Ontem assinalou-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Esta data foi escolhida por ser a data (conhecida) da morte do poeta Luís de Camões. Este feriado começou, aiás, por ser celebrado apenas como feriado municipal em Lisboa, "dedicado a Camões," mas com o Estado Novo acabou por ser elevado "a feriado nacional, como o «Dia de Camões, de Portugal e da Raça»." A Revolução de 25 de abril, trouxe-lhe uma nova designação: "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portugueses" - desaparecendo o termo "raça", usado pelo regime. Depois da vitória - no passado domingo - da equipa das quinas, contra a seleção espanhola, nada melhor do que homenagear os portugueses.
Nesta data, presta-se homenagem a Portugal, aos portugueses, à cultura lusófona e à presença portuguesa por todo o mundo. São habitualmente feitas cerimónias públicas em que o Presidente da República e outras entidades, discursam. Este ano as celebrações realizaram-se em Lagos. Estas celebrações são uma boa "oportunidade de assistir ao desfile das forças armadas, em terra e no mar, à exposição dos meios militares, às bandas e orquestra militares e civil e, ainda, à atuação da charanga a cavalo da GNR, a única no mundo que executa trechos musicais nos três andamentos, a passo, a trote e a galope."
Nas comemorações deste ano, o Presidente da República condecorou o antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, destacando também o trabalho das diferentes Forças Armadas Portuguesas. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o general "merece como ninguém o primeiro grande-colar da Ordem Militar da Avis, nunca atribuído".
O ainda Presidente da República, com a sua presença carismática, afirmou no seu discurso que "Isto é Portugal, os portugueses e as portuguesas, e nele os nossos combatentes, os nossos militares, esses militares que aqui estão, todos os anos pelo 10 de Junho, mas estão na nossa História desde que nascemos." Na sua originalidade, e não deixando de ser uma pessoa interventiva (às vezes mais do que o esperado e, quando não fala, acabamos por estranhar) e, neste discuros, lá foi dando achada daqui, bordoada dali, as suas palavras sobre a importância de sermos um país construído a partir de muitas culturas, de uma história rica em invasões e conquistas. Um país multicultural e, por isso, um país que é mais rico. Sobre as Forças Aramadas referiu que "Portugal foi um reino feito por esses soldados" e que hoje somos "uma pátria que vive em liberdade e democracia feitas por esses soldados".Mas muitos não interpretaram assim as palavras de Marcelo e criticaram a sua posição, não percebendo a alegoria das suas palavras.
Enquanto isso, numa "cerimónia de homenagem aos ex-combatentes em Lisboa," alguns ex-militares insurgiram-se contra Gouveia e Melo e "contra o imã de Lisboa, convidado para a cerimónia."
Lídia Jorge, conselheira de estado e uma figura iimportante no panorama sócio-político e literário do nosso país, aproveitou para relembrar "o passado esclavagista de Portugal e a atualidade da obra de Camões, que viveu num fim de ciclo, tal como aquele em que o país se encontra atualmente." A escritora, alertou para "a possibilidade de loucos atingirem o poder" e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos," dizendo ainda que "cada um de nós é uma soma do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco, do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou."
O que mais me chocou - e o motivo para esta minha publicação no blogue - foram muitas outras coisas que se passaram à margem deste feriado: os apupos, os comentários, as agressões. O racismo, esteve todo o dia em discussão - muito, por causa de comentários e reinvindicações mais extremistas que se foram fazendo ouvir - e porque nesta data se assinala também um outro acontecimento, a morte de Alcino Monteiro, agredido com muita violência há 30 anos. Numa manifestação contra o racismo e, também, em "memória de Alcindo Monteiro, centenas de pessoas juntaram-se no centro de Lisboa, num percurso que foi desde o "local onde foi encontrado o corpo de Alcindo Monteiro, na Rua Garrett," e que terminou junto ao Largo do Carmo.
Um grupo de indivíduos - que durante a tarde tinha estado numa manifestação e já teria provocado outros desacatos - enxovalharam e agrediram alguns atores da companhia de Teatro, "A Barraca", quando estes se dirigiam para o teatro. Neste grupo, podem ter estado alguns dos intervenientes na morte de Alcino Monteiro.
O ator Adérito Lopes teve de ser levado ao hospital devido à gravidade dos ferimentos. A atriz Maria do Céu Guerra, explicou muito bem o que se passou e mostrou de forma muito precisa, que é preciso pôr fim a estes atos de violência. "Segundo o relato da encenadora, que exibiu para as televisões autocolantes da loja Pró-Pátria," este terá sido um ataque contra a liberdade de expressão e, um ato cobarde.
Fontes:
https://eurocid.mne.gov.pt/eventos/dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas
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