Bianca tinha apenas 16 anos.
Por motivos que não me são conhecidos, vivia com uma amiga mais velha e namorava um rapaz de 20 anos. Namorava desde os 14 e já este facto é algo a ter em conta. Na véspera tinha tentado acabar com este namoro. Na quarta-feira à noite, este ex-namorado tocou à campainha de uma vizinha, que facilmente lhe deu acesso ao interior do prédio. Entrou e subiu ao primeiro andar.
Surpreendida, Bianca, não teve qualquer hipótese. Foi arrastada pelas escadas, a cabeça foi atirada com violência contra o corrimão. Foi esfaqueada cerca de vinte vezes. Os vizinhos que ouvindo os gritos tentaram acudir, afirmam que ainda a viram com vida, mas Bianca acabou por se esvair em sangue. E porque é que eu não me coíbo de fazer esta descrição detalhada? Porque é preciso que se entenda o nível de violência, que se saiba que ela era apenas uma jovem de 16 anos. Esta era uma menor de idade, que já vivia em perigo. O assassino está no hospital em estado grave depois de ter sido atropelado por um camião. Talvez por acidente, talvez tentando tirar a própria vida. Não vou sequer escrever aqui qual acho que devia ser o seu destino.
E temos de falar sobre estes assuntos, de relatar, de sermos firmes! Ainda há uns dias publiquei sobre violência doméstica e hoje já estou a escrever sobre esta morte!
Porque a violência não acontece apenas uma vez e com esta brutalidade - acredito que tenham havido outras agressões anteriores, fossem elas verbais ou físicas. Que razões terão tido estes pais para a deixarem sair de casa com um homem mais velho com apenas 14 anos? Houve fuga? Houve queixas na polícia? O que foi feito pelos pais e por quem mais sabia?
E porque esta história me fez lembrar outra, há uns anos. Uma imagem que nunca mais me vou esquecer. A certeza de que não valia a pena tocar em nada, pois nada do que eu fizesse poderia salvar aquela vida. Ela já se tinha esvaído em sangue. Tinha tanto cortes, tantas facadas, que não fui capaz de os contar. À porta, uma criança ao colo de uma vizinha, apenas nos ia dizendo "A mãe tá xuja"... Aquele menino tinha visto o corpo da mãe, tinha-lhe tocado, tentado acordá-la... "A mãe acodou?" perguntava ele.
Não, aquela mãe nunca acordou. E quem a matou foi o pai. A casa arrumada, os brinquedos com que a criança tinha estado a brincar antes de dormir estavam numa caixa ao canto da sala, numa sala cujas paredes estavam pintadas de sangue. O assassino tirou a própria vida.
Em 2012, Sara, com apenas 16 anos, também foi esfaqueada pelo namorado. Ele tinha 23 anos e ela tentou falar com a mãe, contar-lhe sobre este namoro que estava farta de viver às escondidas. Foi agredida e atingida por vinte e três facadas, que a deixaram em risco de vida. Sara sobreviveu para contar a sua história e fá-lo de forma corajosa. A violência no namoro é apenas uma das vertentes da violência doméstica. Estes agressores conduzem a sua vítima através da manipulação, de palavras que rapidamente passam de doces a amargas, do pseudo-amor que se transforma em ameaças.
Considera-se Violência no Namoro, quando existe um padrão de comportamento que se repete ao longo do tempo, onde um dos elementos exerce o poder, através da violência (física, psicológica, económica e/ou sexual), com o intuito de controlar, dominar e submeter o outro/a." Pode manifestar-se em agressões verbais ou físicas, em violência sexual, em stalking ou em violência emocional ou psicológica. Tal como na violência doméstica entre dois adultos, as vítimas muitas vezes têm vergonha ou acham que fizeram algo de errado que despoletou esse comportamento, o que é em ambos os casos, completamente errado.
As vítimas de violência doméstica, incluindo as vítimas de violência no namoro, acabam por ceder ao medo, mantendo-se nestas relações durante meses e até anos. Mas o que mais me assusta é que perante isto, continuem a haver jovens, miúdos e miúdas entre os 14 e os 18 anos, que já nasceram no século XXI e que ainda consideram "normal" haver ameaças e agressões durante um namoro, alguns dizem aceitar que os namorados ou namoradas controlem aquilo que vestem ou que tenham acesso às suas redes sociais e aos seus telemóveis. Muito facilmente, estes agressores perdem "o controlo quando está perante uma crise de ciúmes e promove a ideia de que ciúmes é sinal de amor." É capaz de ter gestos de humilhação e de desvalorização da vítima, perante outros, ou quando se encontram sozinhos.
Fontes:
Programa "Linha Aberta", SIC, episódio 20, temporada 12, 05/06/2026;
https://www.amcv.org.pt/jovens/violencia-no-namoro
https://www.casa-qui.pt/index.php/perguntas/32-como-saber-se-sou-vitima-de-violencia-no-namoro
https://apav.pt/wp-content/uploads/2024/02/FolhaInformativa_VNamoro_2020.pdf