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03/06/2026

Greve geral... ou nem tanto

 A ideia era realizar uma greve geral contra o Pacote Laboral, considerado por muitos como um retrocesso. 

No caso da Educação, que é a área que, não desfazendo das outras, mais me interessa neste momento, as consequências da aprovação deste Pacote Laboral, são as seguintes:

  • a facilitação dos despedimentos;
  • a prevalência da satisfação de necessidades permanentes com recurso à contratação a termo;
  • a possibilidade de recurso ao outsourcing para satisfazer, transitoriamente, necessidades do sistema educativo;
  • o agravamento da desregulação do tempo de trabalho;
  • a introdução do banco de horas individual com aumento de até 10 horas semanais, sem aumento da remuneração (até ao limite de 150 horas);
  • a limitação do período de amamentação até aos 2 anos de idade da criança;
  • no setor privado, ainda maior facilitação da caducidade da contratação coletiva, o que terá também inevitáveis consequências no quadro da negociação coletiva previsto para a administração pública;
  • a exclusão dos trabalhadores temporários das regras da contratação coletiva;
  • a atribuição ao patrão do direito de escolher a convenção que for, para si, mais favorável, impondo-a aos respetivos trabalhadores;
  • o ataque à liberdade sindical;
  • a limitação, ou mesmo a extinção, na prática, o direito à greve;
  • a drástica fragilização da situação geral dos trabalhadores nas relações laborais, o que não deixará de ter consequências muito negativas na área da administração pública e, em particular da educação e da investigação, com consequências em processos como o da revisão do ECD e outros.
Agora que o dia está a chegar ao fim, é preciso olhar para esta greve com a devida cautela. De entre várias consequências, podemos destacar "os constragimentos nos transportes públicos," na saúde e no acesso a alguns serviços. No caso das escolas, há dados que indicam que cerca de "48% dos alunos não puderam realizar a prova de Língua Portuguesa" (ModA).

Infelizmente, nestes dias, existem sempre aqueles que se aproveitam para causar confusão e para tentar denegrir a imagem dos manifestantes. Felizmente, ainda são um valor residual. Outra questão a ter em conta e que eu considero muito importante é que se o direito à Greve existe, também existe o direito a não fazer greve. Isso devia ser desde logo algo assumido por todos. Os que querem ir trabalhar, deviam poder fazê-lo sem que isso fosse alvo de agressões ou insultos. No entanto, houve casos em que não existiu esse respeito. Também de referir que, quando alguém faz greve, o seu posto de trabalho não pode ser substituído. Houve casos de trabalhadores em prestação de serviços a realizar funções que competiriam a funcionários em Greve, o que não se enquadra nos serviços mínimos.

No entanto, houve muita gente a escolher ir trabalhar e não fazer greve, o que fez com que em alguns serviços o impacto da greve não fosse o esperado. Mais uma vez, assistimos a uma discrepância enorme entre os dados apresentados pelo governo e os dados apresentados pelas centrais sindicais. E depois havia aqueles que, entrevistados para as estações de televisão e rádio que faziam a cobertura da greve, nem sequer sabiam o que se estava a passar ou quais os motivos que levaram à paralisação. Será que têm estado a dormir, ou aterraram agora em Portugal vindos não se sabe bem de onde?

Pelas suas consequência imediatas podemos dizer que prejudicou o país, mas sinceramente, na prática, eu não sei se fará assim tanta mossa na vontade deste governo que nos tem vindo a surpreender com as suas decisões pouco democráticas.

Fontes:

https://www.spn.pt/Artigo/greve-geral-3-jun

https://www.publico.pt/2026/06/03/sociedade/noticia/grave-residual-expressiva-greve-geral-dois-tons-2177062

https://www.gov.pt/noticias/greve-geral-de-3-de-junho-servicos-publicos-e-transportes



01/06/2026

No dia da criança, lembremo-nos dos que sofrem

Hoje é dia da Criança. Um dia feliz, com muitas atividades, alegria, presentes. Um dia diferente para muitas crianças. Mas depois vem-me à lembrança: e as crianças dos países em guerra? 

Apesar de o Dia da Criança se celebrar apenas em alguns países nesta data, é uma oportunidade para refletirmos como vivem as crianças, em particular aquelas que estão em zonas de conflito, as que foram amputadas, as que sobreviveram à morte da sua família e se encontram agora sós. "As crianças são desproporcionalmente afetadas pelos conflitos, as forças combatentes continuam a recorrer à morte, violência sexual, exploração e recrutamento, como “armas de guerra” para infligir deliberadamente danos físicos e mentais que duram muito além do conflito."

Em Gaza, há cerca de 10 mil crianças com deficiências graves diretamente relacionadas com a guerra, muitas delas amputadas. Além disso, estas crianças dificilmente têm acesso a cuidados de saúde, a uma resposta para uma adequada recuperação (próteses, fisioterapia). Depois há ainda a questão de falta de acesso a cuidados básicos, onde se incluem a saúde, higiene, água, alimentação e uma casa. 

Em Gaza, a "infraestrutura de água, saneamento e gestão de resíduos está amplamente destruída." Acrescente-se aqui que, mesmo que existam locais onde conseguem ir buscar água, na sua maioria estes encontram-se contaminados, sendo que "esta crise da água e saneamento é agravada pela acumulação do lixo."

Outro local onde as crianças sofrem com o flagelo da guerra, é a Ucrânia. Segundo a UNICEF, "quatro anos após o início da invasão russa, a vida das crianças ucranianas tornou-se uma questão de sobrevivência." No ano passado, 92 crianças perderam a vida devido à guerra, enquanto outras 652 ficaram com ferimentos graves.

De destacar que cerca de "um terço das crianças estão deslocadas e, em cidades da linha da frente como Kherson ou Kramatorsk, milhares vivem e estudam nos subterrâneos para escapar aos bombardeamentos russos." A infância destas crianças está-lhes a ser roubada por bombardeamentos frequentes, alertas de ataque que as obrigam a fugir e a recolher-se. Crescem quase sem poderem brincar na rua, sem serem crianças. Muitas destas crianças apresentam sinais de "ansiedade e trauma."


Fontes:

https://24noticias.sapo.pt/atualidade/artigos/gaza-tem-o-maior-numero-de-criancas-amputadas-da-historia-moderna#goog_rewarded

https://www.amnistia.pt/criancas-sob-ataque/#gref

https://sicnoticias.pt/especiais/guerra-russia-ucrania/2026-02-24-quatro-anos-de-guerra-na-ucrania-a-infancia-deslocou-se-para-os-subterraneos-5230d09a

https://sicnoticias.pt/especiais/guerra-russia-ucrania/2026-02-19-video-guerra-na-ucrania-criancas-vivem-com-trauma-e-ansiedade-a-15-km-da-linha-da-frente-3c4fd974



03/05/2026

O desaparecimento de um dos maiores comunicadores do "meu tempo" e a Liberdade de Imprensa

 Hoje fazia tenções de escrever apenas sobre a Liberdade de Imprensa, mas acabei de saber que tinha falecido esta madrugada um dos maiores radialistas e voz-off da minha geração. De voz inconfundível, Cândido Mota foi um comunicador que se distinguiu pela clareza e força da sua voz. Uma voz que conhecemos antes da imagem.

Atualmente a viver na Casa do Artista, Cândido Mota foi locutor de rádio, apresentador de televisão e ator, particularmente em pequenos sketches feitos com Herman José.

Nascido em Espinho a 28 de setembro de 1943, Cândido começou a trabalhar no Rádio Clube Português com apenas 17 anos. Na RDP (Rádio Difusão Portuguesa) fez programas inovadores para a época como o "Em Órbita" ou o "Passageiro da Noite" (1979). no qual as pessoas podiam ligar para a rádio e falar em direto sobre diferentes temas.

Foi contraponto em muitos programas televisivos, trabalhando por exemplo com Herman José com quem tinha uma cumplicidade indisfarçável, por exemplo em "A Roda da Sorte" (1991) ou "Com a Verdade m'enganas", ambos da RTP. Estávamos numa época em que havia pouca variedade, mas uma qualidade superior, principalmente ao nível dos concursos e do entretenimento. 

Quanto ao tema que me propunha falar em primeiro lugar, outras oportunidades virão, mas não poderia deixar de relembrar que a liberdade de um povo se vê na liberdade da sua imprensa. Tal como nos lembrou António José Seguro, existem muitos países em que os jornalistas "são frequentemente alvo de censura, ameaças e mesmo violência." Eu acrescentaria que existem países onde os jornalistas são perseguidos e assassinados, onde estar identificado como "press" não significa estar em segurança. A nossa democracia deve muito à imprensa que, tantas vezes, foi tentando contornar as ordens do regime.

Agora deixo a questão: existe liberdade de imprensa no nosso país?


Fontes:

https://sicnoticias.pt/pais/2026-05-03-presidente-da-republica-diz-que-voz-inconfundivel-de-candido-mota-ficara-na-memoria-coletiva-1d65f8b7

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2ndido_Mota_(locutor)

https://diariodistrito.sapo.pt/liberdade-de-imprensa-em-risco-alerta-de-antonio-jose-seguro/

08/12/2025

Dia da Imaculada Conceição

Celebra-se hoje o dia da Imaculada Conceição, feriado nacional que, para os católicos, assinala "a vida e a virtude de Virgem Maria, mãe de Jesus," por esta ter recebido "o título de dogma católico no dia 8 de dezembro de 1854."

Assim, tem origem a celebração dessa comemoração, que é uma data de grande significado para a Igreja Católica. Em Portugal, durante vários séculos celebrou-se nesta data o dia da mãe, e para algumas pessoas ainda continua a ser hoje - "mas a data acabou por ser movida para o primeiro fim de semana de maio por este ser considerado o mês de Nossa Senhora."

Conta a história que, a 25 de março de 1646, o "rei D. João IV organizou uma cerimónia solene para agradecer a Restauração da Independência de Portugal em relação à Espanha" declarando que Nossa Senhora da Conceição seria a partir daí "considerada padroeira de Portugal."

A partir desse dia, mais nenhum rei português usou uma coroa, visto que este passou a ser privilégio apenas da Imaculada Conceição. Em ocasiões especiais, a coroa era colocada sobre uma almofada, no lado direito do rei. A mim interessa particularmente a parte histórica e este gesto de D. João IV pode ter várias interpretações. Para quem quiser saber mais sobre as origens deste feriado convido a pesquisarem sobre o dogma atribuído pelo Papa Pio IX, na sua bula Ineffabilis Deus, ou sobre a posição de Tomás de Aquino, santo da igreja católica.

Fontes:

https://www.calendarr.com/portugal/imaculada-conceicao/

https://sicnoticias.pt/pais/2025-12-08-dia-da-imaculada-conceicao-o-que-se-assinala-no-feriado-de-8-de-dezembro--ab555a6a

https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/dia-da-imaculada-conceicao-a-9071?tc=215227148908

 

24/11/2025

Porque se discute o 25 de novembro?

Assinala-se hoje o 25 de novembro de 1975. Passaram-se 50 anos, mas se formos perguntar, quase ninguém sabe o que se passou nesta data. Lembram-se de quem constituía o "Grupo dos Nove"? E sabiam que estivemos prestes a começar uma guerra civil? Quando falamos dos anos 80 e 90, não nos podemos esquecer que estes governos foram nascendo em cima de um clima de grande instabilidade, de uma democracia recente e de uma República que tinha durado apenas 16 anos e que tinha falhado para dar lugar a um regime militar. 

No passado domingo, saiu à rua a "Marcha dos Audazes", que além de um desfile de onze quilómetros, contou ainda com um almoço convívio, entre militares e ex-militares. Para hoje, 25 de novembro, "está prevista uma sessão solene evocativa na Assembleia da República e uma parada militar no Terreiro do Paço." Em vez de cravos, vão entregar rosas brancas na Assembleia da República. Mas a discussão continua. Com uns a favor e outros contra, este ano a celebração será realizada, com a possibilidade para todos os partidos poderem intervir. "Os comunistas fizeram saber que não vão marcar presença," sublinhando que "não compactua com a operação em curso em torno dos 50 anos do 25 de Novembro para menorizar o 25 de Abril, as suas conquistas e valores, nem para tornar o 25 de Novembro naquilo que não foi, mas que alguns gostavam que tivesse sido". É a opinião deles e lá saberão... talvez não digam é que o que desejavam, na altura, era colocar num poder um outro regime, um outro tipo de ditadura e que esse plano lhes falhou redondamente. Ninguém quer desvalorizar o 25 de abril, mas como seria se o 25 de novembro não tivesse acontecido? Em que tipo de Estado estaríamos hoje?

A sessão solene prevista para as 11 horas, terá "um discurso do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco," e irá terminar "pela alocução do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa."

A 25 de abril de 1974, o país saía finalmente da ditadura e nas ruas celebrava-se a Liberdade! No entanto, um país não muda da noite para o dia e havia que se reorganizar um país que vivia na pobreza, em que os direitos estavam subjugados e que precisava de um novo rumo. A vida não voltaria a ser como antes. Exigiam-se eleições livres, uma nova Constituição, uma Assembleia. E ao contrário da simplicidade com que se trata destes assuntos nos manuais escolares, este não foi um período fácil!

Os apoiantes do MFA (Movimento das Forças Armadas) e o governo, liderado por Vasco Gonçalves, tinham opositores. Apesar do que se conseguiu neste período, não se pode dizer que tenha sido tranquilo, muito pelo contrário.

"Nos meses seguintes o país assistiria a uma série de episódios de violência de grupos mais ou menos organizados da extrema-esquerda e da extrema-direita, e a ameaça de uma guerra civil era real." Houve prisões, perseguições e acusações infundadas, ataques e ameaças de morte. Houve muito, de que agora não se fala, mas uma coisa é certa: o país não podia sair de um regime para cair noutro, igual ou pior e, por isso, o 25 de novembro tem a sua relevância e vem contribuir para colocar um pouco final num período de grande instabilidade. O PREC vê o seu fim no "golpe militar de 25 de novembro de 1975 e, posteriormente, com a Constituição de 1976, dois momentos que põem fim à ilusão de liberdade caraterística desta altura e permitem pôr, finalmente, em prática, os princípios apregoados pela Revolução dos Cravos."

O país vivia em tensão e é a 25 de novembro que "toda esta tensão chega ao limite, com sectores da esquerda radical a tentarem um golpe de estado, que acabou por ser frustrado pelos militares que se encontravam com o “Grupo dos nove”, apoiados por um plano militar liderado por Ramalho Eanes." 

Este episódio estará hoje, de forma um pouco mais detalhada, no meu blog: 

https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/25-de-novembro-celebrar-ou-nao-6612?tc=214097511944.

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/25-de-novembro-uma-tentativa-de-golpe-falhada/

https://sicnoticias.pt/pais/2025-11-23-video-marcha-dos-audazes-assinala-50-anos-do-25-de-novembro-e-critica-guerra-politica-sobre-a-data-8102c80b

https://www.rtp.pt/noticias/politica/parlamento-assinala-50-anos-do-25-de-novembro-em-sessao-igual-ao-25-de-abril_e1700251

https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/25-de-novembro-celebrar-ou-nao-6612?tc=214097511944

https://www.jpn.up.pt/2015/04/26/40-anos-do-prec-ilusao-liberdade-ninguem-fala/

21/09/2025

Dia Internacional da Paz

Celebra-se hoje a Paz! 

Era tão bom que fosse uma realidade, mas infelizmente, parece que estamos cada vez mais perto do alargamento da guerra e a uma distância cada vez maior da tão desejada paz. "Este dia foi estabelecido em 1981 e proclamado na Resolução 55/282, adotada na Assembleia Geral da ONU a 28 de setembro de 2001."

Nesta data, tenta-se assinalar o desafio internacional pela paz "através da observação de 24 horas de não-violência e de cessar-fogo em todo o mundo." Este ano, acrescenta-se uma outra iniciativa, simbólica, em que se juntam o "Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC)", a "UNICEF Portugal" e um  "grupo de personalidades públicas", que concretizam a "iniciativa #JanelaBrancaPelaPaz" em que se desafiam "todas as pessoas e entidades a decorarem, nesse dia, a sua janela com uma peça branca para evocar a importância da Paz e para mostrar a sua solidariedade para com todos os que vivem em situação de guerra ou de conflito." Uma ação pacífica e fácil de concretizar. Mas o que é a Paz, nos tempos que correm? Estamos em Paz armada? Ou envolvidos numa guerra através das alianças criadas? E sobre a política externa? Estaremos apenas a seguir na cauda daquilo que os outros querem ou estaremos a pensar naquelas que devem ser as nossas prioridades? Não sabemos...

A ação que mais se destaca é a oficialização por Portugal e por outros nove países, do "reconhecimento do Estado da Palestina." Esta "decisão do governo" é apoiada pelo "o Presidente da República" que “acompanhou todo o processo”. Aliás, destaque-se a ida de Marcelo Rebelo de Sousa a Nova Iorque, onde será feito o anúncio, o qual está previsto "para as 15h15 (20h15, hora de Lisboa) e será proferido por Paulo Rangel, antes da Conferência de Alto Nível das Nações Unidas, que se realiza na segunda-feira, em Nova Iorque." Porquê agora e não antes? 

A posição portuguesa, não é no entanto, unânime, com "o partido conservador CDS-PP, parceiro da coligação do atual executivo," a discordar "do anúncio, afirmando que o mesmo “é inoportuno”.

De acordo com o presidente da República e dos apoiantes da decisão, a posição do Estado português passa por "defender a moderação para que essa fórmula [de dois Estados, de Israel e da Palestina] seja possível, e afastar-se dos radicalismos." Entretanto, Londres já avançou com o reconhecimento, praticamente ao mesmo tempo que o Canadá e que a Austrália.

Fontes:

https://eurocid.mne.gov.pt/eventos/dia-internacional-da-paz

https://pt.euronews.com/2025/09/21/portugal-e-mais-nove-paises-preparam-se-para-reconhecer-estado-da-palestina-neste-domingo

11/06/2025

No Dia de Portugal... direitos e liberdades ameaçadas?

Ontem assinalou-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Esta data foi escolhida por ser a data (conhecida) da morte do poeta Luís de Camões. Este feriado começou, aiás, por ser celebrado apenas como feriado municipal em Lisboa, "dedicado a Camões," mas com o Estado Novo acabou por ser elevado "a feriado nacional, como o «Dia de Camões, de Portugal e da Raça»." A Revolução de 25 de abril, trouxe-lhe uma nova designação: "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portugueses" - desaparecendo o termo "raça", usado pelo regime. Depois da vitória - no passado domingo - da equipa das quinas, contra a seleção espanhola, nada melhor do que homenagear os portugueses. 

Nesta data, presta-se homenagem a Portugal, aos portugueses, à cultura lusófona e à presença portuguesa por todo o mundo. São habitualmente feitas cerimónias públicas em que o Presidente da República e outras entidades, discursam. Este ano as celebrações realizaram-se em Lagos. Estas celebrações são uma boa "oportunidade de assistir ao desfile das forças armadas, em terra e no mar, à exposição dos meios militares, às bandas e orquestra militares e civil e, ainda, à atuação da charanga a cavalo da GNR, a única no mundo que executa trechos musicais nos três andamentos, a passo, a trote e a galope."

Nas comemorações deste ano, o Presidente da República condecorou o antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, destacando também o trabalho das diferentes Forças Armadas Portuguesas. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o general "merece como ninguém o primeiro grande-colar da Ordem Militar da Avis, nunca atribuído".

O ainda Presidente da República, com a sua presença carismática, afirmou no seu discurso que "Isto é Portugal, os portugueses e as portuguesas, e nele os nossos combatentes, os nossos militares, esses militares que aqui estão, todos os anos pelo 10 de Junho, mas estão na nossa História desde que nascemos." Na sua originalidade, e não deixando de ser uma pessoa interventiva (às vezes mais do que o esperado e, quando não fala, acabamos por estranhar) e, neste discuros, lá foi dando achada daqui, bordoada dali, as suas palavras sobre a importância de sermos um país construído a partir de muitas culturas, de uma história rica em invasões e conquistas. Um país multicultural e, por isso, um país que é mais rico. Sobre as Forças Aramadas referiu que "Portugal foi um reino feito por esses soldados" e que hoje somos "uma pátria que vive em liberdade e democracia feitas por esses soldados". Mas muitos não interpretaram assim as palavras de Marcelo e criticaram a sua posição, não percebendo a alegoria das suas palavras. 

Enquanto isso, numa "cerimónia de homenagem aos ex-combatentes em Lisboa," alguns ex-militares insurgiram-se contra Gouveia e Melo e "contra o imã de Lisboa, convidado para a cerimónia."

Lídia Jorge, conselheira de estado e uma figura iimportante no panorama sócio-político e literário do nosso país, aproveitou para relembrar "o passado esclavagista de Portugal e a atualidade da obra de Camões, que viveu num fim de ciclo, tal como aquele em que o país se encontra atualmente." A escritora, alertou para "a possibilidade de loucos atingirem o poder" e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos," dizendo ainda que "cada um de nós é uma soma do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco, do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou."

O que mais me chocou - e o motivo para esta minha publicação no blogue - foram muitas outras coisas que se passaram à margem deste feriado: os apupos, os comentários, as agressões. O racismo, esteve todo o dia em discussão - muito, por causa de comentários e reinvindicações mais extremistas que se foram fazendo ouvir - e porque nesta data se assinala também um outro acontecimento, a morte de Alcino Monteiro, agredido com muita violência há 30 anos. Numa manifestação contra o racismo e, também, em "memória de Alcindo Monteiro, centenas de pessoas juntaram-se no centro de Lisboa, num percurso que foi desde o "local onde foi encontrado o corpo de Alcindo Monteiro, na Rua Garrett," e que terminou junto ao Largo do Carmo.

Um grupo de indivíduos - que durante a tarde tinha estado numa manifestação e já teria provocado outros desacatos - enxovalharam e agrediram alguns atores da companhia de Teatro, "A Barraca", quando estes se dirigiam para o teatro. Neste grupo, podem ter estado alguns dos intervenientes na morte de Alcino Monteiro.

O ator Adérito Lopes teve de ser levado ao hospital devido à gravidade dos ferimentos. A atriz Maria do Céu Guerra, explicou muito bem o que se passou e mostrou de forma muito precisa, que é preciso pôr fim a estes atos de violência. "Segundo o relato da encenadora, que exibiu para as televisões autocolantes da loja Pró-Pátria," este terá sido um ataque contra a liberdade de expressão e, um ato cobarde.

Fontes:

https://eurocid.mne.gov.pt/eventos/dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas

https://www.dnoticias.pt/2025/6/10/452103-marcelo-termina-ultimo-discurso-com-homenagem-aos-militares-e-a-eanes/

https://www.publico.pt/2025/06/10/sociedade/noticia/luta-racismo-memoria-alcindo-monteiro-juntam-centenas-lisboa-2136227

https://www.rtp.pt/noticias/pais/insultos-racistas-e-a-gouveia-e-melo-em-homenagem-a-ex-combatentes_v1661173

https://www.rtp.pt/noticias/pais/somos-portugueses-porque-somos-universais-o-ultimo-discurso-de-marcelo-no-10-de-junho_e1660831

11/05/2025

Dar voz aos nossos combatentes

Esta manhã, durante um passeio pelo Seixal, observei a celebração do aniversário do Núcleo do Seixal da Liga dos Combatentes (com sede na freguesia da Amora) e que completou hoje 12 anos. As celebrações decorreram no Jardim da Praça dos Mártires da Liberdade, junto ao monumento aos combatentes da Grande Guerra.

Aquilo que mais me emocionou, foi ver que o grupo é composto por pessoas com uma idade já avançada e, o pensamento de que muitos deles são livros-vivos que não se podem deixar calar. É preciso que a luta destes homens e das suas famílias e amigos, não seja esquecida. Muitos deles, deram a sua vida e a sua saúde pelo país, obrigados a ir para uma guerra na qual muitos não desejavam estar. Tantas histórias foram já contadas, mas quantas mais haverão aí por contar?

No dia 9 de abril, assinalou-se o Dia do Nacional do Combatente, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, com a presença do Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, que no seu discurso, frisou que “… só o fim da escalada de violência e a vontade de construir a paz, permitirão caminhos de futuro!” 

Hoje, no Seixal, o grupo era pequeno. Muitas pessoas paravam um pouco para ouvir e continuavam a sua vida. Muitos seixalenses desconhecem que monumento é aquele que está ali na relva (e que entretanto foi trocado de lugar depois das obras executadas no Jardim) e a quem se refere. De facto, o monumento é dedicado "aos combatentes da Grande Guerra," (aos portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial, tantas vezes esquecidos, oito dos quais filhos do Seixal). "Tendo enviado tropas em defesa das colónias em África em 1914, foi em 1916 que se deu a entrada oficial de Portugal na guerra, juntando-se aos Aliados."

Não havendo um monumento aos mortos da Guerra do Ultramar, serve este como ponto de encontro e de reflexão sobre a importância da Paz, mas também da Memória devida a todos os que morreram em situação de conflito envolvendo tropas portuguesas. Cerca de "noventa por cento da população jovem masculina do país foi mobilizada para a Guerra do Ultramar, que causou cerca de 10 mil mortos e 20 mil inválidos entre os soldados e mais de 100 mil vítimas entre os civis que viviam nas colónias."


Fontes:

https://www.ligacombatentes.org/dia-nacional-do-combatente-2025-seixal/

https://ultramar.terraweb.biz/03Mortos%20na%20Guerra%20do%20Ultramar/LetraS/MEC_246n.pdf

https://ensina.rtp.pt/explicador/das-causas-ao-final-da-i-guerra-mundial-h83/

https://ensina.rtp.pt/artigo/memorias-da-guerra-do-ultramar/

https://ultramar.terraweb.biz/index_MortosGuerraUltramar_Portugal.htm

https://www.dn.pt/sociedade/mortos-na-guerra-colonial

08/05/2025

Habemos Papa...

... e vem dos Estados Unidos.


Chama-se Robert Francis Prevost, tem 69 anos e assumiu o papado com o nome de Leão XIV. A escolha "foi feita no segundo dia do Conclave e ao fim de quatro votações. Embora tenha nascido em Chicago, nos Estados Unidos, Prevost "tem ascendência espanhola e nacionalidade peruana, e pertence à Ordem de Santo Agostinho."


Prevost adotou o título de Leão XIV, como que fazendo "referência à postura política do último pontífice com esta designação no século XIX, e um compromisso com a justiça social de Francisco, segundo uma especialista em religião." Se olharmos do ponto de vista hitórico e teológico, percebemos a importância que a escolha de um nome pode ter, acabando por ser um sinal de compromisso com as questões sociais. O antecessor, "Leão XIII", foi líder da Igreja Católica entre os anos de 1878 e 1903, tendo  lançado "as bases para o pensamento social católico moderno, sobretudo na sua encíclica Rerum Novarum de 1891, que abordava os direitos dos trabalhadores e o capitalismo no início da era industrial." Durante o seu episcopado, Leão XIII foi ainda responsável pela elevação do "Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia à categoria de basílica papal em 1901."


Leão XIII foi de facto um crítico do "capitalismo insensível" e do "socialismo centrado no Estado, dando forma a uma vertente de ensino económico distintamente católica." O que poderemos esperar agora de um homem que se identifica com estes pensamentos? O que se espera é que Laeão XIV venha agora orientar a Igreja numa direção mais política, que vá ao encontro de soluções que visem a paz.


O termo Papa, embora antigo só "foi reclamada pelo bispo de Roma no século VI. A primazia papal, conceito segundo o qual o papa é o líder máximo da igreja, ficou intrinsecamente ligada ao papa de Roma, elevando o bispo da cidade acima de todos os outros bispos." Antes disso, o termo Papa "era utilizado por membros respeitados do clero em toda a cristandade."


Só mais tarde, no século XI, os papas deixaram de ser "eleitos em função da opinião popular, tanto do clero como dos crentes," mas no entanto era raro haver consenso nas decisões, o que deu origem a que algumas eleições fossem contestadas e ao aparecimentos dos chamados "antipapas – indivíduos com pretensões substanciais, embora falsas, ao assento papal." Foi também durante o século XI que se iniciou a "prática de adotar um novo nome," em vez do nome de batismo. "Durante muitos séculos, os novos papas tiveram tendência a escolher o nome do papa que os tinha elevado a cardeal."


"Em 1059, o Papa Nicolau II emitiu um decreto" que estipulou o processo pelo qual os papas deveriam a partir daí "ser eleitos, delineando o papel dos cardeais enquanto eleitores." Este decreto levou à diminuição da "influência da aristocracia romana e do baixo clero e estabeleceu as bases do Colégio dos Cardeais, criado formalmente em 1150."


Em 1179 foi então determinado que, para ser eleito, o novo Papa teria de obter pelo menos dois terços dos votos. O número de cardeais votantes faoi aumentando, chegando a 120 em 1975, no papado de Paulo VI. "O atual limite de idade dos cardeais com direito a voto, 80 anos, foi estipulado em 1970." Este ano, o número de cardeais votantes foi 133.


Está  estipulado que, "quando um papa morre ou abdica, todos os membros do colégio dos cardeais são obrigados a comparecer à eleição (o conclave), excepto se tiverem problemas de saúde ou ultrapassado o limite de idade."


"Quando a Santa Sé está vacante" - ou seja, vaga - o conclave deve ter início entre "15 e 20 dias após a partida do último papa. Este período foi estabelecido em 1922 para garantir que os cardeais tivessem tempo suficiente para realizar a viagem."


Quando chegam, "os cardeais são trancados na Capela Sistina" até que um deles seja eleito. "Os critérios referentes aos candidatos, os regulamentos da votação e a necessidade de isolar os eleitores foram formalizados, tendo sido alterados e ajustados posteriormente, quando as falhas do sistema se tornaram evidentes."


É a queima dos votos que vai indicar ao público aquilo se a votação elegeu ou não um novo Papa - fumo branco, significa que um novo Papa foi escolhido. "Não se sabe ao certo quando" é que esta prática teve início, "mas o uso de fumo branco para indicar a escolha de um novo papa remonta apenas ao final do século XIX ou início do século XX."


Fontes:


https://www.rtp.pt/noticias/mundo/papa-leao-xiv-robert-francis-prevost-e-o-novo-chefe-da-igreja-catolica_e1653157


https://www.nationalgeographic.pt/historia/como-eleito-novo-papa-conclave-escolha-fumo-branco_5860


https://www.rtp.pt/noticias/mundo/cardeais-fechados-na-capela-sistina-pelo-segundo-dia-para-eleger-novo-papa_e1653157


 


 

01/05/2025

1º de Maio...

Este 1º de Maio foi um pouco estranho... depois de ter colocado a morte de um Papa à frente da celebração da Liberdade do país, a AD fez do Dia do Trabalhador, uma festa popular, ou como alguns chamaram "popularucha"... 

Depois do 25 de Abril de 1974, a Junta de Salvação Nacional (onde estavam representados os três ramos das forças armadas), "decretou feriado o dia 1 de Maio e, pela primeira vez em quase cinco décadas, o dia do trabalhador voltou a ser assinalado. Nesse dia, as pessoas vieram para a rua, empunhando cartazes e gritando "reivindicações de toda a ordem," demonstrando "de forma espontânea a sua alegria pela liberdade recentemente conquistada." Entre muitas outras coisas, pediram-se "direitos para as mulheres, para as crianças, para todos os partidos, para os artistas e para a imprensa, melhores salários" e, até, água canalizada.

(imagem: Museu do Aljube)

Em 1974, as "manifestações do Dia do Trabalhador que ocorreram em Lisboa e no Porto em 1974 impressionaram na dimensão, no exemplo de civismo e na genuína alegria partilhada entre todos, conhecidos e desconhecidos." Atualmente, descer a Avenida da Liberdade em Lisboa, ainda não é para todos.

"Em Lisboa, a Alameda Afonso Henriques foi ponto de encontro e o comício ocorreu depois no Estádio" da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, "onde muitos milhares de pessoas se juntaram nesse dia sob o lema “Paz, Pão e Liberdade!" e onde "Mário Soares" (socialista) "e Álvaro Cunhal" (comunista), "apareceram lado a lado", abraçando-se e, juntos, "celebrando a recentemente conquistada liberdade."

"Nos desfiles e comícios havia bandeiras nacionais e flores, estandartes de partidos e sindicatos, cartazes populares e milhares de vozes unidas na banda sonora da revolução. Ao mesmo tempo que cantarolavam a Grândola de Zeca Afonso e outras canções proibidas pela censura, gritavam palavras de ordem contra o fascismo e em defesa dos valores da democracia." Com este governo, quem cantou foi Tony Carreira e a festa foi feita nos Jardins do Palácio de Belém.

A origem desta data é, no entanto bem anterior a 1974. Remonta sim "ao século XIX." Em 1886, "milhares de trabalhadores" dos Estados Unidos, "organizaram uma greve geral para exigir a redução da jornada laboral para oito horas por dia." Estas manifestações, tornaram-se "particularmente violentas." Na cidade de Chicago, os ânimos exaltaram-se e a situação tomou proporções muito graves quando no dia 04 de maio, durante um protesto na Haymarket Square, "foi lançada uma bomba contra a polícia" o que levou à intensificação dos confrontos já de si violentos. "Várias pessoas morreram e líderes sindicais foram condenados à morte ou prisão."

"Três anos depois, em 1889, o Congresso Operário Internacional, em Paris, decidiu homenagear os trabalhadores de Chicago e instituiu o 1.º de Maio como dia de luta internacional pela melhoria das condições de trabalho." Em Portugal, a ditadura proibiu as comemorações, que tinham sido assinaladas pela primeira vez em 1890. 

Numa data que é, acima de tudo, simbólica, surgem agora novas questões e novas reinvindicações: "o impacto da automatização e da inteligência artificial, os efeitos da pandemia na organização do trabalho, a importância da conciliação entre vida pessoal e profissional e as desigualdades que persistem entre setores e entre homens e mulheres." Ainda hoje, tantos anos depois, os direitos não são ainda iguais para todos, os ordenados diferem pelo sexo do trabalhador e ainda há mulheres a morrer às mãos dos maridos que as consideram sua propriedade. Não podemos deixar cair a liberdade, não podemos esquecer que os nossos direitos ainda não estão seguros! 

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-junta-de-salvacao-nacional-primeiro-poder-apos-a-ditadura/

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-primeiro-1-o-de-maio-da-democracia/

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-povo-unido-jamais-sera-vencido/

https://sicnoticias.pt/pais/2025-05-01-1.-de-maio-historia-lutas-e-os-novos-desafios-do-trabalho-b077aa0e

https://sicnoticias.pt/pais/2024-05-01-video-o-primeiro-dia-do-trabalhador-em-liberdade-como-foi-o-1-de-maio-ha-50-anos--4d34e069

25/04/2025

Que não se deixe calar Abril

Como um dia Ary dos Santos afirmou num dos seus célebres poemas, "agora ninguém mais cerra, as portas que Abril abriu". Mas se este era o desejo do poeta... 50 anos depois, ainda há restícios de um país com medo da Liberdade!

Ontem à noite, assisti aqui no Seixal ao concerto de celebração dos 51 anos da Revolução de Abril, com a atuação de A Garota Não e de Ségio Godinho. Duas vozes diferentes, de gerações diferentes mas que se conjugaram de forma brilhante. Com letras carregadas de simbolismo e que fazem uma verdadeira reflexão sobre os tempos em que vivemos, A Garota Não, que cantou "Diga 33", uma letra dedicada ao trabalho de Sérgio Godinho, mostrou-nos também que ainda há espaço para as cantigas de intervenção. Sérgio Godinho e Os Acessores, trouxeram-nos as canções de Abril, sem esquecer a poesia de Eugénio de Andrade e de Zeca Afonso. De entre bgrande momentos desta noite, a cantiga "A Balada da Rita", uma versão de arrepiar de "Os Vampiros" cantada a dois. Ums dupla que me surpreendeu pela positiva, seguido de um espetáculo de fogo de artifício que, pelo que estamos acostumados, foi bastante mais contido e concentrado.

E porque é que este ano eu falo deste espetáculo de abril?

Porque em muitos locais, num país que é laico, pela sua constituição, se pararam as celebrações por luto ao Papa. Se somos um país em que todas as religiões são permitidas, então como é que se faz luto ao chefe máximo da igreja católica e não se declarou luto nacional por exemplo, pela morte do Aga Khan, líder dos muçulmanos ismailitas, que até presidia em Lisboa? Ninguém põe em causa a importância da figura do Papa, especialmente deste Papa, amado por tantos e respeitado por muitos, católicos ou não. Mas, não consigo entender como é que o governo coloca à frente da Liberdade e da Democracia, à frente do país, o representante de uma religião, fosse ela qual fosse. Reforço, na Constituição da República, diz que somos um país Laico. Mas parece que é mais uma daquelas coisas que está escrita, sem no entanto ser posta em prática pelos nossos governantes. 

A religião não pode fazer parte das decisões do país nem nelas ter qualquer interferência. Infelizmente. este não é o primeiro caso em que isso acontece e, especialmente, num dia de celebração da Liberdade, esta interferência revolta-me. Sejam lá o que quiserem, acreditem naquilo que queiram, mas não, por favor, não imponham aos outros as vossas crenças e credos. Faleceu um homem bom, um diplomata, um pacificador, um revolucionário que de certeza defenderia que celebrássemos a nossa liberdade e que afirmássemos os valores de democracia e de paz!

A câmara de Almada manteve os eventos programados, mantendo também "a sessão solene da Assembleia Municipal, no qual se homenageiam "os valores de liberdade," cancelando apenas o fogo de artifício. A Câmara de Sintra, chegou mesmo a cancelar a "tradicional cerimónia de hastear da bandeira, nos Paços do Concelho." E não se pense que isto tem apenas a ver com a cor política, pois em Beja, mesmo "depois de o secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, ter criticado o executivo de Luís Montenegro por ter adiado festividades," o presidente da Câmara, autarca do PS, cancelou o "fogo-de-artifício em Beja," devido ao luto nacional de três dias que foi "decretado pelo Governo pela morte do Papa Francisco." 

O governo, ao ser criticado. veio já esclarecer que não “cancelou”, nem "recomendou o cancelamento de quaisquer sessões evocativas da revolução," tendo no entanto "adiado para o dia 1 de Maio o evento festivo na residência oficial do primeiro-ministro". E a razão evocada para que os concertos ficassem "adiados para o 1.º de Maio," foi "por o país estar em luto nacional pela morte do Papa Francisco."

Noite fora, fui vendo pela televisão o que se estava a passar no Largo do Carmo, "um dos locais mais simbólicos do 25 de Abril de 1974 por ter sido no quartel da Guarda Nacional Republicana (GNR) lá situado que Marcello Caetano se refugiou antes de o edifício ser tomado por uma companhia do Movimento das Forças Armadas liderada por Salgueiro Maia o ter tomado." Tal como ocorreu no ano passado, e mais uma vez sem contar com o apoio da Câmara de Lisboa, o povo juntou-se e entoou "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso.

Uma frase que me fica do dia de hoje, foi a acusação de Pedro Nuno Santos, repetida em vários canais televisivos é a seguinte "Hoje o povo sai à rua, enquanto o Governo fica à janela."

Fontes:

https://www.publico.pt/2025/04/24/politica/noticia/governo-esclarece-nao-cancelou-cerimonia-25-abril-deu-indicacoes-municipios-2130865

https://cm-sintra.pt/atualidade/cultura/aviso-comemoracoes-do-25-de-abril-canceladas

https://almadense.sapo.pt/cidade/25-de-abril-almada-cancela-fogo-de-artificio-devido-a-morte-do-papa/

https://www.publico.pt/2025/04/24/politica/noticia/autarca-ps-cancela-fogodeartificio-beja-devido-tres-dias-luto-nacional-2130918

https://www.dn.pt/sociedade/veja-os-v%C3%ADdeos-multid%C3%A3o-invadiu-largo-do-carmo-para-cantar-gr%C3%A2ndola-%C3%A0-meia-noite

21/04/2025

Faleceu Jorge Mario Bergoglio

Hoje o dia amanheceu mais triste, para quem é católico, mas também para muitos que (como eu) não o são. Morreu Francisco. Era Papa, mas antes de o ser já era um homem que se destacava pela sua simplicidade. Como Papa, foi amado por muitos mas também fruto de controvérsias. Amado pelas suas origens e sobretudo, pelas suas mensagens de amor e questionado pelas ideias mais vanguardistas que tentou implementar no seio da igreja.

Jorge Mario Bergoglio nasceu a 17 de dezembro de 1936, no bairro de Flores de Buenos Aires, na Argentina. Era neto de emigrantes, vindos do norte de Itália. O mais velho de cinco irmãos, teve uma educação católica. Em "1957, formou-se em Química," ao que se seguiu aos 21 anos, a sua entrada para o "seminário da Companhia de Jesus" onde se formou "na área da Filosofia."

"Uns anos mais tarde, deu aulas nos colégios da Companhia de Jesus em Santa Fé e em Buenos Aires," onde ensinou "Literatura e Psicologia." Nesta época, uma doença respiratória que lhe surgiu na juventude, piorou e "teve de ser submetido a uma cirurgia para retirar parte de um pulmão." Isso não o fez parar e, a "13 de dezembro de 1969, Jorge Mario Bergoglio foi ordenado sacerdote e, no ano seguinte, graduou-se em Teologia na Faculdade de Filosofia e Teologia de São Miguel, continuando a lecionar em paralelo."

Vivia-se uma ditadura militar na Argentina quando, durante a década de 1970,  Jorge Bergoglio "foi eleito responsável pela ordem jesuíta" no seu país. "Em 1986 foi para a Alemanha, onde finalizou a tese de doutoramento." Regressou à Argentina em 1992, tendo sido "designado bispo auxiliar de Buenos Aires." Recebe o "título de cardeal" a 21 de fevereiro de 2001. Nesta ocasião, terá convencido "centenas de argentinos a não viajarem para Roma. Em vez de irem ao Vaticano celebrar a nomeação, pediu que dessem o dinheiro da viagem aos pobres."

Em 2005, no conclave que levou à eleição "do alemão Joseph Ratzinger", acabou por ser "o segundo mais votado entre os cardeais."

"Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro papa do continente americano, o primeiro pontífice do hemisfério sul, o primeiro chefe da Igreja Católica não europeu desde há mais de 1200 anos e também o primeiro jesuíta a assumir as funções no Vaticano." Foi padre, professor universitário e arcebispo. "Foi também o primeiro papa com o nome Francisco, em referência a São Francisco de Assis, simbolizando humildade e compromisso com os pobres." Disse sempre que não queria ser Papa, mas acabou por ser "eleito pelo Conclave a 13 de março de 2013, apesar de quase nada indicar que seria o escolhido para suceder Bento XVI."

Ontem, o Papa Francisco despediu-se. Já muito debilitado, apareceu pela última vez na Praça e, podemos até dizer que de forma simbólica, teve o seu "último" banho de multidão, tivesse ele consciência disso ou não. No seu último dia de vida, a sua presença foi aplaudida por muitos crentes e transmitida por inúmeros meios de comunicação social. Antecipava-se a sua morte próxima.

Sustentava que a Igreja devia "ser mais aberta e acolhedora," defendendo uma igreja para "todos." Esteve sempre "próximo do povo." Durante o seu papado, deu enfoque à "justiça social" e tentando sempre manter uma "abertura ao diálogo interreligioso." Quis tornar a igreja mais inclusiva, chegando a promover "uma postura mais aberta sobre temas polémicos na Igreja mais conservadora, como o acolhimento a divorciados, de pessoas LGBTQ+ e pessoas em situação de marginalização. Foi também o primeiro a nomear uma mulher para um cargo no Vaticano.

Durante o seu papado, "deu ênfase ao combate de abusos sexuais por membros do clero católico, tornando obrigatórias as denúncias e responsabilizando quem as omite."

Foi sempre um homem dedicado à promoção da paz, tentando "aproximar e fortalecer o diálogo inter-religioso, encontrando-se com líderes islâmicos, judeus e cristãos ortodoxos." Mostrou sempre que condenava "a invasão da Ucrânia pela Rússia ou os ataques na Faixa de Gaza, nos combates entre Israel e o Hamas."

Durante o seu pontificado, "Francisco visitou Portugal em duas ocasiões." A primeira foi em maio de 2017 aquando das "celebrações do Centenário das Aparições de Fátima - tendo estado no Santuário de Fátima, onde canonizou os pastorinhos Jacinta e Francisco Marto." A segunda vez que cá esteve foi em 2023, na tão falada "Jornada Mundial da Juventude" que se em Lisboa. Nessa ocasião, "presidiu a celebrações no Parque Eduardo VII e no Parque Tejo, visitou bairros da capital portuguesa e reuniu com vítimas de abusos na Igreja." Chegou ainda a visitar novamente o santuário de Fátima.

"O estado de saúde de Francisco era frágil há vários anos, tendo-o levado a pelo menos três hospitalizações desde 2023." Este ano, a situação piorou bastante e, chegou a estar 38 dias internado "devido a uma pneumonia bilateral, tendo tido alta em 23 de março." Desde aí, tem estado a recuperar desta situação.

De acordo com informação já divulgada pelo médico "Andrea Arcangeli, responsável pela certidão de óbito," do sumo pontífice, a sua morte ter-se-á devido a um "Acidente Vascular Cerebral (AVC) que provocou uma insuficiência cardíaca irreversível."

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/morreu-o-papa-francisco-lider-da-simplicidade-que-a-igreja-catolica-foi-buscar-quase-ao-fim-do-mundo_es1533890

https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Francisco

https://www.publico.pt/2025/04/21/mundo/noticia/morreu-papa-francisco-lider-igreja-catolica-desde-2013-2123551


 


 

19/04/2025

Um pouco de história... o massacre de Lisboa

No dia 19 de abril de 1506, aconteceu um dos mais trágicos momentos da nossa história. Nesse dia, uma multidão em fúria perseguiu e matou milhares de judeus (segundo Garcia de Resende, terão sido mais de 4000), naquele que ficou conhecido como o Massacre de Lisboa de 1506. Esta matança aconteceu porque a população precisava de um culpado para a situação de seca e fome que, junto com a chegada da peste negra, assolavam o país. E a culpa foi direcionada para os milhares de judeus que nove anos antes tinham sido forçados a se converterem ao catolicismo, em Portugal. Este é mais um pedaço da nossa história que teima em ser "esquecida," e que não vem "nos livros de história," acabando por cair no esquecimento.

Reinava D. Manuel I e os judeus que se convertiam eram chamados Cristãos-Novos.

Naquele domingo, rezava-se no Convento de São Domingos de Lisboa. Os fiéis pediam o fim" da seca e da peste que grassavam em Portugal, e alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenómeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias — um milagre."

"Um cristão-novo," que também assistia àquela missa, "tentou explicar que esse milagre era apenas o reflexo de uma luz, mas foi calado pela multidão, que o espancou até à morte."

Portugal, vivia ainda um período obscuro, de ignorância coletiva e de medo perante qualquer fenómeno desconhecido e, este episódio, foi o reflexo dessa mesma ignorância. Nos três dias que se seguiram, as mortes sucederam-se, incitadas pelos "frades dominicanos que prometiam absolvição dos pecados dos últimos 100 dias para quem matasse os hereges." O resultado foi "uma turba de mais de quinhentas pessoas incluindo muitos marinheiros da Holanda, da Zelândia e de outras terras," que perseguiram e mataram todos os judeus que iam encontrando.

Sem escapatória possível, "homens, mulheres e crianças foram torturados, massacrados e queimados em fogueiras improvisadas no Rossio, mais precisamente junto ao largo de São Domingos. Os judeus foram acusados entre outros "males", de deicídio e de serem a causa da profunda seca e da peste que assolava o país."

A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens (de Lisboa) da qualidade (social) dos (marinheiros estrangeiros), os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e (as próprias) crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam.

(Damião de Góis, in «Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória»)


Em consequência do massacre, "D. Manuel I penalizou os envolvidos, confiscando-lhes os bens, e os dominicanos instigadores foram condenados à morte por enforcamento."

"No seguimento do massacre, do clima de crescente antissemitismo em Portugal e do estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício — que entrou em funcionamento em 1540, perdurando até 1821 — muitas famílias judaicas fugiram ou foram expulsas do país, tendo como destino principal os Países Baixos," mas também a "França, Turquia e Brasil." 

Este massacre traduz bem aquilo que é "a psicologia das massas e a demonstração primitiva da falta de tolerância." Em Lisboa, existe um monumento alusivo a esta data. Um singelo "tributo da cidade de Lisboa às vítimas da intolerância e do fanatismo religioso resultantes do massacre judaico de 1506."


Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Lisboa_de_1506

https://informacoeseservicos.lisboa.pt/contactos/diretorio-da-cidade/memorial-as-vitimas-do-massacre-judaico-de-1506



 

11/03/2025

50 anos de democracia - a Intentona de 11 de março

Durante a manhã de 11 de março de 1975, "Lisboa é palco de inesperadas movimentações militares: uma parelha de T6 sobrevoa Lisboa a baixa altitude em ação de intimidação." Mais tarde, pelas 11h50, "forças da Base Aérea n.º 3 atacam o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RAL 1), provocando um morto e 14 feridos." Ao princípio dessa tarde, "o general António de Spínola e os principais implicados no golpe fogem para Espanha." A Intentona de "11 de Março de 1975 apenas é compreensível se analisarmos de uma forma mais ampla os acontecimentos e processos que tiveram lugar desde o 25 de Abril de 1974 e, em particular, a partir do 28 de Setembro."

Ocorre que depois da revolução de abril de 1974, as forças políticas ligadas a Spínola e à direita democrática, queriam que "Portugal liderasse uma organização" em que estivessem incluídas as antigas colónias, e que nestas fossem garantidos os interesses do país. Ora esta posição é oposta à defendida pelos militares que tinham preparado o 25 de Abril, "principalmente os membros do Movimento das Forças Armadas (MFA)." Este Movimento apoiava por sua vez "os partidos totalitaristas marxistas africanos que estavam a consolidar controlo dos territórios recém-independentes, chegando os portugueses do MFA até a posicionar-se contra as organizações de nativos oposicionistas," apoiando a sua "supressão." 

Os "novos regimes africanos em consolidação," não poupam nem os portugueses que por lá se tinham mantido, nem os "autóctones, que são apoiantes do antigo regime ou pertencentes a facções opostas," o que leva a uma situação de precariedade, "com crescentes conflitos, perseguições políticas e exclusões dos processos transicionários na forma de violência, exílios, prisões e mesmo mortes." Spínola queria fazer valer a "independência dos territórios," garantindo a estabilidade dos portugueses, enquanto o MFA, cansado da guerra, queria fazer sair, quão rapidamente fosse possível, as tropas, não se mostrando "dispostos a prolongar a sua presença em África."

Em setembro de 1974, "na tentativa de contrariar uma viragem à esquerda liderada por diversas forças, Spínola" promove "a realização de uma manifestação de apoio à sua política." No entanto, essa manifestação acaba por ser inviabilizada por um grupo de civis apoiantes da esquerda e por "elementos do Movimento das Forças Armadas (MFA)." Em consequência desta derrota, o general Spínola demite-se e é substituído por Costa Gomes. 

Demitem-se também os "ministros da Defesa e da Comunicação Social, Firmino Miguel e Sanches Osório, respetivamente." A 1 de outubro de 1974 toma posse o III Governo Constitucional, que se torna "o segundo mais longo de todo o processo revolucionário português, abrindo uma fase de alguma estabilidade." É constituído ainda o "Conselho dos Vinte, organismo que reúne todos os oficiais com funções político-militares: membros da JSN, da Coordenadora do MFA, comandante-adjunto do COPCON e ex-membros da Coordenadora que, nesse momento, desempenhavam funções de ministro ou Alto-Comissário." Pretendia-se assim articular a "intervenção política dos militares e evitar as decisões de cúpula da JSN."

No entanto, a imagem internacional do país passa a ser uma preocupação. A de março de 1975, Spínola é informado de um possível ataque que visaria a direita. Perante esta suposição denunciada pelos "serviços secretos espanhóis" é preparado um "novo golpe."

Segundo informação que correu então, "1500 pessoas ligadas à direita," estariam sob a mira de forças de esquerda, ligadas ao PCP e à União Soviética. Esta operação (também conhecida como operação matança da Páscoa e que teria entre as personalidades a abater 500 oficiais e 1000 civis apoiantes de Spínola), levou a que no dia 11 de março, o Regimento de Artilharia de Lisboa fosse "atacado por aviões e helicópteros da Força Aérea e por unidades de paraquedistas. Um soldado é morto durante o ataque e, no dia seguinte, regista-se também a morte de um civil." 

Perante tal falha, "Spínola escapa de avião para Espanha e outros oficiais pedem asilo político noutras embaixadas localizadas em Lisboa." Uma das consequências é a radicalização "à esquerda" e a consequente nacionalização (nomeadamente, da banca). Mais tarde, "Vasco Lourenço, implicado nesta alegada ação," acabaria por declarar "que não havia lista nenhuma na operação matança da Páscoa, e que afinal tinham "sido serviços de informação americanos ou russos que puseram a circular essa ideia com o fim de «lançar a casca de banana aos spinolistas»." 

Fontes:

https://50anos25abril.pt/historia/11-de-marco/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_11_de_Mar%C3%A7o_de_1975

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-tentativa-de-golpe-de-11-marco-de-1975/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Matan%C3%A7a_da_P%C3%A1scoa

https://50anos25abril.pt/historia/11-de-marco/equilibrios-politicos-no-pos-28-de-setembro/




27/01/2025

Passaram-se 80 anos desde a libertação de Auschwitz

No dia 27 de janeiro de 1945, soldados das forças soviéticas chegaram ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polónia, onde encontraram aqueles que tinham ficado para trás. Começo por aconselhar a vossa pesquisa sobre esta data - existe muita informação, espalhada por aí. Reforço ainda que esta data não deve ser esquecida! Um dos primeiros locais que vos convido a visitar é o site "A Enciclopédia do Holocausto", onde encontram diversa informação sobre o tema.

"À medida em que as tropas aliadas penetravam na Europa, em uma série de ofensivas contra a Alemanha, os soldados começaram a encontrar e a libertar os prisioneiros dos campos de concentração, muitos dos quais haviam sobrevivido às marchas da morte para o interior da Alemanha. As forças soviéticas foram as primeiras a se aproximar de um campo nazista de grande porte, chegando ao campo de Majdanek próximo de Lublin na Polônia, em julho de 1944. Surpreendidos pelo rápido avanço soviético, os alemães tentaram demolir o campo numa tentativa de ocultar as evidências do extermínio em massa que haviam cometido."

Neste dia, começava a ser posta a descoberto "a escala das atrocidades cometidas pelo regime nazi naquele e noutros locais.

"6 milhões de judeus, minorias e dissidentes políticos foram assassinados durante a Segunda Guerra Mundial pelo regime nazi," e para que isto não se repita, há que lembrar o que se passou e não deixar disseminar as ideologias que, ainda hoje, passados 80 anos, dizem que foi tudo uma invenção.

Assinalando hoje o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e os 80 anos que passaram sobre a libertação de Auschwitz, António Guterres, chefe das Nações Unidas, ressalta durante o seu discurso "que a lembrança dos eventos do Holocausto é um bastião contra a difamação da humanidade e um apelo à ação coletiva para garantir o respeito pela dignidade e pelos princípios fundamentais."

Os campos de concentração nazi foram erguidos na Alemanha em março de 1933, logo depois de Adolf Hitler se ter tornado Chanceler e do seu Partido ter recebido "o controle da polícia pelo Ministro do Interior do Reich, Wilhelm Frick, e pelo Ministro do Interior prussiano, Hermann Göring." Estes campos eram usados "para prender e torturar" aqueles que eram considerados como "adversários políticos e sindicalistas." Inicialmente, cerca de "45 mil prisioneiros" deram entrada nestes campos. Estima-se que em janeiro de 1945, estivessem em campos de concentração cerca de "715 000" pessoas. Além dos campos de concentração, onde existiam "bases de recursos de trabalho forçado para empresas alemãs," foram também criados "os campos de extermínio." Estes campos foram estabelecidos com apenas um objetivo: matar! Nestes campos, foram assassinadas milhares de pessoas, de todas as idades, a uma escala praticamente "industrial" não só de judeus, mas também de eslavos, comunistas, homossexuais e outros que os nazistas consideravam "Untermensch" (povos inferiores) ou indignos de viver," através das "câmaras de gás." 

Este genocídio do povo judeu por toda a Europa foi a solução encontrada pelo "Terceiro Reich para a questão judaica", o que hoje designamos coletivamente por Holocausto. 

Mas aqueles que conseguiram sobreviver, nunca chegaram a ver a sua vida reposta nem foi feita justiça ao que ali sofreram, muito menos chegou alguma vez a ser feita justiça às mortes causadas às mãos dos nazis.

A "segregação da população judaica na Alemanha," começou com "as leis de Nuremberga," introduzidas a "15 de setembro de 1935 pelo Reichstag, numa reunião especial durante o comício anual em Nuremberga do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães." O objetivo era obrigar à "Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã." Em "26 de novembro de 1935", as leis foram corrigidas para incluírem, além da população judaica, "os ciganos e os negros." No ano seguinte, "depois dos Jogos Olímpicos de Verão de 1936," que se realizaram em Berlim, começaram as perseguições sob pretexto de pôr em prática estas leis.

"As Leis de Nuremberga tiveram um impacto económico e social incapacitante na comunidade judaica. As pessoas suspeitas de violar as leis do casamento eram detidas, e (a partir de 8 de março de 1938) após terem cumprido as suas condenações, eram novamente presas pela Gestapo e enviadas para campos de concentração nazis."

"Em 1938, já era difícil, se não impossível, os emigrantes judeus encontrarem um país que os aceitasse. Os esquemas para as deportações em massa, como o Plano Madagáscar, mostraram-se impossíveis de realizar, e a partir de meados de 1941, o governo alemão deu início à exterminação em massa dos judeus na Europa." Este plano consistiu numa tentativa de "transferir a população" judaica "da Europa para a ilha de Madagáscar," proposta pelo governo nazi, depois da França entregar a sua colónia à "Alemanha, como parte dos termos de rendição franceses," na 2ª Guerra Mundial. Este plano, acabou por não ir em frente e foi substituído, por uma "evacuação para o leste," mas que não era nada mais nada menos do que a expulsão e perseguição dos judeus em direção ao leste da Europa.

Fontes:


https://www.presidencia.pt/atualidade/toda-a-atualidade/2025/01/presidente-da-republica-assinala-o-80-o-aniversario-da-libertacao-do-campo-de-concentracao-e-exterminacao-de-auschwitz-e-o-dia-internacional-em-memoria-das-vitimas-do-holocausto/


https://expresso.pt/podcasts/o-mundo-a-seus-pes/2025-01-27-80-anos-de-libertacao-de-auschwitz-os-sobreviventes-estao-a-enfrentar-uma-vaga-de-antissemitismo-comparavel-a-dos-anos-30-e-40-082fa212


https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Nuremberg


https://pt.wikipedia.org/wiki/Campos_de_concentra%C3%A7%C3%A3o_nazistas


https://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_de_exterm%C3%ADnio


https://news.un.org/pt/story/2025/01/1844016


https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/liberation-of-nazi-camps


 

01/12/2024

Independência de Portugal - o feriado que passou despercebido a muitos

Feriados ao domingo temos o de hoje e o da próxima semana e, a verdade, é que acaba por passar despercebido a muita gente. A questão que se coloca é se todos sabemos porque é que hoje é feriado em Portugal?


A data de hoje assinala a Restauração da Independência, conseguida em 1640, quando Portugal voltou a ser independente após décadas sob domínio espanhol. Vamos passear um pouco pela História?











"Foi neste dia que um grupo de revoltosos," que ganharia o nome de "os Quarenta Conjurados," planeou e "lançou um golpe de Estado." Este grupo invadiu o Paço Real em Lisboa e assassinou "o representante de Espanha em Portugal, Miguel de Vasconcelos." A independência foi assim devolvida ao povo português. Sentava-se no trono o rei D. João IV, iniciando então a Dinastia de Bragança.


Terminavam 60 anos de ocupação que se tinha iniciado depois da crise de sucessão que se deu com a morte prematura do Rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir, para onde tinha partido com apenas 25 anos. A estratégia portuguesa passava por conquistar a região através de um cerco, mas a decisão acabou por ser alterada e o novo plano passou por atacar em campo aberto. Esta decisão ditaria o terrível desfecho, uma vez que o "xerife Abd el-Malek sabia que os portugueses estavam a rumar para as suas terras com o objetivo de uma investida." Mas, afinal, o que aconteceu para que os espanhóis fossem reis de Portugal?


Voltando atrás... no dia "4 de agosto" de 1578, os portugueses tinham sido "derrotados no Norte de África" e o rei D. Sebastião foi dado como "morto durante o combate," juntamente com "milhares de portugueses, incluindo a elite do poder," tendo os sobreviventes, na sua maioria sido feitos prisioneiros em Marrocos.


Com a presunção da morte de D. Sebastião, foi coroado "o cardeal D. Henrique mas," que era "irmão de D. João III e que havia sido na menoridade de D. Sebastião, regente do reino." 


De entre os pretendentes havia D. Filipe de Espanha, Dª Catarina e D. António. D. Filipe de Espanha era, de facto, neto de D. Manuel I e, por isso, um dos pretendentes ao trono português, concorrendo contra a prima, Dª Catarina. "Esta candidata, apesar de ter o apoio de alguns membros do clero e de alguns juristas, não reunia o apoio de muitos fidalgos, provavelmente por causa de rivalidades e conflitos tradicionais entre casas senhoriais." D. António, apesar de ser o mais fraco dos candidatos acabou por ser aclamado pelo povo!


No entanto, D. António acabaria por ser derrotado na Batalha de Alcântara pelas forças espanholas," e fugiria para os Açores, tendo acabado "exilado em França." 


Três dos cinco governadores que ficaram a chefiar "o país aceitaram o rei de Espanha como rei de Portugal em julho de 1580." Estes três homens, assinaram "o reconhecimento de Filipe II em Castro Marim, dando-se então início à dinastia Filipina. E o que era feito de D. Catarina e de D. António?


"D. Catarina acabou por abandonar a pretensão ao trono e D. António tentou uma negociação com o rei de Espanha: abdicaria da sua pretensão se fosse nomeado governador vitalício, proposta esta que foi recusada por Filipe II."


Uma das ações de Filipe II foi mesmo prometer que haveria a "possibilidade de resgate de uma grande parte dos que, embarcados com D. Sebastião, haviam ficado prisioneiros nos cárceres marroquinos." De facto, o rei chegou mesmo a avançar com o pagamento de quantias monetárias bastante elevadas "para libertar os reféns e assim garantir o apoio e a gratidão da nobreza portuguesa." Além disso, muitos destes nobres viam na União Ibérica, "uma forma de ascender e receber vários benefícios."


Entretanto, nascia o filho de "Filipe I de Portugal e de sua esposa, Ana de Áustria," mas parece que poucos prestaram "atenção" ao nascimento "de um infante espanhol. Nesta altura estava a decorrer a preparação da jornada para o Norte de África." Não era o primogénito e, por isso, o lugar não seria diretamente seu, mas a morte do seu "irmão Carlos, filho de Maria Manuela, infanta de Portugal," e posteriormente com as mortes dos "infantes Fernando, Carlos Lourenço e Diogo," acabou por ter o seu lugar garantido na sucessão ao trono.


Filipe III de Espanha, II de Portugal, que se tornaria rei "de ambas as coroas em 1598," teria uma saúde muito débil. Casar-se-ia com D. Margarida, que "cumpriu o seu dever como rainha e conseguiu gerar" oito descendentes, entre eles, a "infanta Ana Maurícia," que mais tarde se tornaria "rainha de França (mãe de Luís XIV). D. Filipe II, morreria em grande sofrimento e, poderá até, ter sido vítima de envenenamento, a 31 de março de 1621.


Tinha nascido entretanto em Valladolid, D. "Filipe III de Portugal e IV de Espanha", em 1605. "O nascimento de um príncipe do sexo masculino era sempre motivo de grande júbilo e satisfação, porque assegurava a continuação da linhagem e o destino da coroa." O infante seria "jurado como príncipe herdeiro de Castela pelas cortes a 13 de janeiro de 1608," com apenas três anos. "Em 1611, Espanha começou a negociar o matrimónio do herdeiro da coroa com uma infanta francesa. Contudo, nesta altura o príncipe tinha apenas sete anos e a infanta francesa Isabel de Borbom, nove." Casaram em 1615 e tiveram sete filhos, apenas um deles, do sexo masculino, que acabaria por morrer. D. Filipe III voltaria a casar-se para que fosse possível encontrar um sucessor varão, desta vez com a sua própria "sobrinha, Mariana de Áustria."


A verdade é que, a Dinastia Filipina, dirigiu "o Reino português com distância física" e não mantinha qualquer "ligação afetiva a Portugal." D. Filipe I, deixou mesmo "o governo da coroa portuguesa entregue ao seu sobrinho D. Alberto, filho de Maximiliano da Áustria e de Maria da Áustria, sua irmã."


Durante o reinado de Filipe II, a governação de Portugal foi também bastante "instável e fortemente marcada pela distância." O país sofria "diversas dificuldades," tais como a "escassez de cereais e péssimos anos para a agricultura," que tornaram a vida do povo deveras complicada. "Com o objetivo de melhorar a relação com Portugal e acalmar o descontentamento dos portugueses," D. Filipe II de Portugal, entregou o governo a "Cristóvão de Moura." 


Em 1608, "o cargo de vice-rei foi entregue a D. Pedro Castilho, bispo de Leiria e inquisidor mor do Reino. Ao longo do reinado de Filipe II de Portugal, foram vários os vice-reis, sendo o último vice-rei Diego de Silva." Filipe II de Portugal nunca se mostrou muito preocupado "em resolver as questões do reino de Portugal," chegando mesmo a acusar os "seus ministros" da situação em que o reino se encontrava.


"Com a subida ao trono de Filipe III", a ausência física tornou-se ainda mais evidente, tendo "a governação de Portugal" estado "sempre entregue ao respetivo vice-rei rei ou à junta de governadores." No ano de 1634, Filipe III de Portugal, "designou como vice-rainha de Portugal, a sua prima italiana Margarida de Sabóia, duquesa de Mântua." Entretanto começava o conflito da Catalunha, onde muitos dos nobres portugueses acabaram por ir combater.


Pouco tempo depois, em 1639, "foi proposto ao Duque de Bragança um cargo importante, o cargo de governador-geral das armas de Portugal." D. João, não terá aceite "esta oferta e, quando a conspiração contra a Dinastia Filipina começou a ganhar maior proporção," acabou por ser de certa forma, "obrigado" a ter uma atitude mais ativa e assumiu a liderança do "movimento que emergia."


O golpe de Estado que conduziu à morte de Miguel de Vasconcelos, foi planeado durante algum tempo, em "várias reuniões secretas no Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, perto do Largo do Rossio, em Lisboa. Foi aí que os 40 nobres que queria derrubar o espanhol Filipe III do trono conspiraram, mais precisamente num anexo, na altura conhecido como palácio de Antão Vaz de Almada," que era um dos Quarenta.


Mas não nos podemos esquecer de um outro factor que pode ter facilitado o desfecho positivo deste golpe. Na Catalunha, acontecia "ao mesmo tempo, a Guerra dos Segadores," o que pode ter servido "para desviar as atenções da coroa espanhola, que na altura travava outras guerras com outros territórios para além de Portugal."


A independência só foi reconhecida por Espanha 28 anos depois, em 1668, com a assinatura do Tratado de Lisboa.




 








25/11/2024

25 de novembro - o que leva a tanta discórdia sobre uma data e porque é que a devemos (ou não) comemorar?

O 25 de abril de 1974 trouxe grandes mudanças na governação do país, o que levou a uma clara distinção "entre aqueles que pretendiam prosseguir a revolução com o MFA, incluindo-se aqui o governo liderado por Vasco Gonçalves e os que entendiam que o caminho se deveria fazer com os partidos políticos sufragados em eleições."

As opiniões dividiam-se e o país acabou por assistir, nos meses seguintes, a vários "episódios de violência de grupos mais ou menos organizados da extrema-esquerda e da extrema-direita. Sentia-se no ar "a ameaça de uma guerra civil." O que se passou no dia 25 de novembro, foi um entre tantos momentos importantes, naquele período de dois anos que vai de 1974 a 1976. Foram dois anos complicados, em que se sucederam diferentes governos provisórios, em que uns se demitiram e outros se revoltaram. Não se fala disto nos livros de História e, só se o formos pesquisar, é que encontramos alguma informação sobre esta data e sobre os vários acontecimentos que se sucederam à Revolução de Abril. Parece que foi apenas uma data e que no dia seguinte, a democracia estava instalada. Nada disso.

Em julho de 1975, Vasco Gonçalves, faz a proposta de recentrar "a autoridade no Conselho da Revolução, e a liderança política num diretório que incluiria também Costa Gomes (na altura Presidente da República) e Otelo Saraiva de Carvalho." Vasco Gonçalves, ficaria conhecido como "companheiro Vasco" e já em finais de 1973, tinha integrado o movimento dos capitães e participado na comissão responsável pela elaboração do "programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), assegurando também a ligação ao general Costa Gomes," sendo por isso uma das várias personalidades importantes e que é tantas vezes esquecido.

Outros, seriam os integrantes de um grupo organizado e composto por "um conjunto de militares moderados e pertencentes ao Conselho da Revolução," designado de “Grupo dos Nove." Este grupo vem propor que "o poder seja exercido pelos partidos políticos.

Este grupo, "composto por militares conotados com a ala moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA)", lançaram a 7 de agosto de 1975, um documento que ficaria conhecido como o “Documento dos Nove”, em que se "opunham aos modelos socialistas da União Soviética e da Europa do Leste, assim como à social-democracia europeia."

Vieram ainda a propor um "sólido bloco social de apoio a um projeto nacional de transição para o socialismo", mas que fosse de forma inequívoca, "inseparável da democracia política”.

No entanto, acabam por ser mesmo afastados do "Conselho na sequência dessa tomada de posição," e  em resultado do confronto entre as diversas forças políticas durante o chamado " Verão Quente de 1975," Vasco Gonçalves acaba também por ser afastado do poder, "não voltando à ribalta política."

No dia 12 de novembro desse ano, "houve uma manifestação reivindicativa que contou com dezenas de milhares de trabalhadores e que cercou o Palácio de São Bento durante dois dias," impedindo que os deputados que estavam lá dentro pudessem sair "durante dois dias." O Ministério do Trabalho recusa-se a receber os manifestantes o que conduz a ações mais radicais e à mobilização contra o VI Governo Provisório. 

Na semana seguinte o governo - algo que eu nunca pensei que pudesse acontecer - "entra em greve por falta de condições para exercer o seu mandato." O país acaba por ficar num limbo em que não tem quem o governe.

É a 25 de novembro que toda esta tensão chega ao limite, "com setores da esquerda radical a tentarem um golpe de estado," com o Grupo dos Nove a ser responsável por "organizar e desencadear as operações do 25 de Novembro fazendo a tal correção para a via democrática, liberal." Este golpe acabou por sair frustrado pelos militares que se encontravam em conluio com o “Grupo dos nove”, apoiados por um "plano militar liderado por Ramalho Eanes."

Mas qual o motivo de tanta discórdia, se a verdade é que este golpe pôs fim aos extremos (da esquerda e da direita)?

Para Joaquim Vieira, autor da biografia de Mário Soares, “o 25 de Novembro assinalaria o fim do PREC e a entrada de em fase de normalização democrática, com a consagração do projeto constitucional e a realização dos atos eleitorais nele previstos." O resultado, acabou por ser a vitória da chamada "ala moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA)," que "marcaram o fim do chamado Processo Revolucionário Em Curso (PREC)."

Diz também o autor que, o próprio Mário Soares, se fosse vivo, teria recusado participar nestes festejos. O seu papel foi, no entanto, preponderante na vitória da democracia conseguida nessa data. Mário Soares era, na época, "ministro sem pasta do IV Governo Provisório," e como representante do PS, assinaria "o primeiro pacto constitucional MFA-Partidos," em abril de 1975. Depois da sua demissão, "juntamente com os restantes ministros do PS, a 10 de julho de 1975," e da "demissão dos ministros do PSD", a crise agravar-se-ia.

A 23 de novembro, o discurso que faz durante a "manifestação do PS na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa," acabou por ser um marco simbólico "na mobilização que visava conter os setores mais radicais do processo revolucionário português." Este ano, pela primeira vez, a data será celebrada na Assembleia da República - assinalando-se a passagem de 49 anos desde o acontecimento. Porquê só este ano - ou porquê este ano?

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/25-de-novembro-uma-tentativa-de-golpe-falhada/

https://ensina.rtp.pt/artigo/vasco-goncalves-o-companheiro-vasco/

https://zap.aeiou.pt/mario-soares-foi-o-grande-vencedor-do-25-de-novembro-hoje-recusaria-comemoracoes-642928

https://www.museu.presidencia.pt/pt/conhecer/presidentes-da-republica-biografias/presidentes-da-democracia/mario-soares/

https://observador.pt/2024/04/24/o-principal-aliado-civil-do-25-de-novembro-foi-o-ps-e-nele-mario-soares-declara-marcelo-rebelo-de-sousa/

15/11/2024

Faleceu Celeste Caeiro, a mulher que batizou a revolução

Faleceu aos 91 anos, Celeste Caeiro, a mulher que na manhã de 25 de abril de 1974, teve um gesto que ligou para sempre os cravos à revolução de abril. Um gesto simples que, ao ser fotografado e, depois repetido, ano após ano, celebrado e comemorado em eventos, escolas e homenagens, marcou esta revolução com cor, a cor da liberdade.

Celeste tinha 40 anos e vivia no Chiado, em Lisboa. Era filha de mãe espanhola, "de Badajoz e de pai desconhecido, com dois irmãos mais velhos," tendo crescido na Casa Pia. Naquele dia, o café onde Celeste trabalhava, na rua Braancamp, em Lisboa, "completava um ano e o patrão tinha comprado cravos para oferecer aos clientes," mas a presença dos militares nas ruas fez com que o comércio não abrisse e as flores iriam "estragar-se no armazém, por isso pediram aos funcionários que os levassem para casa."

Celeste foi até ao Chiado para ver o que se estava a passar, e numa troca de palavras com um dos militares que lhe pede um cigarro, ela que não fumava, resolveu dar-lhe um dos cravos que levava. Foi o primeiro. Dali, "até perto da Igreja dos Mártires deu o resto dos cravos que levava a outros militares," mas nunca pensou que a revolução se viesse a chamar "dos cravos" devido àquela singela oferta.


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Este ano, na comemoração dos 50 anos desta data, Celeste Caeiro esteve presente na Avenida da Liberdade, em Lisboa, naquele que poderá ter sido "um dos momentos mais marcantes da celebração. Ao lado da família distribuiu cravos, 50 anos depois do dia que a marcou na história do país. Os fotógrafos presentes registaram o momento: as fotografias foram amplamente partilhadas e Celeste Caeiro celebrada pela importância que teve."

"Em 1988, perdeu tudo no incêndio do Chiado, ficou sem casa, sem fotografias e sem as recordações de uma vida. Em abril deste ano tinha sido já noticiado que sofria de graves problemas de visão, audição e locomoção. Viva em casa da filha e da neta em Alcobaça."

Foi “militante comunista, mulher trabalhadora, de convicções fortes”, que “enfrentou uma vida de dificuldades com perseverança," pode ler-se num comunicado do PCP. Celeste já faz parte dos livros de HGP, só espero que na sua constante "simplificação" não se perca também o nome desta mulher e de tantos outros homens e mulheres importantes e sobre os quais as nossas crianças e jovens pouco ou nada sabem.

Fontes:

https://www.publico.pt/2024/11/15/sociedade/noticia/morreu-celeste-caeiro-mulher-deu-cravos-militares-25-abril-2112039

https://www.dn.pt/3592434070/morreu-celeste-caeiro-a-mulher-que-deu-o-cravo-ao-25-de-abril/


Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...