13/04/2024

É verão em terra e... inverno no mar

Muita gente nas ruas, esplanadas e praias. O calor chegou finalmente para grande alegria da maioria dos portugueses, mas a atenção deve ser redobrada porque a época balnear ainda não começou e o mar está bastante agitado, devido ao vento. Fruto exatamente desta falta de cuidado, foram os casos que se registaram nos últimos dias por todo o país. Infelizmente, nem todos acabaram bem. Nas notícias podemos encontrar vários casos, a maioria deles devidos a comportamentos de risco. Só na praia de Carcavelos, ontem, sexta-feira, já tinham sido "feitos 22 salvamentos."


Um dos casos mais graves é o de "um jovem, de nacionalidade marroquina, que desapareceu na tarde de ontem, dia 12 de abril, após alegadamente ter ido a banhos e ter sido arrastado pela forte corrente que se fazia sentir na praia de Salgueiros, no concelho de Vila Nova de Gaia."  O jovem era "estudante na Escola Secundária Inês de Castro, em Gaia." Pelo fim da tarde foi com alguns amigos até à praia, entrando na água, "apesar de não saber nadar." São vários os meios que têm estado empenhados nas buscas pelo rapaz de 16 anos, que prosseguem, mas até agora sem sucesso. 


Um "homem de 22 anos de nacionalidade brasileira," também está desaparecido "na praia da Vieira, no concelho de Leiria."


Logo pela manhã, os bombeiros foram chamados para um homem de nacionalidade brasileira, que tinha caído enquanto praticava a atividade de pesca lúdica, na zona do Cabo Raso, Cascais. O homem foi resgatado "pelos tripulantes da Estação Salva-vidas de Cascais" com o apoio de uma "embarcação de pesca que se encontrava naquela zona." Este tipo de atividades deve, na minha opinião, ser mais vigiada, bem como penso que seria importante limitar-se os acessos a algumas zonas de arriba da nossa costa. Além de proteger essas zonas, muitas vezes destruídas por quem para lá vai, também se poderia assim diminuir a ocorrência de acidentes, na sua maioria graves. Já no que à atividade de pesca diz respeito, acrescento também aqui a descoberta de um corpo que se pensa ser de um mariscador que estava desaparecido desde 6 de abril. O corpo, que se pensa ser do homem de "nacionalidade nepalesa" foi encontrado na sexta-feira a flutuar "no rio Tejo, em frente ao Terreiro do Paço, em Lisboa."


Na praia do Tamariz, na zona do Estoril, "oito jovens em situação de pré-afogamento foram salvos" por populares e pelos Bombeiros do Estoril. Na primeira ocorrência, os bombeiros foram chamados para "um grupo de quatro jovens," dos quais um rapaz de 15 anos, necessitou mesmo de ser sujeito a manobras de reanimação. Um outro jovem,  necessitou também de ser estabilizado, o que aconteceu "ainda na praia" tendo sido depois "encaminhado para o Hospital de Cascais." Já numa segunda ocorrência, "os bombeiros do Estoril foram acionados para socorrer mais quatro jovens. Um deles em pré-afogamento, que acabou por ser retirado por populares e levado para o areal, antes de ser seguir para o Hospital de Cascais, tal como uma adolescente que se sentiu mal.  Um outro jovem em risco de afogamento foi retirado do mar" e, depois de assistido, recusou transporte à unidade hospitalar. Esta zona, será a primeira a abrir a época balnear, mas só no dia 1 de maio.


Já na praia da Comporta, Alcácer do Sal, distrito de Setúbal, "três jovens que estavam a nadar sentiram dificuldades em regressar à praia e foram socorridos com ajuda de surfistas e populares presentes na praia."


Na "praia da Baía, em Espinho, foram retiradas três pessoas do mar em situação de pré-afogamento, segundo o Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil da Área Metropolitana do Porto."


Mas não foram apenas os banhistas e os surfistas que precisaram de resgate. Na zona da Lagoa de Albufeira, em Sesimbra, "os tripulantes da Estação Salva-vidas de Sesimbra" foram chamados para socorrer e evacuar "um homem de 77 anos que alegadamente se sentiu mal a bordo" de uma "embarcação marítimo-turística."


Na maioria dos casos, a culpa não é do mar. É preciso sermos proativos na nossa segurança e prevenirmos situações de risco. É que atrás de quem entra na água, sem saber nadar, ou com o mar em condições adversas e sem saber como estão as areias e os agueiros, vão outros para os ajudar e que podem acabar por morrer. 


 


Fontes:


https://www.facebook.com/photo.php?fbid=445925524500102&set=a.152772453815412&type=3&ref=embed_post


https://www.dn.pt/72028695/pelos-menos-15-pessoas-socorridas-nas-praias-portuguesas-este-sabado/


https://www.jn.pt/3385888941/retomadas-buscas-para-encontrar-jovem-que-se-afogou-na-praia-em-canidelo/


 

09/04/2024

O mar... esse mar traiçoeiro

Ontem escrevi sobre o triste naufrágio que aconteceu na manhã de domingo, mas o mar não roubou apenas estas vidas. Sobre o caso de Tróia, esperemos agora mais desenvolvimentos, até porque as informações que tenho visto na comunicação social têm sido um pouco difusas (e até contraditórias). Hoje trago diferentes casos, todos bastante diferentes, mas que têm o mar em comum.

Mas infelizmente, este fim de semana foi marcado também por outras situações. Na madrugada de sexta para sábado, um carro caiu à água em Póvoa de Varzim, com dois ocupantes. O homem de 57 anos e um jovem de 16 anos morreram neste acidente. Testemunhas relatam que viram duas pessoas entrarem no carro e que pouco depois o caro caiu à água. "Apenas com o nascer do dia, devido à visibilidade, foi possível chegar à viatura, uma vez que as condições de visibilidade dificultaram as operações."

O que faziam ali juntos àquela hora, não sabemos. O que está noticiado é que "as duas vítimas, que não tinham qualquer relação de parentesco, estavam num bar na Póvoa de Varzim após um jogo de futebol do clube onde João Pedro jogava. De acordo com o "JN", Joaquim Leal, que era amigo dos pais de João Pedro, terá oferecido boleia ao jovem." Ao que se sabe, "as equipas de socorro encontraram os corpos das vítimas junto à bagageira do carro."

No domingo, em Nampula, norte de Moçambique, uma embarcação de pesca que, ao que parece, tentou transportar um grupo de pessoas que fugia "a um surto de cólera no continente, com destino à Ilha de Moçambique, tendo o naufrágio acontecido a cerca de cem metros desta costa." O barco não tinha capacidade para transportar tanta gente, mas aqui há um nível de desespero que leva as pessoas a arriscar a vida. Das cerca de 130 pessoas a bordo, 13 sobreviveram, já se confirmaram 98 mortos, entre os quais estão 55 crianças. As restantes estão dadas como desaparecidas.

Num outro caso, a OIM(1) declarou hoje que "foram recuperados 38 corpos, incluindo crianças, após um trágico naufrágio ao largo da costa do Djibuti, com pelo menos seis outros desaparecidos." Esta rota, chamada "rota oriental" e que faz a ligação entre o Corno de África, o Iémen e os Estados do Golfo Pérsico está entre as "mais perigosas" do mundo. "Pelo menos, 698 pessoas, incluindo mulheres e crianças, morreram no ano passado nessa rota, que atravessa o Golfo de Aden, de Djibuti para o Iémen, na esperança de chegar à Arábia Saudita, de acordo com o Projeto de Migrantes Desaparecidos da OIM."

Desde o final da tarde de ontem, que "um homem de 67 anos," está a ser procurado na zona entre Moledo e Vila Praia de Âncora. O homem terá saído para pescar e acabou por desaparecer. "A sua viatura foi encontrada próxima da zona costeira, entre Vila Praia de Âncora e Moledo." Segundo o capitão da capitania de Vila Praia, "a barra de Caminha estava na segunda-feira encerrada, com o mar alteroso a apresentar ondas de quatro metros e o vento a soprar com o equivalente a 30 quilómetros por hora."

Notas:

1) OIM - Organização Internacional para as Migrações;

Fontes:

https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/carro-com-varios-ocupantes-caiu-ao-mar-na-povoa-de-varzim

https://magg.sapo.pt/atualidade/atualidade-nacional/artigos/homem-de-57-anos-e-jovem-de-16-morrem-afogados-na-povoa-de-varzim-carro-caiu-ao-mar

https://www.jn.pt/2122305042/pelo-menos-55-criancas-morreram-no-naufragio-em-mocambique/

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2536944/pelo-menos-38-migrantes-morrem-apos-naufragio-ao-largo-de-djibuti

https://observador.pt/2024/04/09/autoridades-procuram-pescador-ludico-de-67-anos-desaparecido-em-moledo/

08/04/2024

Naufrágio ao largo da Comporta

O nosso domingo acordou com a notícia de uma tragédia ao largo das praias oceânicas de Tróia. Pelas sete horas, o barco de pesca onde seguiam 5 pessoas fez-se ao mar. Segundo as declarações do timoneiro do barco, propriedade de uma empresa privada, depois de perceber que as condições do mar não seriam as mais apropriadas, tentou dar a volta e regressar a terra. Uma vaga de maiores dimensões, ao que diz o único sobrevivente confirmado até agora, fez o barco virar e projetou-os a todos para fora da embarcação. Ao que parece, só a criança levava colete salva-vidas. "Os dois irmãos, de 24 e 33 anos, e o homem com cerca de 40 anos, seguiam sem colete, sendo que o uso é obrigatório por lei nas atividades de pesca e fortemente recomendado pela Autoridade Marítima e pela Marinha sempre que se vai para o mar, como lembra o comandante José Sousa Luís, porta-voz da Autoridade Marítima e da Marinha."

O homem que trabalhava para a empresa e que conduzia a embarcação, conseguiu aguentar-se ao de cima de água, até por volta das 10 horas dessa manhã, ao que parece agarrado a uma bóia, até ser resgatado por um outro barco que ali passava. "À chegada a terra, o timoneiro explicou que a embarcação pertencia ao fundador do empreendimento Sol Tróia," afirmando ainda "que não conhecia os outros tripulantes e que iam fazer pesca desportiva na embarcação de recreio." 

Este homem, poderá vir a ser responsabilizado, uma vez que poderá ter havido aqui a ocorrência de um ou de mais crimes. Para efetuar essa averiguação, "foram instaurados dois inquéritos paralelos ao naufrágio: um inquérito criminal no Ministério Público e um processo marítimo pelo próprio Porto de Setúbal, com o objetivo de averiguar as condições em que o acidente ocorreu."

De acordo com o que Serrano Augusto afirmou, este processo marítimo pode resultar "numa contraordenação se houver alguma infração ao edital da capitania ou à lei geral". De acordo com o que referiu à comunicação social o "comandante José Sousa Luís, porta-voz da Autoridade Marítima e da Marinha," aquilo que se passa na prática é que "não existe um processo de registo da saída dos barcos dos respetivos portos." Segundo ele, é da responsabilidade de quem vai para o mar, “verificar as condições meteorológicas e oceanográficas, se a barra está aberta ou fechada, se está tudo ok com a embarcação, se têm o material segurança."

Quando ontem vi as imagens na televisão, uma das coisas que me saltou logo à vista é que, não pareciam estar muito longe da costa. O acidente ter-se-á dado apenas "a cerca de milha e meia (aproximadamente três quilómetros) de Tróia, Grândola (Setúbal)."

Seria ainda de noite, mas o sol não tardaria a despontar. Outra coisa que hoje em dia é muito mais fácil de perceber, do que seria há uns anos atrás, são as condições do mar. Pelas notícias dos últimos dias, têm sido feitas previsões que dão conta de agitação marítima. O vento também tem estado com rajadas bastante fortes. A diferença é que, a uma ou duas milhas da costa, o vento pode estar mais fraco ou mais forte, dependendo das frentes que se fazem sentir. A questão aqui, não seria tanto a de adivinhar como estaria o mar, mas sim, olhar para os instrumentos.

Hoje em dia, os satélites permitem imagens quase em tempo real e previsões muito mais corretas. A tecnologia trouxe mais segurança à vida do mar, embora, como em tudo, os acidentes possam acontecer. Quem tripula uma embarcação, sabe que não controla todas as variantes. Hoje em dia, sair para o mar embora ainda possa ser uma "aventura" com vários perigos associados, é muito mais seguro do que era antes, uma vez que existem mapas de satélite, existem boletins marítimos, existem gráficos que nos informam a direção e a predominância do vento e das ondas, dos diferentes tipos de correntes. Pode, claro que sim, pode ter sido apenas um trágico acidente, mas quais e quantos destes recursos, é que foi avaliado antes de se sair do cais?

O mar, esse é traiçoeiro. No mais calmo mar, pode vir uma vaga maior e derrubar uma embarcação de grandes dimensões. Uma onda mais forte, faz deste tipo de barquinhos, um brinquedo. Parece que foi um "golpe de mar" aquilo que aconteceu. Um golpe de mar é quando uma vaga maior, com um pico acima da média restante, se ergue "no meio do nada" e o perigo está, precisamente, na sua imprevisibilidade. Mas aqui está a incoerência. Quando se dá uma destas ondas inusitadas, há um mar mais calmo, que depois desta onda maior, volta a ficar mais calmo. O que diz o timoneiro, não bate certo, com esta história do "golpe de mar" (ou então quem a noticiou não usou o termo correto), uma vez que aquilo que disse foi que "o mar estava muito forte e que não conseguiu ver nenhuma das outras pessoas que se encontravam a bordo" (depois de terem caído todos ao mar).

Mas, não sei, a mim parece-me que não era um mar calmo, aquele que estava àquela hora da madrugada quando saíram. Havia tanto vento em terra, não haveria também no mar (sendo que aqui, falamos perto da costa, a uma distância de cerca de três quilómetros)? Durante as noites anteriores tinha estado bastante vento e o mar tem estado agitado. Para um barco maior, poderá não fazer diferença, mas para este tipo de embarcações de recreio, vagas ligeiramente maiores, podem fazer grandes estragos.

Para mim e acredito que para muita gente, isto não nos diz nada, mas para quem tem um barco nas mãos, estas informações não são apenas factos generalistas. O meu avô não sabia uma letra do tamanho de um comboio, mas bastava-lhe abrir a janela e sentir o cheiro do vento para saber se o barco ia ou não ao mar. A quem conhece o mar, até a posição das aves quando se ajeitam para dormir, lhes dá sinais importantes se está prestes a chegar uma tempestade, se os ventos estão a aumentar ou se vem trovoada. A esta sentia-a na pele e no cheiro do ar, que dizia estar "carregado."

Hoje em dia, basta ligar o telemóvel ou um simples computador e entrar no site do IPMA ou do ECMWF (onde temos mapas dinâmicos muito interessantes). Hoje em dia a meteorologia é uma ciência bastante desenvolvida que, apesar de ser influenciada por um grande número de variáveis, é hoje em dia muito fiável (de certeza bem mais fiável do que o nariz do meu avô).

Outra a coisa que a mim me surpreende é a demora na colocação de um heli no ar. O naufrágio foi reportado pouco depois das dez da manhã, mas só "por volta das 13:10, Serrano Augusto indicou que estava a chegar ao local um helicóptero Koala da Força Aérea Portuguesa (FAP) para participar nas buscas." 

Os corpos do menino, que se sabe tinha apenas 11 anos, e de um dos outros ocupantes, foram encontrados e recuperados durante o dia de ontem, faltando ainda encontrar dois dos ocupantes. E aqui a palavra correta é mesmo "recuperar" uma vez que quando falamos em ocorrências que envolvam vítimas de naufrágios e falamos em vivos, estes são resgatados, quando se fala em corpos, estes são recuperados. É que ontem, ao mudar de canal e ouvir uma jornalista dizer "o menino foi resgatado" o meu coração pulou de alegria, até perceber que afinal, não foi o menino que foi resgatado, foi o seu corpo que foi recuperado. Não é a mesma coisa e devia haver mais cuidado da parte dos jornalistas que dizem certas coisas.

Fontes:

https://www.ipma.pt/pt/maritima/boletins/

https://www.ecmwf.int/

https://observador.pt/2024/04/07/troia-um-barco-de-pesca-naufragou-uma-crianca-e-um-homem-morreram-e-dois-estao-ainda-desaparecidos/

https://tvi.iol.pt/noticias/naufragio/troia/embarcacao-afundou-completamente-homem-resgatado-do-mar-era-o-timoneiro-e-tem-62-anos/20240407/66129a56d34ebf9bbb3c28ab

https://tvi.iol.pt/noticias/troia/naufragio/um-golpe-de-mar-que-acabou-em-tragedia-foi-isto-que-aconteceu-no-naufragio-ao-largo-de-troia/20240408/6613d7dcd34e0498921f802f

07/04/2024

1994, o ano da morte no Ruanda

Passaram-se 30 anos, mas ninguém pode esquecer o massacre que aconteceu no dia 7 de abril de 1994 no Ruanda. Lembro-me vagamente de ouvir algumas coisas sobre isto, mas na altura eu tinha apenas 10 anos e, claro, os blocos noticiosos muito mais fechados naquela época, não nos traziam as notícias como no-las trazem hoje.

Há 30 anos, o Ruanda estava em plena guerra civil. "O Ruanda e o Burundi são dois pequenos países africanos que viviam em permanente tensão desde a sua independência, na década de 50. Essa tensão decorria precisamente do conflito entre a maioria Hutu e a minoria Tutsi." 

"No Ruanda, as raízes desta hostilidade remontam ao período colonial." Esta região foi colonizada primeiro pela Alemanha mas, posteriormente, passou para a administração da Bélgica, que "favoreceu a rivalidade entre os dois grupos e promoveu a supremacia da minoria Tutsi." Já os Hutus, mesmo sendo 85% da população, não tinham acesso à mesma educação, nem às mesmas oportunidades que eram dadas aos Tutsis. A raiva contra os Tutsis cresceu e deu origem à segregação em vastos campos de refugiados que se perdiam de vista. O gatilho, já bastante tenso, foi puxado quando o avião onde seguia o presidente Hutu foi abatido e os rebeldes Tutsis considerados culpados pela sua morte.

O genocídio não se fez esperar. Milhares de pessoas foram mortas de forma bárbara. O exército Hutu fechava as estradas e entrava nas casas dizimando todos os que lá estivessem. Os homens da casa eram mortos e depois as mulheres e as adolescentes violadas e assassinadas em seguida. As casas eram saqueadas. Avançavam casa após casa, até não restar ninguém.

Estamos a falar em cerca de dez mil pessoas por dia. Ainda hoje, trinta anos depois, se continuam a descobrir as valas comuns onde jazem cadáveres destas vítimas. "Calcula-se que tenham morrido entre 800 mil a 1 milhão de pessoas durante este período de pouco mais de três meses, enquanto a guerra civil que se seguiu terá causado cerca de 2 milhões de refugiados."

A indignação na altura, não foi  apenas causada pelo horror das imagens dos massacres, mas sobretudo "pela passividade e indiferença das potências mundiais." O contingente militar que a "ONU colocou" no país, revelou-se impotente para travar os ataques! Não conseguiram "proteger as populações. Houve alertas e denúncias de que estava em marcha uma catástrofe humanitária no país, mas nada foi feito."

Durante aqueles dias, a população foi completamente dizimada e "nem os locais de culto serviam como sítios seguros." Há relatos de que "numa igreja na província de Gikondo, controlada pela ordem religiosa polaca dos palotinos, e onde estavam escondidas várias pessoas, cerca de 100 homens pertencentes às milícias ligadas aos hutus entraram no local e levaram a cabo um autêntico massacre."

Quinze dias depois dos ataques começarem, as Nações Unidas retiraram as suas tropas da região. "A França, tradicional aliada dos Hutus, foi posteriormente acusada de ter tido conhecimento dos planos genocidas das elites Hutus e de não ter tomado nenhuma ação. As organizações de defesa dos direitos humanos denunciaram igualmente a hipocrisia e a insensibilidade da comunidade internacional, por se tratar de uma região remota, longe dos centros de poder mundiais."

O massacre, esse só terminou cem dias depois, quando os rebeldes da Frente Patriótica do Ruanda conquistaram a capital. O seu comandante ainda é hoje, o presidente da República do Ruanda. 

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-genocidio-no-ruanda/

CNN Portugal 07/04/2024: reportagem sobre os 30 anos do genocídio do Ruanda, transmitido no Jornal CNN Domingo;

 

06/04/2024

Ilegalidades, acidentes e coisas que nos fazem pensar

Hoje é sábado. Depois de um dia bastante preenchido, acabo por me sentar para escrever. Gosto sempre de rever o que se passou durante a semana, especialmente alguns blocos noticiosos. Aquilo que, ultimamente, me tem preocupado mais, é claro a situação do conflito na Ucrânia, embora outras situações mereçam também alguma reflexão.


Começo por apontar uma situação, sobre a qual já tenho estado para escrever várias vezes: a apanha ilegal de amêijoa. No dia 26, dois homens de nacionalidade nigeriana que se dedicavam à apanha de amêijoa, desapareceram e só no dia 4, o corpo de um deles foi recuperado, na zona da Moita. O outro, ainda permanece desaparecido. Na reportagem da TVI, fala-se das operações policiais que são realizadas, mas não é verdade que o sejam de forma diária. Aqui no Seixal, pelo menos não é isso que eu vejo. Se o rio o permitir, ou seja, sempre que está maré baixa, váriass pessoas entram no lodo e começam a tirar de lá os bivalves. Uma das "entradas" fica mesmo em frente da esquadra da PSP, uma outra, em frente da estátua ao Pescador ou, também, é possível vê-los a entrar, junto ao pontão da Arrentela, na rampa do museu, nas escadinhas onde descansa o "nosso" amigo ganso. Podemos vê-los logo de madrugada, mesmo em dias de muito frio, numa vida que não é fácil, certamente. Em muitos casos, trata-se de migrantes, que chegam ao nosso país e são logo encaminhados para este tipo de tarefas, mas noutros que eu conheço, tratam-se de escolhas, como o caso de famílias aqui da zona do Seixal. Estes que desapareceram (um dos quais, o corpo já foi encontrado) são apenas dois de muitos que se põem em perigo diariamente. E, se estão a fazer uma coisa que é ilegal, qual a razão de não serem detidos e presentes a tribunal? Várias destas pessoas, homens e mulheres, são já caras conhecidas e, nos outros locais eu não sei, mas aqui circulam completamente à vontade, a pé ou de bicicleta (já nem falo de carro) com o balde cheio de um produto ilegal - logo com a prova do seu crime à vista de todos. Bem, mas aqui o que lamento é a morte de mais uma pessoa, que se calhar nem "usufruia" do crime que praticava.


Já no passado sábado, dia 30, desapareceu também um homem de 43 anos, que andava a fazer mergulho "junto ao ilhéu dos Fradinhos, na ilha Terceira, Açores. Um amigo da vítima deu o alerta quando percebeu que o mesmo não tinha regressado. Ainda foram iniciadas buscas no dia do seu desaparecimento mas, devido às condições meteorológicas, as buscas foram suspensas, tendo sido retomadas assim que as condições o permitiram.


Ontem, na praia do Pinheirinho, na zona de Grândola, dois homens entraram na água e acabaram por se ver em grandes dificuldades. Um deles ainda conseguiu sair, embora já em hipotermia, mas o outro acabou por morrer afogado. Os dois homens, ambos de "nacionalidade canadiana, foram auxiliadas por um popular que se encontrava nas proximidades."


Bem, mas por cá as notícias não são só sobre os perigos do mares e rios. Há outros perigos que são bem mais traiçoeiros.


Um grupo de extrema-direita sediado em Portugal (grupo que se autodenomina "1143" em referência ao ano do "nascimento" de Portugal e à vitória sobre os "mouros")  - faz-me lembrar um tal de senhor que se fazia representar de espada e escudo na mão tal "salvador da pátria" - terá convocado "todos os patriotas a marcarem presença" no Porto para mostrarem "oposição à invasão de imigrantes, que é a principal razão para o aumento brutal do preço da habitação". Claro que rapidamente, este grupo de gente "pacífica" começou "a estourar petardos na praça."


Isto na semana em que foram, finalmente, apresentados ao país, os novos ministros e os 41 secretários de estado (mais um do que no anterior governo) e, em que a primeira medida, foi a alteração do "logótipo adotado pelo anterior Executivo" trazendo de volta "a esfera armilar, as quinas e os castelos" que tinham sido excluídos pelo governo de António Costa. Esta decisão tinha sido uma promessa feita por Montenegro em novembro. Agora, falta fazer a atualização, por exemplo, nas redes sociais onde a imagem ainda não está atualizada.


Antes que me esqueça. Parece que ontem houve um sismo nos EUA, com 4.8 na escala de Richter e que terá sido sentido nos estados de Nova Iorque, Nova Jérsia, Conneticut e Massachusetts. O sismo (1) "teve epicentro perto da localidade de Lebanon, em Nova Jérsia," mas sem registo de danos materiais nem de vítimas.


-/-


Notas:


1. Os EUA sofrem de eventos deste género com bastante frequência, embora a maioria dos terramotos nos EUA ocorra "nas áreas pouco povoadas ao longo do Golfo do Alasca e da cadeia de ilhas no Mar de Bering." Os terramotos mais conhecidos e até, mediáticos, têm ocorrido "ao longo da Falha de San Andreas, densamente povoada, que se estende de norte a sul por mais de 1000 quilómetros através da Califórnia." Esta área faz parte do chamado "Anel de Fogo do Pacífico," onde a placa do Pacífico, que se encontra sob a placa da América do Norte, "regularmente causa tensões tectónicas nas zonas de subducção." Explicando de outra forma, esta falha separa duas placas: uma onde se localiza Los Angeles e, outra, onde fica São Francisco. "Los Angeles fica na placa do Pacífico, enquanto São Francisco fica na placa continental da América do Norte. À medida que a placa do Pacífico se move para o norte, a placa norte-americana" desloca-se para sul. Ou seja, "Los Angeles e São Francisco" estão de facto a aproximar-se "em média de 6 cm por ano." 


Fontes:


https://cnnportugal.iol.pt/videos/homem-desaparecido-encontrado-morto-na-moita-nas-margens-do-tejo/660eaea20cf2a41c2ecd5a23


https://www.dnoticias.pt/2024/4/1/400014-buscas-por-mergulhador-desaparecido-na-ilha-terceira-interrompidas/#


https://pt.euronews.com/2024/04/05/nova-iorque-sacudida-por-terramoto-de-48-na-escala-de-richter-o-maior-em-mais-de-40-anos


https://eco.sapo.pt/2024/04/05/sismo-sacode-area-metropolitana-de-nova-iorque-residentes-receberam-alertas-para-ficarem-em-casa/


https://www.dadosmundiais.com/america/usa/terremotos.php


 

05/04/2024

Perceber-me...

Ultimamente não tenho dedicado muito a falar sobre mim, porque na verdade, tudo continua igual e, realmente, a conjuntura nacional e internacional tem sido muito mais interessante. Talvez porque não me dê grande relevância, ou porque tenha mais que fazer do que me estar a dar demasiado valor. No fundo, há sempre coisas boas e más a acontecer todos os dias na minha vida, mas a principal, sem dúvida, é sentir-me realizada com aquilo que agora estou a fazer. 


Ontem caiu uma certa nostalgia e, até um certo aperto, quando comecei a pensar que está tudo a seguir no bom caminho. Mas eu não estou habituada a que as coisas me corram bem e isso faz-me sempre recear... não sei se conhecem a sensação. Eu não estou aqui a dizer que está tudo perfeito, não está mesmo, há muito para melhorar, tenho muito para trabalhar e sobretudo, para me auto-construir. Mas é este caminho que agora estou a percorrer é que me está a dar uma motivação diferente e me faz olhar para situações passadas e me faz pensar: como é que isto me aconteceu? como é que eu deixei que me fizessem isto? como é que eu me permiti a passar por isto? como é que eu não vi isto?


E estas memórias ainda me afetam. Sim, ainda acordo a meio da noite com angústias. Ainda temo e desconfio. 


Ainda há sonhos e apertos que me fazem acordar a meio da noite. 


E aqui está o foco que quero muito melhorar. A minha saúde. Vivo há anos demais presa a diagnósticos, a medicamentos, a tentativas de fazer os outros perceberem que há doenças que não são visíveis mas que estão cá e nos magoam, nos vão tirando as forças bocadinho a bocadinho. Mas sabem o que eu também sei? É que aquilo que mais me tira as forças, não é a doença nem a medicação, que sim estão cá e fazem parte da minha vida há muitos anos, é a minha preocupação sobre o que os outros pensam de mim. E essas pessoas interessam? Não deviam, porque não são as pessoas próximas de mim, nem as pessoas da minha família próxima, nem as pessoas que me querem bem. Se são só as "outras" e, muitas delas já nem fazem parte da minha vida, porque é que ainda me magoam, me fazem angustiar? Porque é que as memórias do que se passou, não podem passar apenas de memórias e, ainda hoje, me fazem ficar triste? 


E porque é que eu estou hoje a escrever isto? Bem, uma das razões é porque não sou a única pessoa a viver com fibro e sei que há muitas pessoas que dizem que o pior desta doença é a incompreensão dos outros. E é exatamente aí que eu sinto que tenho de trabalhar. Não nos outros, mas em mim, em aceitar-me como sou, sem me estar a preocupar se os outros acreditam em mim ou se falam por trás, ou se são falsos... é que eu sei que isso não me devia estar a magoar, não aos quarenta anos, nem depois de tudo aquilo que eu já passei na minha vida, de tudo aquilo que eu já vi e já vivi. 


E é tudo isso que importa.

04/04/2024

75 anos de Aliança democrática... o mesmo inimigo comum

A NATO comemora 75 anos. E 75 anos depois, será que continua a fazer sentido a sua existência, com o renascer da guerra dentro da Europa? Sim, quando falamos de um inimigo que não sendo novo, se voltou novamente a erguer: a Rússia. Para celebrar esta data, o documento original que data de 1949, "viajou de Washington até Bruxelas," onde ficará hoje e amanhã em "exposição na sede da NATO."

Esta aliança militar, que começou com 12 membros e tem hoje 32, foi assinado num período de plena "oposição entre os blocos ocidental e oriental no âmbito da Guerra Fria" e, mantém ainda como "inimigo", já não a União Soviética, mas a Federação Russa. Os primeiros 12 países participantes foram os "Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Itália, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos e Portugal." Em 1955, dando resposta "à adesão da República Federal da Alemanha (RFA) à NATO", o bloco de Leste criou "o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar composta por oito países (URSS, Albânia, Bulgária, Roménia, Hungria, Polónia, Checoslováquia e Alemanha de Leste) e que acabou "dissolvido em 1991."

Recordo, que num discurso à nação russa, Putin, "fez acusações ao Ocidente, sobretudo aos EUA, à NATO e destacou o poderio militar russo" não deixando de salientar "a ameaça nuclear." Referindo-se à atual corrida ao armamento, comparou-a ao período da Guerra Fria, reforçando que os países que fazem parte da Aliança Atlântica, "têm de entender que nós também temos armas que os podem derrotar no seu próprio território". Foi nesta mesma declaração que Putin acusou a NATO (ou melhor, o "Ocidente") de ser a culpada de ter provocado "um conflito na Ucrânia, no Médio Oriente e noutras regiões do mundo e", pasmem-se, de "continua a mentir." Referindo-se a um período específico da II Guerra Mundial, em que a URSS saiu vitoriosa sobre a Alemanha, lembrou o "destino daqueles que uma vez enviaram tropas para o território" russo.

Sabiam que França, apesar de ter sido um dos países fundadores, esteve "fora" da Aliança entre 1966 e 2009? Bem, a sua saída foi apenas no âmbito militar, continuando a participar no âmbito político de forma a "desafiar a hegemonia americana no seio da organização."

O primeiro envolvimento militar da NATO, foi em 1993, durante a "guerra na Bósnia-Herzegovina, que se seguiu ao desmembramento da Jugoslávia." Em 1999, interviu também no conflito do Kosovo em 1999.

Em 2001, de forma a dar "resposta aos ataques terroristas nos Estados Unidos" a NATO invocou pela primeira e única vez até agora, "o Artigo 5.º"que "consagra o princípio da defesa coletiva" e estipula que, "um ataque contra um membro da NATO, é considerado como um ataque contra todos os Aliados."

Em 2014, para dar "resposta à anexação ilegal e ilegítima da Crimeia pela Rússia" e a invasão da Ucrânia em 2022, "a presença militar da NATO tem sido progressivamente reforçada na parte oriental do seu território para apoiar a sua postura de dissuasão e defesa." Assim, além do contingente militar que se encontra distribuído por oito países, enviou, também,  "navios para o Mar Báltico e para o Mediterrâneo," além de ter aumentado o "nível de prontidão operacional das suas tropas." A vigilância aérea foi também reforçada.

Os últimos países a entrar para a NATO, foram a Finlândia (em abril de 2023) e a Suécia (março de 2024) o que veio pôr "fim à sua tradição de neutralidade militar e de não-alinhamento."

Fontes:

https://www.dn.pt/5362597734/putin-sobre-a-nato-e-a-ameaca-nuclear-eles-tem-de-entender-que-tambem-nos-temos-armas/

https://pt.euronews.com/my-europe/2024/04/04/75-anos-da-nato-o-tratado-de-washington-em-exposicao-em-bruxelas



 

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