Não há palavras que possam suavizar a ação de alguém que tira a vida a uma criança inocente. A primeira intenção dele não era matar-se, certamente, era dar à sua mulher e mãe desta criança o maior sofrimento possível. Para ele, já não chegava bater-lhe ou ofendê-la. Era preciso mais! A vingança foi matar a filha de ambos, a forma de o fazer foi suicidar-se com a criança no colo. Ele tinha 33 anos, ela apenas 4. Ele vivia em Santarém, naquele mesmo prédio há seis anos.
Dizem que para alguém se suicidar é preciso coragem - concordo que sim, na maioria dos casos. Neste caso, aquilo que foi preciso foi ódio e raiva.
As discussões eram frequentes. Os vizinhos sabiam-no, mas segundo o relato de um dos vizinhos que testemunhou a queda dos dois e que tentou ainda socorrer a menina, das vezes em que terá chamado a polícia, ninguém veio. Aquela mulher e aquela criança continuaram a viver com o agressor até que a tragédia chegou. Aqui não importa a nacionalidade. Podiam haver diferenças linguísticas, mas neste caso o fator cultural não modificou o resultado. É mais um crime que acontece em contexto de violência doméstica em Portugal. A mulher acabou por ser agredida da forma mais violenta de todas, atingindo-a naquilo que de mais preciso tinha na sua vida, a sua menina de apenas quatro anos.
Se fez queixas? Se denunciou à polícia? Se estava disposta a sair de casa e a cortar o contato com este homem? Não o sabemos. Se alguém a ouviu e se a quis ajudar? Não sabemos também... Havia sinais de violência? Em tantos casos há sinais e depois a justiça não age, nada é feito, nada se resolve e a vítima continua a ser vítima. Aqui havia duas vítimas: a menina e a sua mãe. Mas foi a filha que ele matou, agindo assim contra a mãe. Como explicar isto? Não sei explicar algo tão bárbaro.
No local do crime, haveria também outra pessoa. Um tio da menina, irmão do pai. A principal razão, ao que se diz, foi a ameaça que a mãe da menina fez de ir à polícia fazer queixa e de ir também contar à família dele as agressões de que era vítima. O cobarde, em vez de fazer algo correto uma única vez e se afastar de ambas, matou a menina e "matou" esta mãe, pois esta perda é também de certa forma uma morte.
Uma vizinha diz ao "Observador" que a menina andava numa creche. Esta informação (talvez por falta de conhecimento da senhora) é falsa. Aos quatro anos (se realmente era essa a idade da vítima) uma criança não pode estar a frequentar a creche, mas sim um Jardim de Infância. Pormenores que não tiram deste crime nenhuma da sua gravidade! Aquela menina tinha colegas que se vão lembrar dela durante algum tempo, notar a sua falta no mapa de presenças e que, daqui a pouco tempo, se vão esquecer dela. Talvez de tempos a tempos, quando forem mais velhos e escutarem alguém conversar sobre ela se lembrem de como ela era, ou talvez seja apenas um nome.
É uma criança que morre, mais uma que entra para a trágica contagem deste ano. Ainda há uns dias, uma outra menina foi assassinada de forma crua por alguém que não sendo a sua família direta, a deveria em todo o caso, proteger e essa menina tinha apenas 8 anos.
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