Todos os anos, o drama se repete. As queixas são comuns, os piores cenários são-nos transmitidos pelas imagens das reportagens que nos mostram a realidade nacional. Passa-se o inverno e a primavera a falar sobre o que se deve fazer (limpezas preventivas, limitação de combustíveis...) mas quando chega o verão e as temperaturas sobem, tudo se repete. O que se passa?
A verdade é que isto não acontece apenas no nosso país e deveria ser visto como um problema mais alargado e menos como algo localizado. Os incêndios afetam-nos a todos direta ou indiretamente e, as causas, essas, acabam por ser difíceis de explicar pois na sua génese podem envolver diferentes fenómenos de origem humana ou natural.
Neste momento, estamos com um incêndio de grandes dimensões na região de Vouzela, o qual deflagrou na passada quinta-feira e que conta com mais de mil operacionais no terreno, "apoiados de 384 veículos e seis aeronaves, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC)." Ontem, foi ativado o "Plano Municipal de Emergência e Proteção Civil" e tiveram de ser efetuadas evacuações preventivas em "duas aldeias na Serra do Caramulo: Matadegas e Mançores, na União de Freguesias de São João do Monte e Mosteirinho." Fala-se em cerca de mais de 12 mil hectares ardidos, até agora, tendo o incêndio entretanto reativado na região de Tondela. O balanço final ainda não pode, por isso, ser feito, embora já se saiba que os prejuízos são avultados, no que respeita a danos no património natural, na atividade agrícola e agropecuária, bem como em algumas empresas e habitações.
Deste incêndio terão ainda resultado "dois feridos graves, um homem de 55 anos que sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau quando tentava combater o fogo e outro, de 34 anos, que sofreu um traumatismo craniano grave ao cair de uma carrinha particular que transportava água para o combate às chamas." Além destes, terão ainda sido registados ferimentos em "dois bombeiros."
Entretanto, terá já sido acionada e já se encontra em trabalho uma "equipa da Unidade Militar de Emergências de Espanha, composta por 120 operacionais e 30 veículos." Esta equipa está a "apoiar o combate ao incêndio de Vouzela, no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, ativado preventivamente na sexta-feira pelo Governo." Este mecanismo europeu é na prática uma rede a (rescEU) que funciona "como uma reserva estratégica de meios para dar resposta a situações de emergência que são coordenadas pelo instrumento europeu quando um país faz um pedido de ajuda."
Esta ativação deve-se ao calor elevado que se faz sentir em todo o território nacional e que, aliado a fatores de seca e de vento, propiciam uma situação de risco muito elevado. É muito importante referir o acionamento deste protocolo de forma tão imediata, uma vez que em anos anteriores, terá demorado muito mais a pô-lo em marcha, algo que eu nunca entendi.
Existe ainda outro incêndio que no dia de ontem causava preocupação, mas que acabou por ser controlado durante a noite. Este, na região de Setúbal terá tido início numa ignição num automóvel que se incendiou e cujas chamas se espalharam ao mato envolvente. Neste caso, registaram-se "10 feridos ligeiros (oito bombeiros e dois civis) e levou, por precaução, à retirada de 25 pessoas, não havendo registo de feridos graves. Pelas 14h deste sábado, 148 operacionais e 46 veículos estavam em São Sebastião no combate às chamas."
Mas qual a causa destes incêndios que todos os anos nos afetam?
O aquecimento global, visto como o grande papão, os eucaliptos vistos como os invasores terroristas ou o abandono das zonas rurais? Existem muitos estudos, várias conclusões, mas o problema mantém-se. "As condições meteorológicas extremas, mais frequentes e intensas devido às alterações climáticas, não bastam para explicar a dimensão dos desastres que se têm verificado nos últimos anos." A má gestão das espécies arbóreas e a falta de limpeza dos terrenos acaba por tornar estas ondas de calor cada vez mais perigosas. A temperatura elevada só provoca incêndios de grandes dimensões em zonas que não estejam devidamente cuidadas, ou seja, temos sempre de aliar as condições atmosféricas propícias ao próprio risco existente, sendo que aqui entraríamos também pela questão das causas.
Uma deflagração precisa de uma ignição e as árvores não pegam fogo sozinhas. Sabemos de antemão - através de muitos estudos que vão sendo realizados ao longo dos anos - que muitos dos incêndios são de origem criminosa e de mau uso do fogo. Então, porque é que a prevenção não funciona? Porque na verdade, a prevenção falha na sua execução, porque as pessoas pensam que "não vai acontecer nada" e continuam a ter comportamentos de risco, ou porque as autarquias não têm capacidade de gerir a sua própria área florestal. Existe ainda uma cultura de "posso fazer o que quero porque o terreno é meu," "limpo se quiser" ou até de abandono das próprias terras.
A saída das pessoas das zonas rurais com destino a grandes cidades (e que teve o seu auge entre meados do século XIX a meados do século XX) levou ao abandono de muitas terras que antes eram cultivadas e onde pastavam grandes rebanhos e manadas. Quando o terreno é cuidado e cultivado tem menos tendência para arder. Por outro lado, as pessoas sabiam fazer uso do fogo como um aliado, o que agora muitas vezes não acontece. As queimas controladas passaram a ser proibidas uma vez que eram causadoras de grandes incêndios, e porquê? Ora se antes se faziam queimas e queimadas, o que mudou? Mudou a sabedoria de uma prática usada desde tempos ancestrais. mas mudaram também as espécies cultivadas e as arbóreas que agora são plantadas. A floresta autóctone começou a desaparecer, dando lugar a extensões sem fim de monoculturas. E uma monocultura arde mais depressa do que um terreno que esteja dividido em parcelas de plantação diversificada-
O fenómeno do abandono dos terrenos. acontece muito frequentemente quando não há tempo nem disponibilidade financeira para cuidar de terras herdadas, ou porque se vive noutro ponto do país ou se emigrou para o estrangeiro. Mas devia existir uma responsabilidade social, uma responsabilização que obrigasse a cuidar. O problema é que não existe ainda uma franca gestão das propriedades, mesmo daqueles que são baldios ou que pertencem às câmaras municipais.
A verdade é que ano após ano se choram vítimas de incêndios, se lamentam milhares de hectares ardidos e de casas, armazéns, fábricas e diversos outros bens perdidos. E parece que por muitos estudos que se façam, não se aprende nada.
Fontes:
https://www.publico.pt/2026/07/04/sociedade/noticia/incendios-calor-nao-abranda-ha-1700-operacionais-combater-chamas-2180526
https://www.publico.pt/2026/07/03/politica/noticia/governo-activa-mecanismo-europeu-proteccao-civil-prevencao-incendios-2180453