trabalhadores. De acordo com o Governo, estas medidas pretendem combater a precariedade laboral, melhorar as condições de trabalho e a conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional.

O Executivo pretende também identificar irregularidades no mercado de trabalho. Para isso, garante que vai reforçar os mecanismos de fiscalização, apostando no cruzamento de dados entre várias entidades. A semana de quatro dias também está na agenda. Ainda este ano vai ser desenvolvido um projeto-piloto, de base voluntária e sem perda de rendimento.

Apesar destas medidas trazerem melhorias para muitos trabalhadores, a verdade é que ainda há muito a fazer para combater a precariedade laboral e as desigualdades, especialmente ao nível das progressões na carreira e na atribuição mais justa de ordenados.

Fontes:

https://sicnoticias.pt/pais/2023-04-30-O-que-muda-no-mercado-de-trabalho-a-partir-de-1-de-maio--ad80cf05

https://sicnoticias.pt/pais/2023-05-01-Dia-do-Trabalhador-comemora-se-em-varios-pontos-do-pais-029dc891

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_do_Trabalhador

https://www.mulherportuguesa.com/lazer/festas-tradicoes/1-de-maio-dia-do-trabalhador/

06/08/2021

55 anos - a ponte que liga as duas margens

A ponte faz parte das nossas vidas e já não nos imaginamos a olhar o Tejo sem a ter ali. Depois de vários estudos e projetos a Ponte abria ao tráfego a 6 de agosto de 1966, na altura apenas com um tabuleiro, faz hoje 55 anos. Batizada primeiramente com o nome Ponte Salazar, foi cerca de seis meses depois da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, que ganhou o seu nome atual.


A ponte que liga as duas margens do Tejo é muitas vezes comparada com a Golden Gate, em São Francisco, devido às semelhanças entre as duas e por ter sido fabricada pela mesma empresa.


Apesar de já existirem projetos para a construção de uma ponte sobre o estuário do Tejo desde finais do século XIX, foi apenas na década de 1950 que o governo português do Estado Novo avançou com a construção de uma ponte para ligar as duas margens da área metropolitana de Lisboa. 


De facto, a primeira ideia sobre a construção de uma ponte que ligasse a cidade de Lisboa a Almada, situada na margem esquerda do Tejo, remonta ao ano de 1876. Naquela altura, o engenheiro Miguel Pais sugeriu que a sua construção fosse feita entre Lisboa e o Montijo.


Nos princípios da década de 1950, um dos defensores da construção da ponte sobre o Tejo em frente de Lisboa foi o deputado Pinho Brandão, que na sessão de 28 de Outubro de 1952 da Assembleia Nacional, sugeriu que aquela obra fosse adjudicada como parte das comemorações dos vinte de cinco anos do governo de Oliveira Salazar. A 4 de Dezembro, durante a discussão do Plano de Fomento Nacional, defendeu que a construção da ponte fosse incluída naquele importante programa económico. 


A comissão apresentou o seu relatório em 1957, tendo proposto duas soluções para a travessia do rio, por túnel ou por ponte.Ainda nesse ano, o Ministro das Obras Públicas, Eduardo de Arantes e Oliveira, inseriu a construção da ponte no II Plano de Fomento, e em 2 de Maio de 1958 foi formado o Gabinete da Ponte sobre o Tejo, dirigido por José do Canto Moniz. Antes de se iniciarem os trabalhos propriamente ditos, foi necessário estudar estruturas semelhantes noutros locais.O engenheiro Luís Canto Moniz, sobrinho de José Canto Moniz, foi uma das pessoas encarregues dessa missão. O concurso público internacional iniciou-se em 27 de Abril de 1959, e em 3 de Março de 1960 foram abertas as propostas, tendo quatro empresas concorrido para esta obra. 


A 25 de Fevereiro de 1961 foi assinado o contrato com a empresa United States Steel Export Company, no valor de 1 764 190 contos, estipulando a conclusão das obras até 1966. A empresa apresentou o plano definitivo para a ponte em 3 de Novembro desse ano, que foi aprovado em 9 de Maio de 1962, levando desta forma à adjudicação definitiva para a obra.


A construção começou em novembro de 1962 e prolongou-se por quatro anos. Foram pelo menos 20 os trabalhadores que perderam a vida, bem mais do que o anunciado na altura.









Com início dos trabalhos, no dia 5 de novembro de 1962, e um prazo estipulado de 51 meses, a obra compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía cerca de 15 quilómetros de autoestrada, um viaduto sobre Alcântara, com 945 metros de extensão e um túnel sob a praça da portagem na margem Sul destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a norte com a rede a sul do rio Tejo.

Às 10h39 do dia 10 de janeiro de 1963 é lançado às águas do Tejo o primeiro "caixão" de um conjunto, que serviu para montar a ancoragem Sul, no leito do rio, que iria receber um dos pilares da ponte.




 






Estiveram envolvidos na construção, diariamente, cerca de três mil operários, tendo a empreitada durado menos do que o previsto, sendo entregue e dada como pronta no dia 27 de maio de 1966, dez meses antes da data prevista.


Com as fundações criadas e as duas torres principais construídas, foi necessário estender dois passadiços (passeio do gato, ou catwalk, em inglês), um de cada lado das torres, para facilitar a deslocação dos trabalhadores da obra e para que fosse possível começar a fiação dos cabos principais.





 


 



A Ponte sobre o Tejo, cinquenta anos depois, em pouco se diferencia do dia da inauguração.

Composta por duas torres principais de aço carbono, com uma altura de 190,5 metros acima do nível da água, a 483 metros de cada margem, as torres assentam na rocha basáltica a mais de 80 metros abaixo da superfície das águas do Tejo.

Sendo uma ponte suspensa, com um comprimento total de cerca de 2.280 metros, o tabuleiro rodo-ferroviário foi inicialmente suportado por um cabo suspenso.

Estas foram as principais estruturas as serem construídas suportando todo um vasto tabuleiro com 1.979 metros de comprimento, sendo o restante tabuleiro suportado por pequenas torres de suporte e sustentação. As torres, cada uma composta de duas pernas ou montantes principais, são contraventadas entre si por cinco peças em forma de 'X' e duas travessas horizontais, uma no topo da torre e a outra abaixo do nível da viga de rigidez.



No topo de cada torre foram colocadas e seladas duas grandes peças de aço fundido, que dão apoio aos dois cabos principais de suspensão, constituídos por fios de aço paralelos, organizados em 37 feixes com 304 fios cada um.



Todo este conjunto de fios de aço é cintado e apertado de modo a formar, em todo o percurso suspenso, um cabo com 58,6 cm de diâmetro.



A viga de rigidez e o tabuleiro são suspensos desses grandes cabos que amarram a dois maciços de betão, localizados nas margens. A grande viga de rigidez, com 21 metros de largura e 10,65 metros de altura, contínua em toda a sua extensão, é constituída por elementos soldados que foram depois fixados com parafusos de alta resistência.

O tabuleiro, uma das mais longas treliças do mundo, está assente na viga de rigidez, constituído por um conjunto de longarinas e carlingas de aço sobre as quais assentam painéis formados por uma grelha do mesmo material.



Para além da estrutura em aço, a ponte conta ainda com um grande viaduto, na vertente norte, sobre a zona de Alcântara, com um comprimento de 945 metros, constituído por um conjunto de 11 pilares gémeos, em betão armado, que se encontram ligados por uma travessa horizontal a dez metros do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário, bem como a respetiva zona de amarração dos cabos.



Na margem Sul, para além da zona de amarração, há que referir o túnel, com mais de 600 metros, construído sob a praça da portagem rodoviária, para receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação norte-sul.
Passou a ser, na altura, a ponte com o maior vão suspenso da Europa e o quinto maior do Mundo.

Todo o empreendimento foi inaugurado a 6 de agosto de 1966, do lado de Almada, na presença das mais altas individualidades portuguesas, entre as quais o Presidente da República, Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, o presidente do Governo, António de Oliveira Salazar, e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, passando a ser chamada, oficialmente, Ponte Salazar.





















 


Fontes:


https://www.rtp.pt/noticias/pais/construcao-da-ponte-25-de-abril_es938173


https://www.lisboa.net/ponte-25-abril


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_25_de_Abril


Imagens retiradas do site RTP 


 

19/06/2021

Faleceu o ator Carlos Miguel

Lembro-me do "Fininho" do concurso 1,2,3. Mas a sua carreira foi muito grande e rica! Tanto que fez pela nossa cultura e tão grande a sua luta. Trabalhou com a grande Laura Alves, com Vasco Santana, Raúl Solnado e tantos outros grandes figuras do teatro.

Achava-o engraçado. Nos meus tempos de criança, passava de certo mais tempo a brincar nas escadas da minha avó ou na praia, do que a ver televisão, mas ao jantar havia sempre uma televisão acesa, fosse nas notícias, fosse num concurso que passasse. Podia escrever muito sobre ele, mas será melhor ver a entrevista da própria boca, na Tarde é sua. 

entrevista tarde é sua carlos miguel

Lembro-me do "Homem mais belo do mundo", da revista "Lisboa, Tejo e Tudo", de César de Oliveira, Raul Solnado e Fialho Gouveia, em que ele participou, no Teatro ABC, em 1986, que não vi no original, mas vi várias vezes em repetições que iam sendo transmitidas na RTP.  A minha avó, fã de teatro de revista, tinha cassetes que ia gravando com transmissões televisivas de revista e que eu ia vendo sempre que ela me deixava.

O ator nascido a 11 de Junho de 1943, faleceu aos 77 anos, em Santarém.

O percurso de Carlos Miguel no teatro teve início em 1959, no Conservatório Nacional, em simultâneo com os seus primeiros trabalhos em palco, no Teatro da Trindade, num espetáculo de mímica, que também viria a estudar em Paris.

Na década de 1960, fez parte da Companhia Lírica e da Companhia de Teatro Popular, mas foi na Empresa Teatral José Miguel, que se manteve ativa durante cerca de 20 anos, que se estreou na revista. Foi em 1966, na produção "Mini saias", de Paulo da Fonseca, César de Oliveira e Rogério Bracinha.

O sucesso e a facilidade com que se adaptou ao modelo ditaram o seu futuro nas quatro décadas seguintes, durante as quais entrou em cerca de 200 peças, na maioria de revista, muitas delas 'produções-chave' da história do "teatro musical à portuguesa", como "O prato do dia", "Pimenta na língua", "Ora bolas p'ró Pagode" e "Cala-te boca!...", um desafio à censura dos últimos anos da ditadura.

Participou em teatro de revista como "Lisboa acordou", "Ó pá, pega na vassoura!", "Ó patêgo, olha o balão", "Vamos a votos", "Quem tem Ecu tem medo" e, mais tarde, o grande sucesso da sua carreira e talvez um dos últimos dos tempos em plenitude do Parque Mayer, "Lisboa, Tejo e tudo", uma produção da Empresa Carlos Santos.

O ator também entrou em comédias, como "Os porquinhos da Índia", "A cama dos comuns", "Que medo, senhor Alfredo!" e "Três na (mesma) cama. O seu nome era presença regular nas produções de teatro comercial, de empresários como Giuseppe Bastos e Vasco Morgado, interpretando sobretudo autores portugueses. Sucederam-se então, nos anos de 1980/1990, novos trabalhos em televisão, sempre em comédia - ou a fazer valer o seu jeito de comédia - em séries como "Eu Show Nico" e "Nico D'Obra", de Nicolau Breyner, "Trapos e Companhia", "Os Andrades", "Polícias", "Reformado e Mal Pago" e "Médico de Família".

Um cancro nas cordas vocais, em 1998, afastou-o da profissão e de Lisboa, onde nascera, para se fixar na aldeia do Granho, em Salvaterra de Magos. Como disse Carlos Miguel,  a importância estava na cultura: "É a alma das coisas, sem cultura não há futuro".

Fontes:

https://www.publico.pt/2021/06/19/culturaipsilon/noticia/morreu-carlos-miguel-actor-comedia-fininho-concurso-123-1967200

https://ionline.sapo.pt/artigo/738832/morreu-carlos-miguel-um-ator-tao-amado-e-depois-esquecido?seccao=Mais_i

https://tvi.iol.pt/atardeesua/videos/a-tarde-e-sua-carlos-miguel-o-fininho/543ff4d23004b8a32596eecf


 

09/06/2021

1991 - 30 anos depois, "espreitamos" o vulcão das Filipinas

Fascinantes e assustadores, os vulcões fazem parte do dia a dia do planeta há bilhões de anos. Como outros fenómenos naturais, sua atividade por vezes é imprevisível e pode provocar grande destruição. Originalmente com 1,8 mil metros de altura, o Monte Pinatubo, nas Filipinas, ficou com 1,4 mil metros após a explosão ocorrida em 9 de junho de 1991. O cume do Monte explodiu como uma rolha, formando uma gigantesca cratera, sendo que se estima que o vulcão estivesse inativo há cerca de 600 anos.

Felizmente, os avanços registados até à época, permitiram que fosse feita uma comunicação prévia a respeito da iminência da erupção e assim os moradores do local puderam evacuar a tempo. Ainda assim, cerca de 800 pessoas acabaram por perder a vida. As gotas de chuva transformaram as cinzas em uma avalanche de lama que soterrou casas, pontes e povoados inteiros. Cerca de 80 mil hectares de solo fértil desapareceram. Mais de 600 mil pessoas perderam seus lares.

O material lançado na atmosfera circundou o globo em três semanas e cobriu 42% do planeta dois meses depois da erupção. O inverno extremamente rigoroso da Nova Zelândia em 1992, os violentos ciclones daquele ano, assim como as chuvas torrenciais que alagaram o oeste dos Estados Unidos em 1993 foram atribuídos aos efeitos atmosféricos ocasionados pelo Pinatubo.

Fontes:

https://olhardigital.com.br/2023/03/14/ciencia-e-espaco/conheca-as-5-maiores-erupcoes-vulcanicas-da-historia/

https://www.dw.com/pt-br/1991-erup%C3%A7%C3%A3o-do-pinatubo-traz-mortes-e-destrui%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0s-filipinas/a-318985

 

28/05/2021

95 anos depois - Como foi o Golpe militar de 1926

O golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 (também conhecido pelos seus executores por Revolução Nacional), foi um golpe de Estado protagonizado por militares e civis antiliberais que resultou na queda da Primeira República Portuguesa e na instauração da Segunda República Portuguesa.

Poderemos apontar várias razões para o descontentamento geral que levou a este golpe. Olhando uns anos mais atrás podemos constatar que no início da década de 1920, terminada a Grande Guerra, a instabilidade cresceu: para além dos governos se sucederem a um ritmo alucinante (foram 23 os ministérios entre 1920 e 1926), os atentados bombistas e a forte atividade anarco-sindicalista criavam no país um clima pré-insurrecional que fazia adivinhar um fim próximo para o regime. Greves e outras manifestações de insatisfação explodem no último período da 1.ª República em Portugal.

Passavam 11 anos da Implantação da República, a 19 de Outubro de 1921, quando, na sequência da demissão do governo presidido por Liberato Pinto, o protetor da Guarda Nacional Republicana (guarda pretoriana do regime), e a sua posterior condenação a um ano de detenção (confirmada a 10 de Setembro de 1921 pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército), um conjunto de militares ligados àquela força policial, a que se juntaram militares do Exército e da Armada, se sublevou.

O resultado foi o assassinato levado a cabo por um grupo de marinheiros e arsenalistas sublevados de algumas das principais figuras da República, a que se deu o nome de Noite Sangrenta. A somar aos efeitos políticos e sociais da Noite Sangrenta, ao longo dos anos de 1924 e 1925 a crise agudiza-se, com um crescendo do sentimento de insegurança e da instabilidade política. Os atentados bombistas sucedem-se, com ataques que por vezes são semanais.

A precariedade e o aumento do custo de vida que afetava essencialmente o operariado, fortemente mobilizado pelas correntes anarco-sindicalistas, provoca manifestações, como a de 22 de Fevereiro de 1924, que frequentemente descambam em violência e confrontos, como os ocorridos nos Olivais, Lisboa, a 28 de maio daquele ano.

Os militares aviadores aquartelados na Amadora sublevam-se na noite de 3 para 4 de Junho de 1924, depois da demissão do respectivo comandante. São cercados por tropas de Queluz, mas só no dia 7 aceitam render-se, graças à ação do general Bernardo Faria que entra no campo, desarmado e acompanhado por oficiais de várias unidades militares.

No dia 14 de Julho registam-se confrontos entre militares, envolvendo o Exército e a Guarda Nacional Republicana, a que não estão alheias movimentações anarco-sindicalistas e de tendência fascista, anunciando o jornal A Época, a 13 de Agosto de 1924, nova tentativa golpista.

Aos 18 dias de Abril de 1925, dá-se nova revolta militar, desta feita de grande magnitude e envolvendo, pela primeira vez desde 1870, oficiais generais no ativo (envolveu pelo menos 61 oficiais). Dominado o golpe e, pelo menos momentaneamente, restaurada a legitimidade democrática, a 21 de Abril é exonerado o Ministro da Guerra Ernesto Maria Vieira da Rocha, que defendera que se parlamentasse com os revoltosos.

A partir deste momento a situação precipita-se e logo a 19 de Julho dá-se nova revolta, desta vez tendo à frente o comandante José Mendes Cabeçadas e Jaime Baptista. É decretado o estado de sítio. A muito custo a revolta é dominada por forças fiéis ao governo, comandadas por Agatão Lança, resultando um único ferido em combate (o capitão Armando Pinto Correia), sendo os implicados presos e julgados, mas rapidamente libertados e reintegrados, tal era a falta de autoridade das instituições da República.

As tentativas de golpe militar sucedem-se, e logo a 1 de Fevereiro de 1926, em Almada, nova tentativa, agora encabeçada por Martins Júnior e e pelo antigo Ministro da Instrução Pública Manuel de Lacerda de Almeida.

Os convites a Gomes da Costa para encabeçar a regeneração nacional já vinham do princípio do ano anterior e adivinha-se a sua presença crescente nas movimentações. Crescia o desejo de que ele fosse, finalmente, o chefe ansiado. O golpe, comandado pelo general Gomes da Costa, teve o seu início em Braga, mas rapidamente foi seguido em outras cidades como Porto, Lisboa, Évora, Coimbra e Santarém.

Em Lisboa, verdadeiro alvo do movimento, uma Junta de Salvação Pública lança um manifesto que Mendes Cabeçadas se apressa a entregar a Bernardino Machado, o cada vez mais isolado Presidente da República. No dia seguinte, a guarnição de Lisboa adere em massa ao golpe de Gomes da Costa, já sob a liderança de Mendes Cabeçadas, que com Armando Humberto da Gama Ochoa, Jaime Baptista e Carlos Vilhena formam a revolucionária Junta de Salvação Pública.

Nesse mesmo dia os sublevados obtêm o apoio de João Maria Ferreira do Amaral, o temido comandante da polícia da capital. Nessa tarde, isolado e sem meios ou vontade de resistência, o governo de António Maria da Silva apresenta a sua demissão a Bernardino Machado.

Consumada a demissão do governo, a 30 de Maio Bernardino Machado convida Mendes Cabeçadas a formar um novo governo.

Perante a estabilidade conseguida e ultrapassado o risco de confrontos, Gomes da Costa dá ordem a todas as forças militares golpistas disponíveis para avançarem sobre Lisboa. Estava concluída a fase militar do pronunciamento.

A 3 de Junho as tropas de Gomes da Costa chegaram a Sacavém de comboio e entraram em Lisboa sem sabotagens, nem resistência. Gomes da Costa prefere aguardar a formação de governo estável e a preparação de uma marcha triunfal antes de entrar em Lisboa e dirige-se para a Amadora, onde permanece com o seu estado-maior.

Entretanto, nesse mesmo dia 3 de Junho, em Lisboa Mendes Cabeçadas organiza o novo governo, entregando a Gomes da Costa as pastas da Guerra e interino da Marinha e Colónias. Para as Finanças escolhe António de Oliveira Salazar.

No dia 6 de Junho, chega o momento em que o general Gomes da Costa toma posse das pastas para que fora nomeado e comanda um impressionante desfile militar de vitória ao longo da Avenida da Liberdade. Desfilam 15 000 homens perante o aplauso de centenas de milhares de pessoas. Está terminada a marcha sobre Lisboa e o novo poder está completo nas suas vertentes militar e civil.

O novo poder assumiu-se como antiparlamentar, atribuindo as culpas do caos que se instalara no país à política partidária e ao jogo do parlamentarismo. Assim se declara a ditadura militar, que em pouco tempo se passou, em desafio claro ao parlamentarismo democrático, a autodenominar a Ditadura Nacional, encarnando um regime militar progressivamente mais autoritário.

Mais tarde, com a aprovação da Constituição de 1933, surge o Estado Novo, regime que se manteve no poder em Portugal até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974. 

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_de_28_de_Maio_de_1926

https://ensina.rtp.pt/artigo/golpe-28-de-maio-1926/

25/04/2021

Liberdade para cantar

Celebra-se hoje mais um dia da Liberdade. Mas ainda se lembram quando havia censura? Quando os livros, as notícias, os poetas eram censurados? Hoje venho escrever um pouco sobre os grandes poetas e sobre grandes intérpretes que tiveram a coragem de subir ao palco, com letras construídas metodicamente com a mestria de enganar a PIDE-DGS e passar pelos censores sem que as mensagens fossem reparadas.


A verdade é que poetas e autores, compositores e intérpretes, não ficaram indiferentes ao regime totalitário que existia em Portugal até ao dia 25 de Abril de 1974 e, através da sua arte, contribuíram para denunciar os abusos da ditadura e muitas conseguiram furar as malhas da censura impondo-se na música portuguesa.


Foi na verdade no Festival da Canção que apareceram grandes dos nomes que hoje conhecemos. Ali, se fez saber da vontade de gritar pela liberdade a plenos pulmões! Assim, não será de estranhar que a canção que se associa ao 25 de Abril de 1974 é aquela que nasceu (pensavam os censores da altura) "apenas" como um lindo poema de amor. Embora não tivesse sido a primeira escolha, o facto de ter sido aceite no Festival e de passar despercebida, fez com que fosse a escolhida como a primeira senha do movimento dos capitães. A canção "E Depois do Adeus" com letra de José Niza e música de José Calvário, foi brilhantemente interpretada no Festival da Canção e no Festival da Eurovisão pela voz de Paulo de Carvalho. 


Outra canção que eu adoro e que nunca me canço de ouvir, pela voz grandiosa de Simone de Oliveira, é "A desfolhada", escrita por Ary dos Santos, em 1969 e com música de Nuno Nazareth Fernandes. Esta canção vem recheada de várias metáforas. Cantou Simone com a sua grandeza, Quem faz um filho, fá-lo por gosto, numa época em que era pecado a mulher ter prazer no ato sexual, dando uma autêntica pedrada no charco na hipocrisia e falsa moral vigente.


Em 1971, cantou no Festival da Canção Fernando Tordo a canção "Cavalo à Solta", onde só a ideia de liberdade já arreliava a PIDE. O poema, também era do mestre Ary dos Santos.


Em 1973, volta a dupla Fernando Tordo e Ary ao Festival com a canção "A Tourada", que foi uma genial critica ao antigo regime através de metáforas tauromáquicas. Depois da vitória desta canção no Festival, o então governo, ainda ponderou não enviar a canção à Eurovisão, mas o escândalo internacional, numa Europa esmagadoramente democrática, seria bem mais prejudicial e a canção lá foi até ao Luxemburgo. A mensagem estava lá e é incrível pensar como é que a censura não compreendeu que na letra deste poema não se falava afinal do espetáculos de touros e toureiros, mas sim do antigo regime, numa crítica extremamente inteligente e com um retrato fiel da sociedade de então:
"toureamos ombro a ombro as feras | ninguém nos leva ao engano | toureamos mano a mano | só nos podem causar dano esperas."


Neste mesmo ano regressa Simone de Oliveira com a canção "Apenas o meu povo", que lhe valeu o Prémio de Interpretação. Um poema de inconformismo e de uma certa revolta contra quem pretendia tirar a esperança ao povo que governava com mão de ferro


Ainda no Teatro Maria Matos no dia 26 de Fevereiro de 1973, com letra da autoria de Ary dos Santos é apresentada a concurso a canção  "É por isso que eu vivo", interpretada por Paco Bandeira. Conseguiu o segundo lugar, com um poema que dizia que: "Eu sou a palavra lavrada e aberta, eu sou a raiz, eu sou a garganta de um homem que fala e sabe o que diz, eu sou o silêncio das trevas que penso, das coisas que digo, sou filho do tempo, sou fúria do vento, sou força do trigo." E voltava a estar lá o tal clamor, a crítica à censura e ao obscurantismo, a revolta contra a falta de liberdade e a opressão.


São tantas as letras que aqui poderia colocar, mas vou apenas falar de mais uma, já no ano de 1974. O grupo Green Windows cantou nesse ano, a canção de José Cid, "No dia em que o rei fez anos", conseguindo um brilhante  2º lugar. A letra conta como é que no dia em que um rei faz anos, esse mesmo rei é deposto e como todos (o povo) saem à rua para celebrar a liberdade:
"Vieram tribos ciganas, saltimbancos sem eira nem beira, evitaram a estrada real, e passaram de noite a fronteira, e veio a gente da gleba, mais a gente que vivia do mar, para enfeitar a cidade, e abrir-lhe as portas de par em par para libertar a cidade leia-se o país…
…lá vai rei morto rei posto, levado em ombros p’la grei, e a festa continuou, já que ninguém tinha nada a perder, só ficou um trovador, p’ra contar o que acabava de ver."


A canção faz parte das comemorações do 25 de Abril. Lembremos sempre estes valentes que lutaram não com armas mas com a sua voz e com a sua capacidade de poetizar o dia a dia de um povo oprimido.


 


Fontes:


https://festivaiscancao.wordpress.com/2021/04/24/as-cancoes-do-festival-que-gritaram-liberdade-antes-do-25-de-abril-de-1974/


https://festivaiscancao.wordpress.com/2019/04/25/25-de-abril-sempre-cancoes-que-furaram-as-malhas-da-censura-simone-de-oliveira/


https://festivaiscancao.wordpress.com/2019/04/25/25-de-abril-sempre-cancoes-que-furaram-as-malhas-da-censura-fernando-tordo/


 


 


 

01/10/2020

Dia dos mais velhos

Hoje assinala-se o Dia Internacional do Idoso. "Este dia foi instituído em 1991, pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento e a necessidade de proteger e cuidar da população mais idosa." A vida passa e um dia, não muito longe, chegarei a velha. Ou talvez não chegue, que importa. Penso sempre que não quero estar cá para sofrer ou para dar trabalho aos outros, mas não sei o que vou pensar daqui a uns anos. Agora, só sei que a vida de velho é extremamente difícil na sociedade em que vivo.


A velhice é um conceito que tem evoluído ao longo dos anos e, hoje em dia, ser avó, não é mais sinal de se estar a entrar na terceira idade. Cada vez mais, a esperança média de vida é maior e as mulheres conseguem ganhar aos homens.


A velhice em Portugal está infelizmente marcada pela solidão e pelo abandono. E em pleno Covid, são os idosos aqueles que mais têm sofrido com os confinamentos sucessivos, com o afastamento dos seus, com a doença e com a morte. Este ano em especial tem sido particularmente complicado para quem é velho, especialmente para aqueles que estão em instituições e para aqueles que vivem sozinhos.


Se os confinamentos sucessivos têm sido complicados para todos nós, não têm sido menos dolorosos para os idosos que têm estado fechados nos lares. Alguns, já não conseguem entender o que se passa à sua volta e não compreendem que o motivo de ninguém os ir visitar é que há uma pandemia. Muitos não percebem que os filhos e os netos têm muito medo de os ir ver e de lhes passarem esta terrível doença, que isso os leve a ficar doentes, que isso os leve a uma morte prematura.


Temos medo da culpa. Este vírus, é terrível por isso, porque no fundo, quando se trata de transmissão, todos sentimos que tivemos a culpa. E não é para menos porque os números são assustadores.


Os nossos idosos, sendo uma parte da população que pela sua idade e pelas comorbilidades está mais frágil, acaba por sofrer também de outros modos. São também vítimas da info-exclusão. A tecnologia que usamos diariamente para estar com os nossos, para trabalhar, para conversar e para nos distrairmos, está-lhes muitas vezes inacessível. E mesmo acessível, não substitui os afetos que querem receber, a atenção que lhes deveríamos estar a dar. Uma vídeo-chamada não substitui o abraço dos netos. 


Nesta data, há também a saudade daqueles que hoje poderiam aqui estar e já não estão. Da mãe que nunca teve a oportunidade de conhecer os netos que as filhas a seu tempo vieram a ter. 


Fontes:


https://www.sns.gov.pt/noticias/2016/09/30/dia-internacional-do-idoso/

15/08/2020

70 anos depois do sismo do Tibete

A 15 de agosto de 1950, o estado de Assam na Índia e a zona do Tibete foi devastada por um poderoso sismo, com uma magnitude de 8.6 na Escala de Richter. Este sismo provocou a morte a mais de 1500 pessoas do estado indiano de Assam e da região asiática de Tibete, onde cerca de 70 aldeias desapareceram por completo. Oito dias depois do sismo, o rio de Subansiri transbordou e deu origem a uma queda de água de sete metros para cima das aldeias vizinhas.


O número total de mortos é provavelmente maior. Enquanto o terremoto em si é conhecido como temores de Assam, acredita-se que o epicentro pode ter sido no Tibet.


Por aquilo que se sabe, a maioria das vítimas e grande parte dos danos terá sido causado pelos tsunamis que atingiram a costa desde o Chile a partir de Lebu a Puerto Aisen e em muitas áreas do Oceano Pacífico. Puerto Saavedra foi completamente destruída pelas ondas que atingiram alturas de 11,5 metros e levou consigo os restos das casas do interior que ainda restavam após o abalo.


O epicentro ter-se-á localizado em Rima, no Tibete. É o sismo mais forte registado em terra (fora dos oceanos e mares) e o décimo sismo maior do século XX. Também é o maior sismo conhecido que não foi causado por uma placa oceânica de subdução, pelo contrário, este foi causado por duas placas continentais convergentes.


 


Fontes:


https://expresso.pt/internacional/os-dez-maiores-sismos-de-sempre=f921928


https://meioambiente.culturamix.com/natureza/maiores-terremotos-de-todos-os-tempos?utm_content=cmp-true


https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Ass%C3%A3o_de_1950


 

22/05/2020

60 anos - Maior sismo de sempre

Faz hoje 60 anos que se registou o maior sismo sentido desde que há registos. A 22 de maio de 1960, o Chile registou um terremoto de magnitude 9.5 na Escala de Richter, considerado o maior da história desde que se conseguem registar este tipo de fenómenos. O epicentro foi a 570 km ao sul de Santiago com o hipocentro situado a uma profundidade de 33 quilómetros. Teve uma intensidade XII na escala de Mercalli, o último grau da escala que corresponde à "destruição total da paisagem" (Cataclismo). No dia anterior, tinham já sido registados vários abalos fortes que destruíram várias habitações, mas o pior estava para chegar.


O desastre também é conhecido como Terramoto de Valdivia, em referência à cidade mais afetada. Aproximadamente 1665 pessoas morreram, 3 mil ficaram feridas e 2 milhões ficaram desalojadas no sul do Chile, embora o número de mortos não se ficasse por aqui. Afetados já pelos abalos do dia anterior, grande parte dos edifícios desabou imediatamente, enquanto o Rio Calle-Calle inundou as ruas do centro da cidade. Os sistemas de eletricidade e água foram totalmente destruídos e várias testemunhas relataram a liquefação do solo. O terremoto provocou inúmeros deslizamentos de terra, principalmente nos íngremes vales glaciais do sul dos Andes. Nos Andes, a maioria dos deslizamentos ocorreram nas encostas de montanhas cobertas por florestas.


O sismo provocou também a erupção do vulcão Puyehue dois dias depois e pensasse que outros terão sido afetados pelos abalos. No total, estima-se em cerca de 5700 as pessoas que perderam a vida no Chile e em mais de 2 milhões as que ficaram feridas por causa desta catástrofe.


A força do mar invadiu pouco depois as comunidades mais baixas do país, trazendo ainda mais destruição. Várias ondas de tsunami invadiram a costa e destruiram o que restava. Mas além do Chile, outros locais sofreram danos consideráveis. Tsunamis produzidos pelo sismo causaram mais de 200 mortes no Havai, nas Filipinas e até no Japão, nas horas seguintes, com ondas na ordem dos 25 metros a atingir a população costeira, e réplicas do primeiro abalo puderam ser sentidas por mais de um ano. 


A magnitude considera a dimensão do terramoto e está relacionada com a energia libertada no foco do mesmo além da altura das ondas que são registadas no sismógrafo.


 


Fontes:


https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/02/06/os-cinco-terremotos-mais-fortes-da-historia.ghtml


https://expresso.pt/internacional/os-dez-maiores-sismos-de-sempre=f921928


https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Valdivia_de_1960


 

25/04/2020

Abril, a revolução dos Cravos

Quase sem derramamento de sangue, assim se fez a conhecida Revolução dos Cravos. Bem, não terá sido bem assim, pois terão existido alguns mortos e feridos.


Este dia ficou na verdade marcado pelo desaparecimento de cinco pessoas. Foram baleados cerca das 20 horas e 10 minutos do dia 25 de Abril, por balas disparadas a partir da sede da Direcção-Geral de Segurança, na Rua António Maria Cardoso, n.º 20. Ao que se sabe, saíram do lugar onde dormiram com o entusiasmo próprio dos que sentem viver um momento histórico, quem sabe um instante decisivo das suas vidas, do seu futuro. Foram entusiasmados para o Chiado, lugar simbólico do Regime. Muitas dezenas de pessoas, talvez centenas, tiveram exactamente a mesma ideia que estes homens, jovens, à medida que corria a manhã e se multiplicavam as notícias na rádio e na RTP (tomadas de assalto pelas forças revolucionárias), foram chegando homens e mulheres com vontade de fazer justiça ou de ver a justiça ser feita contra os polícias políticos responsáveis pelas maiores barbaridades do século XX português.


Os elementos da PIDE dispararam indiscriminadamente, com intuito de matar uns tantos, para assustar os que estivessem no cerco, para fazer o que fosse preciso e prepararem um plano de fuga.


Vários populares caíram. Todos correram para um lado e para o outro da rua. Quem lá esteve fala de gritos, pânico, confusão. Os tiros continuaram durante longos segundos, a maioria foram disparados para o ar, mas muita gente ficou no chão, ferida.


Fernando Carvalho Giesteira, era natural de Montalegre, tinha 17 anos e era empregado de mesa da boîte Cova da Onça, e vivia na Pensão Flor, ao Areeiro.


José James Harteley Barneto, de 38 anos, casado, pai de quatro filhos, natural de Vendas Novas, escriturário do Grémio Nacional dos Industriais de Confeitaria, morador na Avenida João Branco Núncio, n.º 7, 1.º andar, na Flamenga. Deixou quatro filhos.


João Guilherme Rego Arruda, de 20 anos, natural dos Açores, estudante do segundo ano de Filosofia, morador na Avenida Casal Ribeiro, n.º 21, 5.º andar.


Na manhã seguinte, as televisões filmaram o sangue espalhado no chão e as marcas de balas nos automóveis e, dias mais tarde, exibiram imagens dos funerais das vítimas, a que compareceram muitos cidadãos anónimos.


Às centenas, os populares iam acompanhando a queda do último bastião do regime, desrespeitando os repetidos apelos do Movimento das Forças Armadas para que permanecessem nas suas casas. A PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, nunca foi um alvo prioritário, pois segundo terá afirmado Salgueiro Maia, pouco sabiam sobre os meios de que a PIDE dispunha. De facto, houve relatos de elementos da PIDE posicionados nos telhados, armados, com intenção de alvejar a população e os militares nas ruas. Outros relatos afirmam que o MFA não tinha os meios necessários para, além de derrubar o governo, atacar também a António Maria Cardoso, uma vez que alguns dos Regimentos e Companhias desistiram no último instante.


Terá sido esta a causa das mortes, a grande confusão ali criada e a vontade do povo em invadir a sede da DGS?


Uma outra vítima mortal, foi o servente António Lage, de 32 anos, que ocupava o escalão mais baixo na estrutura hierárquica da Direcção-Geral de Segurança e que não exercia funções policiais. Foi baleado às 21h25 quando saía da sede da corporação e, provavelmente aterrorizado pelos populares, tentou escapar a correr num momento de pânico. Dizem que já estava detido e que se terá assustado com os gritos da população que dava "ordens" para que fosse morto. Alguém cumpriu a vontade da população.


A 26 de abril de 1974, ali bem perto daquela rua, em plena baixa lisboeta, uma confusão leva os militares a disparar contra uma coluna de carros da PSP, por acharem que os agentes iam investir contra os manifestantes, no Largo Camões, em Lisboa. Manuel Cândido Martins Costa, 25 anos, polícia de choque, foi fatalmente atingido nos pulmões.


São heróis esquecidos do 25 de Abril, talvez os mais esquecidos, pois, para todos os efeitos, na Revolução não houve vítimas, apenas cravos em espingardas que nunca dispararam. Foram mártires, involuntários e não aparecem nos livros escolares.Poucos não é igual a zero.


Até hoje, a identidade dos assassinos destas seis pessoas permanece uma incógnita. Muitos outros terão morrido na libertação das colónias. A liberdade, embora tenha tido um preço e seja necessário salvaguardar sempre a verdade, é nossa. Não a deixemos voltar a cair!


 


Fontes:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/30-jun-2019/25-de-abril-a-revolucao-que-nao-foi-assim-tao-branda-11056529.html


https://fumaca.pt/fabio-monteiro-sem-a-morte-das-pessoas-no-25-de-abril-a-pide-nao-teria-caido/


https://ionline.sapo.pt/artigo/386708/a-historia-de-quatro-portugueses-que-morreram-no-dia-mais-feliz-das-suas-vidas?seccao=Portugal_i


 

01/01/2020

40 anos depois do sismo dos Açores

Há 40 anos, um sismo matou 73 pessoas no Ano Novo de 1980 nos Açores. Foi o terramoto mais avassalador dos últimos 200 anos. "Ouvia gritos e casas a cair", lembraram os sobreviventes na época, em relatos registados pelo Observador.


O sismo dos Açores de 1980, foi um sismo que ocorreu às 15h42 (hora local) do dia 1 de Janeiro de 1980, no qual entre seis a sete dezenas de pessoas faleceram e mais de 400 ficaram feridas, causando sérios danos na Ilha Terceira e afetando Graciosa e São Jorge. Com uma magnitude de 7,2 na escala de Richter, também se fez sentir nas ilhas Pico e Faial, resultando numa fratura de deslize, algo típico no historial de sismos do Arquipélago dos Açores.


De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, à época chamado apenas Instituto de Meteorologia, os dez primeiros segundos do terramoto foram os mais intensos, embora não tenham sido sentidos em duas das ilhas açorianas: Flores e Corvo. O sismo ainda deu origem a um tsunami que chegou primeiro a Angra do Heroísmo precisamente sete minutos e 50 segundos depois do abalo. No entanto, o tsunami não causou muitos estragos: as ondas foram chegando à costa ao longo de uma hora e 40 minutos, mas nunca tiveram mais do que 41 centímetros de altura.



 


Só quando as réplicas terminaram, três dias depois do terramoto, é que se começaram a fazer contas aos estragos. O número de mortos subiu de 52 para 61 e apenas mais tarde é que se fixou nas 73 vítimas mortais. 


Depois do sismo, o então Presidente da República Portuguesa António Ramalho Eanes anunciou três dias de luto nacional, enquanto os esforços de ajuda humanitária, iniciados pela Força Aérea Portuguesa, foram rapidamente enviados ao local por agências governamentais.


De origem vulcânica, os Açores situam-se numa área tectonicamente complexa de ambos os lados da cordilheira mesoatlântica, entre os limites das placas euro-asiática e africana, formando a sua própria microplaca. O sismo de 1980 foi o resultado de um movimento ao longo de uma falha tectónica. Quando as réplicas do sismo cessaram, deu-se início ao estudo do acontecimento, uma deformação que deu origem ao evento. O movimento da crosta foi semelhante aos sismos anteriores que haviam atingido o arquipélago. 


O sismo ocorreu às 15h42 (hora local) do dia 1 de Janeiro de 1980, foi de magnitude 7.2 na escala de Richter e deu-se a cerca de 35 quilómetros a su-sudoeste de Angra do Heroísmo. Isso causou danos consideráveis em três ilhas: Terceira, São Jorge e Graciosa, destruindo vários edifícios. De acordo com os relatórios locais, cerca de 70% das casas da Ilha Terceira foram demolidas, incluindo o centro histórico da cidade de Angra do Heroísmo. Em termos gerais, os edifícios públicos como as sedes governamentais permaneceram intactos, as igrejas, embora, na maioria dos casos, tenham permanecido de pé sofreram danos muito significativos, enquanto outros edifícios cederam. Serviços essenciais, como a electricidade e a água, ficaram cortados em várias áreas.


A Força Aérea Portuguesa, a Marinha dos Estados Unidos e a Força Aérea dos Estados Unidos, estacionados na base das Lajes, trabalharam em ajuda às populações locais, abrigando mais de 150 famílias; a Força Aérea Portuguesa levaram mantimentos e bens essenciais às vítimas do sismo, enquanto a corveta João Coutinho da Marinha Portuguesa levou médicos para o local.


O Presidente da República, Ramalho Eanes, voou num avião até ao local, acompanhado por pessoal médico e suprimentos e decretou três dias de luto nacional. Depois dos esforços de socorro às populações, dezanove estações sismográficas foram instaladas pela região para monitorizas as atividades sísmicas. Onze destas instalações foram usadas para monitorizar a atividade sísmica, enquanto as outras oito também serviam para a recolha de informações sobre as áreas geotérmicas. O sismo ajudou a que centenas de pessoas das ilhas decidissem emigrar para os Estados Unidos.


 


Fontes:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_dos_A%C3%A7ores_de_1980


https://observador.pt/2018/02/12/sismo-dos-acores-em-1980-a-historia-do-terramoto-mais-destrutivo-dos-ultimos-200-anos-em-portugal/


 


 

15/09/2019

Roberto Leal

O jovem loiro que saiu de Macedo de Cavaleiros e conquistou o mundo com a sua voz e a sua alegria, partiu hoje, depois de nos deixar um legado de músicas que perpetuarão a sua memória.


Dele lembro-me de ter os discos da minha avó a tocar lá em casa e de o ver na televisão quando vinha atuar a Portugal, em programas como o Big Show Sic. Em casa, a minha mãe ouvia-o em cassetes ou nos discos pedidos da rádio Santiago.


Roberto Leal, nome artístico de António Joaquim Fernandes, filho de Avelino Augusto Fernandes e de Maria Julia Patricio, nasceu na freguesia de Vale da Porca, Macedo de Cavaleiros, a 27 de novembro de 1951e com a sua música e presença artística uniu dois povos.


Cantor, compositor e ator português radicado no Brasil, era considerado embaixador da cultura portuguesa no Brasil. Ao longo da carreira de mais de 45 anos, ganhou trinta discos de ouro, além de cinco de platina e quinhentos troféus.


Teve uma infância pobre e declarou que comeu apenas batatas por um ano, após a colheita de trigo da família ter sido destruída por uma trovoada. Em 1962, emigrou com os pais e com os nove irmãos para o Brasil, com o objetivo de ter uma vida melhor,  Na cidade de São Paulo, após trabalhar como sapateiro e comerciante de doces,começou a carreira de cantor de fados e músicas românticas.


Em 1971 obteve o seu primeiro grande sucesso com "Arrebita", conhecida pelo seu refrão "Ai cachopa, se tu queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita", após aparição no programa Discoteca do Chacrinha. Logo depois, começou a ganhar grande popularidade, sendo convidado para vários programas no Brasil. Os álbuns Carimbó Português (1976) e Rock Vira (1977) ganharam mbos o disco de ouro, por mais de 150 mil cópias vendidas cada um.


Em 1978, participou do filme Milagre - O Poder da Fé, que contou com participação especial de alguns nomes importantes como o apresentador Chacrinha, Elke Maravilha e a atriz Lolita Rodrigues. Lançado em 1979, o filme que abordava a história da sua vida e foi dirigido por Hércules Breseghelo, foi filmado em parte na sua terra natal.


Além do reportório romântico-popular, o seu trabalho também se caraterizava por misturar ritmos lusitanos aos brasileiros, além de ter gravado em estilos tipicamente brasileiros como o forró. Quase todo o seu reportório é composto por faixas da sua autoria ou em parceria com a esposa Márcia Lúcia, com quem foi casado e tinha três filhos entre os quais, o cantor e produtor musical Rodrigo Leal.


Além de cantor e compositor, Roberto Leal foi apresentador de programas na Rádio Capital de São Paulo na década de 1980, apresentador no canal português TVI e no Brasil e também apresentou programas na TV Gazeta e Rede Vida.


Em 2007, gravou o CD Canto da Terra, e em 2009, Raízes. Nesses discos gravou músicas em mirandês para divulgar a segunda língua oficial de Portugal, e onde usou vários instrumentos tradicionais como por exemplo a Gaita de Foles.


Em 2011 participou do elenco no programa Último a Sair, um falso reality show da autoria de Bruno Nogueira, João Quadros e Frederico Pombares, exibido pela RTP1, do qual saiu vencedor. Nesse mesmo ano publicou uma autobiografia, intitulada Minhas Montanhas, que foi lançada tanto no Brasil como em Portugal.


Em 2018 candidatou-se a deputado estadual por São Paulo pelo Partido Trabalhista Brasileiro, mas não foi eleito.


Em janeiro de 2019, Roberto Leal revelou lutar havia dois anos contra um melanoma, mas sofreu com metástases nos olhos e na coluna, e que por conta disto havia perdido parte da visão, também devido a cataratas. A sua morte decorreu de um internamento após ter feito uma reação alérgica a um medicamento e que lhe provocou insuficiência renal.


 


Fontes:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Leal


https://observador.pt/2019/09/15/morreu-o-cantor-roberto-leal/


 

Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...