24/07/2026

Descuido ou falta de zelo, o que mais mata em Portugal

Quando um bebé morre por negligência é porque algo falhou muito lá atrás. Quando um bebé morre aos cuidados de uma instituição, falharam diversas coisas, mesmo quando se trata de um acidente.

Fala-se muito de Segurança Infantil e podia até vir aqui criticar de forma fácil, ações e lacunas que são só por si de lamentar. No entanto, espero que os casos que se vão tornando mediáticos sirvam para que todos consigamos rever as nossas ações e os cuidados a ter, diariamente, com as nossas crianças. Não seremos capazes de evitar todos os acidentes, mas há de facto uma responsabilidade que deve ser partilhada. E sim, às vezes temos de nos meter na vida dos outros, às vezes temos de questionar, de perguntar se está tudo bem ou se precisam de ajuda. 

Uma bebé morreu ontem, dentro de uma viatura que a deveria levar à creche. Não foi a primeira vez que uma situação de esquecimento de uma criança numa viatura. Várias já levaram a desfechos idênticos. Quando fazia emergência, tive uma ocorrência para um caso parecido, aqui na zona da Torre da Marinha, Seixal. Lembro-me da ansiedade até chegar ao local e da sensação de raiva que me atingiu. Era um bebé que tinha sido deixado dentro de um carro, desconhecia-se idade ou estado de consciência. Quando lá chegamos, o vidro foi forçado e a porta aberta, a menina, uma bebé estava cheia de sede, tremia, chorava, os olhos a procurar um rosto conhecido no meio de tantas caras estranhas. Estava viva e nós felizes por termos chegado a tempo e, ao mesmo tempo, zangados. Como é que esperaram e ninguém partiu o vidro? Como é que se discutia, enquanto uma criança gritava dentro de um carro, que não se sabia há quantas horas ali estava, se quem partisse o vidro teria de pagar o arranjo? Esta menina, felizmente, não sendo um dia de verão, sobreviveu. E talvez o facto de ser muito novinha a tenha feito esquecer que um dia alguém se esqueceu dela fechada dentro de um carro.

Mas ontem, durante todo o dia, ninguém deu pela falta de uma menina de 18 meses. Eu podia até enumerar diversas ações que poderiam ter sido efetuados (apenas como forma de nos lembrarmos que podemos aprender com os erros dos outros, sejam eles cometidos aqui ao lado, ou numa escola dos EUA) e que mais não seja, por isso, é tão importante se falar e se debater quando a questão envolve a vida de crianças. Porque é que não se passou um registo em que se marcasse a sua falta e se perguntasse à motorista da carrinha "Então, hoje a S. não veio?" ou porque é que quando se deu a contagem para o almoço não se conferiu se quem estava à mesa correspondia aos registos efetuados. Como são feitos os registos de entrada das crianças - manualmente ou digitalmente, em alguma aplicação? Existe uma dupla verificação - e se sim, foi feita, por quem, o que registou? Porque um erro acontece, mas ninguém ter-se dado conta do erro, para mim é o mais estranho.

Não. Não me posso colocar no lugar daquela funcionária, nem de todas as outras quando se aperceberam que teria bastado uma mensagem para os pais ou uma chamada para perguntar se a menina estava bem, se estava doente, se tinha ficado de férias. E talvez até o tivessem feito, ou talvez até tivessem outros procedimentos, não sei, mas algo ali falhou. E todos nós temos de pensar que se uma criança seria demais, a repetição de casos tem de nos fazer parar e refletir: onde é que falhamos - como sociedade, temos de cuidar das nossas crianças, dos nossos seres mais indefesos e dependentes.

Quando a mãe chegou para a ir buscar à creche, deu-se o alarme, e quando foram ao carro e a encontraram lá dentro, "ainda partiram o vidro", para acederem à bebé. Os meios de socorro tentaram salvar aquela vida, mas a chamada de socorro tinha chegado tarde de mais... Ontem nem sequer foi dos dias mais quentes, mas o meu carro esteve ao sol e por volta das 17h marcava 38º, sendo que o que marca nem sempre é a temperatura do ar interior. Agora resta-nos especular enquanto a Polícia Judiciária investiga. 

Fala-se em sobrecarga, em rotinas, mas é sobretudo na falta de zelo que os acidentes deste género acontecem. E não digo como sendo propositado. É quando as rotinas mudam, quando a pessoa que fazia o trabalho vai de férias e alguém a substitui, quando uma viatura da instituição avaria e se substitui por outra. Ainda há muito a esclarecer e estou certa que em breve as respostas a muitas perguntas serão dadas, Mas nada trará a menina de volta nem tirará a dor daquela família. Há questões levantadas em relação ao facto da viatura ser da funcionária e não pertencer à creche, embora tivesse um dístico. Não é referido nas notícias se haveria todas as outras coisas obrigatórias. Isso será importante para se apurar outros aspetos relevantes, mas não trará de volta aquela bebé para a sua família. A lei, não obriga a que os transportes em ligeiros se façam acompanhar de uma auxiliar, mas q se refere porque é que num transporte escolar não estava uma auxiliar, mas aqui poderia ter feito a diferença.

Os acidentes domésticos e aqueles que acontecem tendo como culpados os elementos da própria família ocorrem muitas vezes por situações idênticas. Porque é "já ali" e a criança não se senta na cadeirinha, porque "vou só tomar banho" e a criança se empoleira na janela e cai, porque "vou só acabar de ler mais umas páginas" e o bebé sufoca com algo que encontrou no chão de casa, quando brincava, sossegado.

Como se os nossos corações já não nos doessem suficientemente, ontem, algumas horas mais tarde chegava a notícia de outra morte. Uma criança de apenas três anos de idade, tinha caído "de uma janela situada no segundo andar de um edifício, para as traseiras do mesmo”. A criança ainda foi socorrida e transportada para o Hospital de S. João, mas acabaria por falecer devido à gravidade dos ferimentos. Ao que é apontado nas notícias, haveria gente em casa, mas neste caso a cobertura mediática tem sido bem menor. 

No outro dia, durante a reunião de condomínio do meu prédio, um vizinho olhou-me de lado quando referi que alguém tinha feito bem em ativar a polícia quando o filho dele de dois anos e pouco se debruçou na janela do quarto andar para atirar coisas cá para baixo. Para ele, tinha sido exagerado, pois ele estava em casa, mas "noutra divisão" e a criança deveria estar "a dormir". De referir que estávamos a meio da manhã... e que vários vizinhos tocaram à campainha e bateram com força na porta de casa, além de gritarem cá de baixo a chamar por ele. O meu comentário foi rude, sim, mas se tivesse caído cá em baixo, teríamos um bebé morto e várias pessoas traumatizadas. Não aconteceu nada, não sei sequer se os agentes que ali foram chegaram a criar alguma ocorrência e se aquele criança estará segura com as devidas trancas (bloqueadores de abertura) já colocadas na janela. Falei disso, mas não sei se o senhor me deu atenção. 

Dou formação na área da educação de infância e falo muitas vezes nas questões da segurança. De olharmos o mundo à nossa volta da perspetiva da criança. O que vemos, pode parecer inofensivo para nós mas pode ser mortal para um bebé. Uma janela que abre facilmente, um móvel que é leve e que não está preso na parede, uma embalagem de veneno ou de detergente que fica guardada por baixo do lava-louças e que se abre facilmente. Vamos olhar em volta e ver se a nossa casa é segura? 

E já agora, vamos criar o hábito de colocarmos a nossa mala pessoal com as chaves, a carteira e o telemóvel no banco de trás do carro, pelo menos se transportarmos crianças sejam nossas ou não?

E convido-vos a ler esta notícia da RTP acerca de um estudo feito numa Universidade dos EUA, sobre o aumento da temperatura dentro de uma viatura e de como isso nos pode afetar. Segundo esse estudo, "em média, o corpo de uma criança atinge a temperatura letal corporal aos 40 graus Celsius." O que também é referido é que "o material de que é feito o revestimento dos veículos, na grande maioria plásticos e fibras, liberta gases tóxicos quando aquecido." Ou seja, não mata só pela subida da temperatura, mas pela libertação de gases tóxicos. Segunda a mesma publicação, " o interior de um carro novo, na sombra e com as janelas fechadas, pode libertar até 800 mg de benzeno, podendo mesmo chegar a 4.000 mg num dia de sol forte."

De acordo com análises feitas durante esse estudo, quando o carro estava apenas "1,4 horas ao sol e cerca de 2,4 horas à sombra e variando sempre de acordo com o tamanho da viatura, uma criança deixada dentro de uma viatura ligeira pequena pode morrer de sobreaquecimento em apenas uma hora." Por isso, num dia de calor no meio de Almada, talvez nem tenham sido necessárias as sete horas de esquecimento para que a situação se tivesse tornado irreversível... Não tenho palavras de conforto para os pais nem para a família, mas aos colegas que socorreram, a única coisa que posso dizer é que a culpa nunca será vossa, mesmo que a sensação de impotência vos esteja a apertar o peito. Deixem que as lágrimas e revolta saia, mas não se condenem.


Fontes:

https://observador.pt/2026/07/24/crianca-de-tres-anos-morre-apos-cair-de-um-predio-na-maia-pais-estavam-em-casa-mas-desconhece-se-circunstancias-do-acidente/

https://rr.pt/noticia/pais/2026/07/24/psp-investiga-morte-de-crianca-que-caiu-de-uma-janela/479445/

https://cnnportugal.iol.pt/pragal/almada/sete-horas-esquecida-numa-viatura-da-creche-o-que-ja-se-sabe-da-morte-de-uma-crianca-de-18-meses-em-almada/20260723/6a625fcbd34ef04b4f3f88e2

https://www.rtp.pt/noticias/pais/efeito-de-estufa-no-interior-dos-carros-pode-ser-mortal_n1078940

22/07/2026

Faleceu Luís Represas

Luís Represas tinha 69 anos e celebraria em breve 50 anos de uma vasta carreira musical. Nascido em Lisboa, no dia "24 de novembro de 1956," estudou no Liceu Pedro Nunes e foi ali que se tornou "porta-voz da LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária), movimento de oposição ao Estado Novo que, tendo nascido para a ação armada contra o regime, rejeitou o recurso a atos terroristas." 

Estudava Medicina mas seria a música a sua grande arma, já no pós-25 de abril, como "fundador e vocalista dos Trovante." A banda que fundou em conjunto "com o irmão, João Nuno Represas, João Gil, Manuel Faria e Artur Costa no verão de 1976," desde sempre esteve ligada "à luta de esquerda," tendo atuado diversas vezes na Festa do Avante.  Foi com este grupo musical que o artista conseguiu lançar a sua carreira e conseguir "notoriedade na indústria musical do pós-25 de abril." Com o passar do tempo, as canções começaram a tornar-se cada vez "menos comprometidas e a conotação partidária ia-se afastando do Partido Comunista." Depois do encerramento da banda em 1992, continuou a cantar a solo, tendo lançado o seu "primeiro álbum, Represas, em 1993, influenciado por uma viagem a Havana."

Um dos muitos temas que o definem como cantor foi "Feiticeira, em colaboração com o cubano Pablo Milanés," mas o cantor teve ainda diversas "colaborações musicais," com nomes "como Bernardo Sasseti, Simone de Oliveira, Jorge Palma, Compay Segundo, ou Gilberto Gil." Músicas como "Saudade", "Balada das sete saias" e "Fizeram os dias assim" ficariam famosas na sua voz, mas houve um tema que marcou uma outra nação: "Timor" foi uma das mais conhecidas canções de Luís Represas, uma canção que se transformou num hino pela autodeterminação de um povo. "Em 2005, Luís Represas foi distinguido pelo Estado português com a Ordem de Mérito do grau de Comendador por Jorge Sampaio."

A minha canção preferida é esta: "Perdidamente", que tem por base um poema de Florbela Espanca e fez parte do disco de 1987 "Terra Firme."

O artista sofria de um cancro pulmonar e acabou por falecer esta manhã, possivelmente de "complicações relacionadas com a doença."

Fontes:

https://observador.pt/2026/07/22/morreu-luis-represas-o-musico-e-vocalista-dos-trovante-tinha-69-anos/

https://observador.pt/especiais/luis-represas-1956-2026-cantor-portugues-de-qualquer-chao-e-tempo/

https://www.youtube.com/watch?v=tjHt2N2PPfk



17/07/2026

Sismo no México assusta população

Apenas algumas semanas depois do sismo na região da Venezuela, que fez cerca de cinco mil vítimas mortais, entre as quais 120 portugueses e lusodescendentes, a terra voltou a tremer, desta vez, afetando a região do México. 

O abalo que ocorreu a uma profundidade de  a uma profundidade de "15,2 quilómetros, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) citado pela agência Reuters", teve uma magnitude de 7.3 na escala de Richter e afetou a zona de Puerto Madero, na "costa do estado mexicano de Chiapas." Foi também sentido na Guatemala, onde "fez tremer edifícios e levou alguns moradores a abandonar as habitações por precaução" e também em El Salvador".

O "Sistema de Alerta de Tsunamis dos Estados Unidos" emitiu um "alerta de tsunami", que entretanto acabou por ser retirado. Segundo a "presidente do México, Cláudia Sheinbuam," não terão sido registados "danos em Chiapas e Tabasco." De acordo com "o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo," também nesse país não se terão registado "quaisquer vítimas."

Foram entretanto registadas réplicas com oscilações "entre os 4,5 e os 6,1 na escala de Richter", que também assustaram a população.


Fontes:

https://sicnoticias.pt/mundo/2026-07-17-sismo-de-magnitude-74-atinge-sul-do-mexico-e-leva-a-alerta-de-tsunami-5770fa2f

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/sem-registo-de-danos-sismo-de-magnitude-73-atingiu-costa-do-mexico-e-perto-da-guatemala_n1754148

https://observador.pt/2026/07/17/sismo-de-magnitude-74-atinge-sul-do-mexico-eua-avisam-para-possibilidade-de-tsunami/


13/07/2026

Incêndio em Banguecoque faz 28 mortos

Um incêndio provocou o pânico num bar de Banguecoque, e provocou "pelo menos 28 mortos" e 68 feridos, 25 dos quais em estado crítico. Devido a um "apagão," as pessoas procuravam desesperadas sair para o exterior, mas muitas acabaram por ser encontradas mortas dentro das casas de banho. Alguns relatos, fazem as autoridades investigar o porquê de "alguns clientes " terem "sido impedidos de abandonar o estabelecimento até pagarem as suas contas." Segundo "o primeiro-ministro Anutin Charnvirakul," à agência Reuters, "não havia nenhuma sinalização clara de saída de emergência," e disse ainda "aos jornalistas que o espaço contava com duas saídas de emergência, mas ambas estavam obstruídas."

O que poderia aqui ter corrido melhor? A ser verdade, a falta de sinalética para indicar as saídas e haver relatos de que estas não estariam desimpedidas, pode concorrido para o número elevado de mortos. O que assistimos muitas vezes neste tipo de espaços (e não falo especificamente da Tailândia), são portas bloqueadas por correntes que impedem a sua abertura. 

Um outro incêndio, ocorrido na passagem de ano de 2009, "destruiu a discoteca Santika, também em Banguecoque," e causou "67 mortes e mais de 200 feridos," possivelmente devido ao uso de fogo de artifício no interior do espaço. Um caso semelhante aconteceu em 2022, quando "14 pessoas morreram num incêndio num bar na parte oriental da cidade."

Fontes:

11/07/2026

Uma embarcação turística com 36 pessoas a bordo afundou-se a cerca de 500 metros "da ilha de Phu Quoc," levando à morte de 15 dos seus ocupantes. Uma das possíveis causas para o barco se ter virado, pode ter sido o forte vento e ondulação uma vez que há relatos de que o mar estaria "agitado, com fortes ventos a passar por aquela região."

As vítimas eram turistas indianos que faziam a viagem através da empresa onde trabalhavam.

No ano passado, pela mesma altura, um barco que transportava 53 ocupantes naufragou, resultando na morte de 34 pessoas e 8 desaparecidos. Neste caso, a culpa parece ter sido de uma tempestade que "atingiu de forma repentina não só a província de Quang Ninh, mas também várias localidades do norte do país, incluindo Hanói, Thai Nguyen, Bac Ninh e Ninh Binh."  Em janeiro de 2025, registou-se também um acidente com "um ferry" que se "afundou na ilha turística de Bali, na Indonésia, provocando a morte de 18 pessoas."

O "Tufão Yagi" foi considerado o culpado do afundamento de "30 navios" neste caso na "província costeira de Quang Ninh, ao longo da Baía de Ha Long."


Fontes:

07/07/2026

E o sonho acabou...

Ontem, quem tinha os pés na terra sabia que era muito mais provável que a seleção portuguesa "caísse" frente à seleção espanhola. Por muito que quiséssemos acreditar no contrário, não havia muita margem para que saíssemos vencedores. No entanto e como no futebol tudo é incerto, assistimos ao jogo com a convicção de que tudo poderia dar certo. Era uma Espanha, a campeã do europeu de 2024 que ali estava, contra a seleção campeã do europeu de 2016. No Mundial de 2018, tinha havido um empate a três golos na fase de grupos entre as duas seleções, num jogo em que a Espanha dominou a posse de bola e os remates e em que os três golos portugueses foram tiros certeiros de Cristiano Ronaldo.
Até mais ou menos aos 90 minutos, enquanto o empate a zeros estava no ecrã, fomos acreditando. Mas a Espanha também não estava com vontade de voltar e num último fôlego, deu a volta e acabou com a esperança de milhões. Até ao golo da Espanha, o jogo foi sendo disputado com algum equilíbrio, em que a Espanha atacava mais, mas Portugal ia conseguindo cortar as melhores jogadas às vezes por poucos milímetros. Mas bastou o golo, só um, para que a seleção das quinas começasse a parecer um ninho de formigas pisado. A equipa desfez-se e se até ali pelo menos tinham conseguido manter a calma e defender, saindo em contra-ataque, agora perdiam o trabalho de equipa e era cada um por si.
Só me resta dar os parabéns à Espanha. 
E agora começa a dança... 
Sai o treinador, Roberto Martínez - que no fim do jogo anunciou que aquele tinha sido o seu último jogo à frente dos destinos da seleção - a comunicação social continua a querer por as culpas em Ronaldo que acaba por responder de forma confusa aos jornalistas e os portugueses deixam, de repente, de apoiar os seus jogadores. Para mim, sempre achei estranho, num país tão nacionalista, haver um estrangeiro à frente da seleção - fosse ele brasileiro ou espanhol. A seleção nacional é um conjunto formado por portugueses, nascidos ou nacionalizados, o que me remete para a questão: o selecionador não faz parte dessa equipa? Bem, vendo algumas das opções tomadas por Martinez, a verdade é que se calhar não faz. E não digo com isto que ele fez escolhas más de propósito, mas que no seu inconsciente estava ali a vontade de ver o seu país ser campeão. O próprio mostrou estar em divergência quando anuncia a saída, minutos depois do fim do jogo, demonstrando que essa decisão já estava tomada antes mesmo de iniciar a partida (talvez se vencessem, a saída tivesse sido adiada, mas a decisão de sair após o final do jogo de eliminação, estava tomada e era aceite por ambas as partes).
Os portugueses têm, no geral, mau perder. E uma vez que na vida se perde sempre mais do que se ganha, não entendo. O que me interessa se joga o A ou o B - não sou eu que estou a jogar, nem sou eu que recebo dinheiro - a escolha não é minha. Gosto quando ganhamos? Sim, mas com tanto de pedantismo que vejo, por vezes até fico feliz quando a seleção de futebol masculina sai derrotada. Sobre o Ronaldo? Não me interessa falar, pois já se falou demais. É um jogador como os outros, tem uma história de vida interessante e até já foi um dos melhores. Já não o é, e mesmo ele, sabe bem disso, mas claro que a vaidade está acima de tudo o resto. Este é um caso onde se pode dizer que a imagem falou mais alto do que a qualidade. 
São horas e horas de notícias, comentários e jogos de futebol. E se equilibrassem com outros desportos? Enquanto isso, fomos campeões mundiais, sim, mas de outras modalidades. Alguém sabe de quais e o nome dos atletas? Poucos saberão. 
Uma coisa digo: as intrigas e interferências externas, que chegam ao cúmulo da perseguição, criadas pelo mediatismo que envolve os jogadores, também nos faz perder jogos. Podem ganhar milhões, mas são pessoas. Por isso, se o sonho de vencer este mundial acabou, a culpa, essa nunca será apenas dos jogadores mas de toda uma indústria criada à sua volta.
E já agora, parabéns à seleção de Cabo Verde, que festejou mais, apesar da derrota, do que nós alguma vez soubemos celebrar qualquer vitória!

Fontes:

04/07/2026

A subida de temperatura, o abandono das zonas rurais e a época de incêndios

Todos os anos, o drama se repete. As queixas são comuns, os piores cenários são-nos transmitidos pelas imagens das reportagens que nos mostram a realidade nacional. Passa-se o inverno e a primavera a falar sobre o que se deve fazer (limpezas preventivas, limitação de combustíveis...) mas quando chega o verão e as temperaturas sobem, tudo se repete. O que se passa? 

A verdade é que isto não acontece apenas no nosso país e deveria ser visto como um problema mais alargado e menos como algo localizado. Os incêndios afetam-nos a todos direta ou indiretamente e, as causas, essas, acabam por ser difíceis de explicar pois na sua génese podem envolver diferentes fenómenos de origem humana ou natural. 

Neste momento, estamos com um incêndio de grandes dimensões na região de Vouzela, o qual deflagrou na passada quinta-feira e que conta com mais de mil operacionais no terreno, "apoiados de 384 veículos e seis aeronaves, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC)." Ontem, foi ativado o "Plano Municipal de Emergência e Proteção Civil" e tiveram de ser efetuadas evacuações preventivas em "duas aldeias na Serra do Caramulo: Matadegas e Mançores, na União de Freguesias de São João do Monte e Mosteirinho." Fala-se em cerca de mais de 12 mil hectares ardidos, até agora, tendo o incêndio entretanto reativado na região de Tondela. O balanço final ainda não pode, por isso, ser feito, embora já se saiba que os prejuízos são avultados, no que respeita a danos no património natural, na atividade agrícola e agropecuária, bem como em algumas empresas e habitações.

Deste incêndio terão ainda resultado "dois feridos graves, um homem de 55 anos que sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau quando tentava combater o fogo e outro, de 34 anos, que sofreu um traumatismo craniano grave ao cair de uma carrinha particular que transportava água para o combate às chamas." Além destes, terão ainda sido registados ferimentos em "dois bombeiros."

Entretanto, terá já sido acionada e já se encontra em trabalho uma "equipa da Unidade Militar de Emergências de Espanha, composta por 120 operacionais e 30 veículos." Esta equipa está a "apoiar o combate ao incêndio de Vouzela, no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, ativado preventivamente na sexta-feira pelo Governo." Este mecanismo europeu é na prática uma rede a (rescEU) que funciona "como uma reserva estratégica de meios para dar resposta a situações de emergência que são coordenadas pelo instrumento europeu quando um país faz um pedido de ajuda."

Esta ativação deve-se ao calor elevado que se faz sentir em todo o território nacional e que, aliado a fatores de seca e de vento, propiciam uma situação de risco muito elevado. É muito importante referir o acionamento deste protocolo de forma tão imediata, uma vez que em anos anteriores, terá demorado muito mais a pô-lo em marcha, algo que eu nunca entendi.

Existe ainda outro incêndio que no dia de ontem causava preocupação, mas que acabou por ser controlado durante a noite. Este, na região de Setúbal terá tido início numa ignição num automóvel que se incendiou e cujas chamas se espalharam ao mato envolvente. Neste caso, registaram-se "10 feridos ligeiros (oito bombeiros e dois civis) e levou, por precaução, à retirada de 25 pessoas, não havendo registo de feridos graves. Pelas 14h deste sábado, 148 operacionais e 46 veículos estavam em São Sebastião no combate às chamas."

Mas qual a causa destes incêndios que todos os anos nos afetam?

O aquecimento global, visto como o grande papão, os eucaliptos vistos como os invasores terroristas ou o abandono das zonas rurais? Existem muitos estudos, várias conclusões, mas o problema mantém-se. "As condições meteorológicas extremas, mais frequentes e intensas devido às alterações climáticas, não bastam para explicar a dimensão dos desastres que se têm verificado nos últimos anos." A má gestão das espécies arbóreas e a falta de limpeza dos terrenos acaba por tornar estas ondas de calor cada vez mais perigosas. A temperatura elevada só provoca incêndios de grandes dimensões em zonas que não estejam devidamente cuidadas, ou seja, temos sempre de aliar as condições atmosféricas propícias ao próprio risco existente, sendo que aqui entraríamos também pela questão das causas. 

Uma deflagração precisa de uma ignição e as árvores não pegam fogo sozinhas. Sabemos de antemão - através de muitos estudos que vão sendo realizados ao longo dos anos - que muitos dos incêndios são de origem criminosa e de mau uso do fogo. Então, porque é que a prevenção não funciona? Porque na verdade, a prevenção falha na sua execução, porque as pessoas pensam que "não vai acontecer nada"  e continuam a ter comportamentos de risco, ou porque as autarquias não têm capacidade de gerir a sua própria área florestal. Existe ainda uma cultura de "posso fazer o que quero porque o terreno é meu," "limpo se quiser" ou até de abandono das próprias terras. 

A saída das pessoas das zonas rurais com destino a grandes cidades (e que teve o seu auge entre meados do século XIX a meados do século XX) levou ao abandono de muitas terras que antes eram cultivadas e onde pastavam grandes rebanhos e manadas. Quando o terreno é cuidado e cultivado tem menos tendência para arder. Por outro lado, as pessoas sabiam fazer uso do fogo como um aliado, o que agora muitas vezes não acontece. As queimas controladas passaram a ser proibidas uma vez que eram causadoras de grandes incêndios, e porquê? Ora se antes se faziam queimas e queimadas, o que mudou? Mudou a sabedoria de uma prática usada desde tempos ancestrais. mas mudaram também as espécies cultivadas e as arbóreas que agora são plantadas. A floresta autóctone começou a desaparecer, dando lugar a extensões sem fim de monoculturas. E uma monocultura arde mais depressa do que um terreno que esteja dividido em parcelas de plantação diversificada- 

O fenómeno do abandono dos terrenos. acontece muito frequentemente quando não há tempo nem disponibilidade financeira para cuidar de terras herdadas, ou porque se vive noutro ponto do país ou se emigrou para o estrangeiro. Mas devia existir uma responsabilidade social, uma responsabilização que obrigasse a cuidar. O problema é que não existe ainda uma franca gestão das propriedades, mesmo daqueles que são baldios ou que pertencem às câmaras municipais.

A verdade é que ano após ano se choram vítimas de incêndios, se lamentam milhares de hectares ardidos e de casas, armazéns, fábricas e diversos outros bens perdidos. E parece que por muitos estudos que se façam, não se aprende nada.

Fontes:

https://www.publico.pt/2026/07/04/sociedade/noticia/incendios-calor-nao-abranda-ha-1700-operacionais-combater-chamas-2180526
https://www.publico.pt/2026/07/03/politica/noticia/governo-activa-mecanismo-europeu-proteccao-civil-prevencao-incendios-2180453

Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...