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09/08/2026

Sim, há falhas graves na prevenção de acidentes com crianças!

Não vamos falar só em acidentes. O que está a acontecer no nosso país em pleno século XXI é uma grande falha na prevenção. Os acidentes podem acontecer, mas quando deixamos um bebé entregue quase que "à sorte" não podemos falar em acidentes, devemos falar em negligência e em falhas na promoção da sua segurança.

Não venho acusar mães nem pais, não tenho esse direito, não conheço os pormenores das histórias, não sei qual foi o momento em que tudo mudou e, em que um erro, uma distração ou uma má decisão, fez com que o pior acontecesse. Mas tenho de falar em prevenção. Este sábado, um bebé caiu de uma janela. Segundo aquilo que tem sido falado na comunicação social, a queda terá sido de "uma altura entre 12 e 15 metros", o que se pode equiparar a um "quarto andar", uma vez que o "prédio tem lojas e rés do chão elevado." Apesar de ter sido logo assistido e transportado de helicóptero, o bebé acabou por não sobreviver.

Ainda há uns poucos dias eu aqui falei de um outro caso e contei de uma criança que estava pendurada à janela a atirar coisas cá para baixo. O pai disse que estava em casa, mas "não ouviu" (nem viu porque o bebé estava sozinho noutra divisão da casa). E é aqui que eu digo que nos falta prevenção. Por um lado, prevenção na formação de pais, de pais que olhem à volta e saibam identificar riscos. Por outro lado, prevenção na construção de casas, na colocação de janelas e portadas mais seguras, de fechos de difícil abertura nas janelas e nas portas de acesso a varandas, de redes de proteção nas janelas e nas varandas. Dizem (SIC) que o "alerta foi dado ao fim da manhã por um popular após ter encontrado a criança deitada no chão," e isso levanta-me várias outras perguntas - onde estavam as irmãs, alguém viu o bebé cair? E se não, estava sozinho na varanda? Tudo isto terá uma resposta, mas a questão é que faltou o mais importante - o cuidado, a prevenção, a vigilância. Alguém falhou, ou melhor, aqui houve um sistema que falhou. 

Outras notícias dão-nos exatamente conta disso. Em 2017, um bebé estava em casa com a mãe e caiu de um terceiro andar. Ainda foi visto a cair por quem passava, foi socorrido pelos bombeiros de Mirandela e levado em estado grave para o hospital. Em 2020, "uma bebé de um ano morreu" ao cair "da janela de um terceiro andar no Laranjeiro, Almada." No mesmo ano, outro bebé, de apenas "um ano ficou ferido com gravidade," ao cair de "uma janela, equivalente a um segundo andar, em Celeirós, Braga." E quem não se recorda de um caso que ocorreu já em 2025, de um menino de seis anos que caiu de um quarto andar (que equivalia em altura a um 6º) num prédio em Vila Franca de Xira? E houve outros...

No geral, as nossas casas não estão preparadas para bebés e crianças pequenas. Fazemos o que podemos, quando sabemos onde está o perigo. De acordo com a APSI, "as quedas são a quarta causa de morte acidental e a primeira causa de chamadas para o número de emergência 112 e de internamentos." 

Não queremos que se magoem ou que caiam numa escada. Basta um segundo, uma porta que ficou encostada enquanto o cuidador foi à casa de banho. Uma distração a usar o telemóvel. Basta, às vezes, o achar que "ele não vai para ali", "ele não cabe"," ele não chega tão alto", ou "ele não sabe abrir aquele fecho." Mas chegam, cabem e sabem, muito mais depressa do que nós imaginamos. Reparamos quando se aproximam demasiado do fogão e evitamos que se queimem, ou afastamo-los quando tentam desligar algum aparelho elétrico da tomada. Mas aquela tomada, não vai mudar de local, no máximo colocamos uma proteção. Aquela porta que afinal ele abre, passa a ter algo que bloqueie ou dificulte a sua abertura. 

Na maioria dos casos, os pais fazem o que podem num mundo que é de adultos. E como todos os mundos que são dos adultos, os pais têm de ir trabalhar, alguns mesmo no verão, quando as escolas fecham, quando as creches deixam de receber as crianças. E alguns, mais sortudos, vão para casa dos avós, brincam com os irmãos e os primos, outros têm a possibilidade financeira de frequentar um campo de férias, outros um ATL que de verão transforma o pessoal educativo em animadores e reforça a equipa com alguns monitores, que ali vão ganhando novas experiências e responsabilidades. E alguns, ficam em casa com os irmãos mais velhos e mais responsáveis.

Não venho acusar ninguém de negligência. Mas venho pôr o dedo na ferida! Temos de fazer alguma coisa na prevenção destes acidentes, tem de haver uma forma de os evitar.

Venho dizer que todos nós temos o dever de cuidar mais e melhor das nossas crianças e de lutar por um país que permita aos pais estarem mais tempo em casa com os filhos, que permita que façam férias juntos, que as escolas deixem de ser depósitos de crianças de um de setembro a 31 de julho, algumas até agosto. Estamos todos metidos nisto, quer queiramos quer não. 

E o que está mal aqui? A culpa é afinal de quem?

Da falta de atenção, da falta de experiência, da confiança que se adquire aos poucos, da responsabilidade que vai crescendo não só com a idade mas sim com as várias situações que vão acontecendo e pondo à prova estas mesmas competências? Se uma irmã mais velha não pode cuidar de um bebé? Depende. E se virmos os outros casos que coloquei acima, várias situações idênticas aconteceram e eram pessoas adultas que lá estavam. Eu poderia responder que não, que não deve, mas existem tantas outras coisas que podem estar envolvidas aqui e que me fazem pensar que nunca deve ser atribuída esta responsabilidade a um menor.

Fontes:

https://sicnoticias.pt/pais/2026-08-08-acidente-grave-nas-caldas-da-rainha-bebe-cai-de-terceiro-andar-de-um-predio-c708aacf

https://www.jn.pt/pais/artigo/menino-de-um-ano-morreu-ao-cair-de-terceiro-andar-nas-caldas-da-rainha/18114338

https://tvi.iol.pt/noticias/videos/bebe-caiu-desta-janela-quando-estava-com-a-mae/58de42a70cf25724706166ff

https://tviplayer.iol.pt/programa/tvi-jornal/63ef5eb50cf2665294d5f87a/video/6a798f970cf2b42132dbd414

https://www.publico.pt/2025/02/09/sociedade/noticia/morte-crianca-caiu-4-andar-associacao-alerta-seguranca-construcoes-2121917

24/07/2026

Descuido ou falta de zelo, o que mais mata em Portugal

Quando um bebé morre por negligência é porque algo falhou muito lá atrás. Quando um bebé morre aos cuidados de uma instituição, falharam diversas coisas, mesmo quando se trata de um acidente.

Fala-se muito de Segurança Infantil e podia até vir aqui criticar de forma fácil, ações e lacunas que são só por si de lamentar. No entanto, espero que os casos que se vão tornando mediáticos sirvam para que todos consigamos rever as nossas ações e os cuidados a ter, diariamente, com as nossas crianças. Não seremos capazes de evitar todos os acidentes, mas há de facto uma responsabilidade que deve ser partilhada. E sim, às vezes temos de nos meter na vida dos outros, às vezes temos de questionar, de perguntar se está tudo bem ou se precisam de ajuda. 

Uma bebé morreu ontem, dentro de uma viatura que a deveria levar à creche. Não foi a primeira vez que uma situação de esquecimento de uma criança numa viatura. Várias já levaram a desfechos idênticos. Quando fazia emergência, tive uma ocorrência para um caso parecido, aqui na zona da Torre da Marinha, Seixal. Lembro-me da ansiedade até chegar ao local e da sensação de raiva que me atingiu. Era um bebé que tinha sido deixado dentro de um carro, desconhecia-se idade ou estado de consciência. Quando lá chegamos, o vidro foi forçado e a porta aberta, a menina, uma bebé estava cheia de sede, tremia, chorava, os olhos a procurar um rosto conhecido no meio de tantas caras estranhas. Estava viva e nós felizes por termos chegado a tempo e, ao mesmo tempo, zangados. Como é que esperaram e ninguém partiu o vidro? Como é que se discutia, enquanto uma criança gritava dentro de um carro, que não se sabia há quantas horas ali estava, se quem partisse o vidro teria de pagar o arranjo? Esta menina, felizmente, não sendo um dia de verão, sobreviveu. E talvez o facto de ser muito novinha a tenha feito esquecer que um dia alguém se esqueceu dela fechada dentro de um carro.

Mas ontem, durante todo o dia, ninguém deu pela falta de uma menina de 18 meses. Eu podia até enumerar diversas ações que poderiam ter sido efetuados (apenas como forma de nos lembrarmos que podemos aprender com os erros dos outros, sejam eles cometidos aqui ao lado, ou numa escola dos EUA) e que mais não seja, por isso, é tão importante se falar e se debater quando a questão envolve a vida de crianças. Porque é que não se passou um registo em que se marcasse a sua falta e se perguntasse à motorista da carrinha "Então, hoje a S. não veio?" ou porque é que quando se deu a contagem para o almoço não se conferiu se quem estava à mesa correspondia aos registos efetuados. Como são feitos os registos de entrada das crianças - manualmente ou digitalmente, em alguma aplicação? Existe uma dupla verificação - e se sim, foi feita, por quem, o que registou? Porque um erro acontece, mas ninguém ter-se dado conta do erro, para mim é o mais estranho.

Não. Não me posso colocar no lugar daquela funcionária, nem de todas as outras quando se aperceberam que teria bastado uma mensagem para os pais ou uma chamada para perguntar se a menina estava bem, se estava doente, se tinha ficado de férias. E talvez até o tivessem feito, ou talvez até tivessem outros procedimentos, não sei, mas algo ali falhou. E todos nós temos de pensar que se uma criança seria demais, a repetição de casos tem de nos fazer parar e refletir: onde é que falhamos - como sociedade, temos de cuidar das nossas crianças, dos nossos seres mais indefesos e dependentes.

Quando a mãe chegou para a ir buscar à creche, deu-se o alarme, e quando foram ao carro e a encontraram lá dentro, "ainda partiram o vidro", para acederem à bebé. Os meios de socorro tentaram salvar aquela vida, mas a chamada de socorro tinha chegado tarde de mais... Ontem nem sequer foi dos dias mais quentes, mas o meu carro esteve ao sol e por volta das 17h marcava 38º, sendo que o que marca nem sempre é a temperatura do ar interior. Agora resta-nos especular enquanto a Polícia Judiciária investiga. 

Fala-se em sobrecarga, em rotinas, mas é sobretudo na falta de zelo que os acidentes deste género acontecem. E não digo como sendo propositado. É quando as rotinas mudam, quando a pessoa que fazia o trabalho vai de férias e alguém a substitui, quando uma viatura da instituição avaria e se substitui por outra. Ainda há muito a esclarecer e estou certa que em breve as respostas a muitas perguntas serão dadas, Mas nada trará a menina de volta nem tirará a dor daquela família. Há questões levantadas em relação ao facto da viatura ser da funcionária e não pertencer à creche, embora tivesse um dístico. Não é referido nas notícias se haveria todas as outras coisas obrigatórias. Isso será importante para se apurar outros aspetos relevantes, mas não trará de volta aquela bebé para a sua família. A lei, não obriga a que os transportes em ligeiros se façam acompanhar de uma auxiliar, mas q se refere porque é que num transporte escolar não estava uma auxiliar, mas aqui poderia ter feito a diferença.

Os acidentes domésticos e aqueles que acontecem tendo como culpados os elementos da própria família ocorrem muitas vezes por situações idênticas. Porque é "já ali" e a criança não se senta na cadeirinha, porque "vou só tomar banho" e a criança se empoleira na janela e cai, porque "vou só acabar de ler mais umas páginas" e o bebé sufoca com algo que encontrou no chão de casa, quando brincava, sossegado.

Como se os nossos corações já não nos doessem suficientemente, ontem, algumas horas mais tarde chegava a notícia de outra morte. Uma criança de apenas três anos de idade, tinha caído "de uma janela situada no segundo andar de um edifício, para as traseiras do mesmo”. A criança ainda foi socorrida e transportada para o Hospital de S. João, mas acabaria por falecer devido à gravidade dos ferimentos. Ao que é apontado nas notícias, haveria gente em casa, mas neste caso a cobertura mediática tem sido bem menor. 

No outro dia, durante a reunião de condomínio do meu prédio, um vizinho olhou-me de lado quando referi que alguém tinha feito bem em ativar a polícia quando o filho dele de dois anos e pouco se debruçou na janela do quarto andar para atirar coisas cá para baixo. Para ele, tinha sido exagerado, pois ele estava em casa, mas "noutra divisão" e a criança deveria estar "a dormir". De referir que estávamos a meio da manhã... e que vários vizinhos tocaram à campainha e bateram com força na porta de casa, além de gritarem cá de baixo a chamar por ele. O meu comentário foi rude, sim, mas se tivesse caído cá em baixo, teríamos um bebé morto e várias pessoas traumatizadas. Não aconteceu nada, não sei sequer se os agentes que ali foram chegaram a criar alguma ocorrência e se aquele criança estará segura com as devidas trancas (bloqueadores de abertura) já colocadas na janela. Falei disso, mas não sei se o senhor me deu atenção. 

Dou formação na área da educação de infância e falo muitas vezes nas questões da segurança. De olharmos o mundo à nossa volta da perspetiva da criança. O que vemos, pode parecer inofensivo para nós mas pode ser mortal para um bebé. Uma janela que abre facilmente, um móvel que é leve e que não está preso na parede, uma embalagem de veneno ou de detergente que fica guardada por baixo do lava-louças e que se abre facilmente. Vamos olhar em volta e ver se a nossa casa é segura? 

E já agora, vamos criar o hábito de colocarmos a nossa mala pessoal com as chaves, a carteira e o telemóvel no banco de trás do carro, pelo menos se transportarmos crianças sejam nossas ou não?

E convido-vos a ler esta notícia da RTP acerca de um estudo feito numa Universidade dos EUA, sobre o aumento da temperatura dentro de uma viatura e de como isso nos pode afetar. Segundo esse estudo, "em média, o corpo de uma criança atinge a temperatura letal corporal aos 40 graus Celsius." O que também é referido é que "o material de que é feito o revestimento dos veículos, na grande maioria plásticos e fibras, liberta gases tóxicos quando aquecido." Ou seja, não mata só pela subida da temperatura, mas pela libertação de gases tóxicos. Segunda a mesma publicação, " o interior de um carro novo, na sombra e com as janelas fechadas, pode libertar até 800 mg de benzeno, podendo mesmo chegar a 4.000 mg num dia de sol forte."

De acordo com análises feitas durante esse estudo, quando o carro estava apenas "1,4 horas ao sol e cerca de 2,4 horas à sombra e variando sempre de acordo com o tamanho da viatura, uma criança deixada dentro de uma viatura ligeira pequena pode morrer de sobreaquecimento em apenas uma hora." Por isso, num dia de calor no meio de Almada, talvez nem tenham sido necessárias as sete horas de esquecimento para que a situação se tivesse tornado irreversível... Não tenho palavras de conforto para os pais nem para a família, mas aos colegas que socorreram, a única coisa que posso dizer é que a culpa nunca será vossa, mesmo que a sensação de impotência vos esteja a apertar o peito. Deixem que as lágrimas e revolta saia, mas não se condenem.


Fontes:

https://observador.pt/2026/07/24/crianca-de-tres-anos-morre-apos-cair-de-um-predio-na-maia-pais-estavam-em-casa-mas-desconhece-se-circunstancias-do-acidente/

https://rr.pt/noticia/pais/2026/07/24/psp-investiga-morte-de-crianca-que-caiu-de-uma-janela/479445/

https://cnnportugal.iol.pt/pragal/almada/sete-horas-esquecida-numa-viatura-da-creche-o-que-ja-se-sabe-da-morte-de-uma-crianca-de-18-meses-em-almada/20260723/6a625fcbd34ef04b4f3f88e2

https://www.rtp.pt/noticias/pais/efeito-de-estufa-no-interior-dos-carros-pode-ser-mortal_n1078940

Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...