25/04/2021

Liberdade para cantar

Celebra-se hoje mais um dia da Liberdade. Mas ainda se lembram quando havia censura? Quando os livros, as notícias, os poetas eram censurados? Hoje venho escrever um pouco sobre os grandes poetas e sobre grandes intérpretes que tiveram a coragem de subir ao palco, com letras construídas metodicamente com a mestria de enganar a PIDE-DGS e passar pelos censores sem que as mensagens fossem reparadas.


A verdade é que poetas e autores, compositores e intérpretes, não ficaram indiferentes ao regime totalitário que existia em Portugal até ao dia 25 de Abril de 1974 e, através da sua arte, contribuíram para denunciar os abusos da ditadura e muitas conseguiram furar as malhas da censura impondo-se na música portuguesa.


Foi na verdade no Festival da Canção que apareceram grandes dos nomes que hoje conhecemos. Ali, se fez saber da vontade de gritar pela liberdade a plenos pulmões! Assim, não será de estranhar que a canção que se associa ao 25 de Abril de 1974 é aquela que nasceu (pensavam os censores da altura) "apenas" como um lindo poema de amor. Embora não tivesse sido a primeira escolha, o facto de ter sido aceite no Festival e de passar despercebida, fez com que fosse a escolhida como a primeira senha do movimento dos capitães. A canção "E Depois do Adeus" com letra de José Niza e música de José Calvário, foi brilhantemente interpretada no Festival da Canção e no Festival da Eurovisão pela voz de Paulo de Carvalho. 


Outra canção que eu adoro e que nunca me canço de ouvir, pela voz grandiosa de Simone de Oliveira, é "A desfolhada", escrita por Ary dos Santos, em 1969 e com música de Nuno Nazareth Fernandes. Esta canção vem recheada de várias metáforas. Cantou Simone com a sua grandeza, Quem faz um filho, fá-lo por gosto, numa época em que era pecado a mulher ter prazer no ato sexual, dando uma autêntica pedrada no charco na hipocrisia e falsa moral vigente.


Em 1971, cantou no Festival da Canção Fernando Tordo a canção "Cavalo à Solta", onde só a ideia de liberdade já arreliava a PIDE. O poema, também era do mestre Ary dos Santos.


Em 1973, volta a dupla Fernando Tordo e Ary ao Festival com a canção "A Tourada", que foi uma genial critica ao antigo regime através de metáforas tauromáquicas. Depois da vitória desta canção no Festival, o então governo, ainda ponderou não enviar a canção à Eurovisão, mas o escândalo internacional, numa Europa esmagadoramente democrática, seria bem mais prejudicial e a canção lá foi até ao Luxemburgo. A mensagem estava lá e é incrível pensar como é que a censura não compreendeu que na letra deste poema não se falava afinal do espetáculos de touros e toureiros, mas sim do antigo regime, numa crítica extremamente inteligente e com um retrato fiel da sociedade de então:
"toureamos ombro a ombro as feras | ninguém nos leva ao engano | toureamos mano a mano | só nos podem causar dano esperas."


Neste mesmo ano regressa Simone de Oliveira com a canção "Apenas o meu povo", que lhe valeu o Prémio de Interpretação. Um poema de inconformismo e de uma certa revolta contra quem pretendia tirar a esperança ao povo que governava com mão de ferro


Ainda no Teatro Maria Matos no dia 26 de Fevereiro de 1973, com letra da autoria de Ary dos Santos é apresentada a concurso a canção  "É por isso que eu vivo", interpretada por Paco Bandeira. Conseguiu o segundo lugar, com um poema que dizia que: "Eu sou a palavra lavrada e aberta, eu sou a raiz, eu sou a garganta de um homem que fala e sabe o que diz, eu sou o silêncio das trevas que penso, das coisas que digo, sou filho do tempo, sou fúria do vento, sou força do trigo." E voltava a estar lá o tal clamor, a crítica à censura e ao obscurantismo, a revolta contra a falta de liberdade e a opressão.


São tantas as letras que aqui poderia colocar, mas vou apenas falar de mais uma, já no ano de 1974. O grupo Green Windows cantou nesse ano, a canção de José Cid, "No dia em que o rei fez anos", conseguindo um brilhante  2º lugar. A letra conta como é que no dia em que um rei faz anos, esse mesmo rei é deposto e como todos (o povo) saem à rua para celebrar a liberdade:
"Vieram tribos ciganas, saltimbancos sem eira nem beira, evitaram a estrada real, e passaram de noite a fronteira, e veio a gente da gleba, mais a gente que vivia do mar, para enfeitar a cidade, e abrir-lhe as portas de par em par para libertar a cidade leia-se o país…
…lá vai rei morto rei posto, levado em ombros p’la grei, e a festa continuou, já que ninguém tinha nada a perder, só ficou um trovador, p’ra contar o que acabava de ver."


A canção faz parte das comemorações do 25 de Abril. Lembremos sempre estes valentes que lutaram não com armas mas com a sua voz e com a sua capacidade de poetizar o dia a dia de um povo oprimido.


 


Fontes:


https://festivaiscancao.wordpress.com/2021/04/24/as-cancoes-do-festival-que-gritaram-liberdade-antes-do-25-de-abril-de-1974/


https://festivaiscancao.wordpress.com/2019/04/25/25-de-abril-sempre-cancoes-que-furaram-as-malhas-da-censura-simone-de-oliveira/


https://festivaiscancao.wordpress.com/2019/04/25/25-de-abril-sempre-cancoes-que-furaram-as-malhas-da-censura-fernando-tordo/


 


 


 

18/04/2021

70 anos de criação da CECA

A CECA preparou o caminho para aquilo que hoje temos, a União Europeia. A "9 de maio de 1950," pouco tempo depois do fim da 2ª Guerra Mundial, Schumann propõe um plano "para uma comunidade europeia do carvão e do aço, chamada de Montanunion." Este plano tinha como intenção unir "e gerir em comum a produção franco-alemã de carvão e aço", integrando outros países europeus - mais concretamente os países pertencentes à Benelux (uma organização económica da qual faziam parte a "Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, sendo inicialmente uma área de livre comércio entre estes três países").

No ano seguinte, a 18 de abril, há precisamente 70 anos, é assinado em Paris o acordo para a "fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA)," por um grupo de seis países - Alemanha, França, Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda e que viria então a preparar "o caminho para a atual União Europeia."

Este acordo firmava em cem artigos a cooperação entre os seus membros num compromisso mútuo de "garantir um mercado livre de taxações para exportação e importação de aço e carvão e a não prejudicar o livre comércio." Este mercado pretendia, entre outras coisas, "racionalizar progressivamente a distribuição da produção, garantindo estabilidade e emprego."

Seis anos depois de assinado o Tratado de Paris, são então assinados os Tratados de Roma que vão dar origem à Comunidade Económica Europeia (CEE) e à Comunidade Europeia da Energia Atómica (CEEA ou Euratom), que viriam a dar origem à UE.

Fontes:

https://www.dw.com/pt-br/1951-criada-a-comunidade-europeia-do-carv%C3%A3o-e-do-a%C3%A7o/a-500071

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benelux

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade_Europeia_do_Carv%C3%A3o_e_do_A%C3%A7o

15/04/2021

Faleceu o cantor Artur Garcia

Artur Garcia, morreu esta quarta feira, na véspera de completar 84 anos. Poucos se lembram deste cantor que cedo deixou - ou foi afastado - da vida pública de cantor, mas que teve uma vida completamente dedicada à música e ao entretenimento. Faleceu quase a completar os 84 anos, após um período de doença e de um AVC que o deixa dependente. Estaria muito debilitado e a residir numa residência de Cuidados Continuados em Cascais.

Como outros grandes nomes da canção da sua geração, Artur Garcia frequentou o Centro de Preparação de Artistas da então Emissora Nacional.  Além de programas como “Gente Nova ao Microfone” e “Serões para Trabalhadores”, participou em "Andam canções no ar", em "Melodias de Sempre" onde fazia duetos com vozes tão conhecidas como Simone de Oliveira, Fernanda Soares, Madalena Iglésias e Maria de Lourdes Resende.

Artur Garcia participou em várias edições do festival da canção, nomeadamente nas duas primeiras, em 1964 e 1965. Em 1967, interpretou “Porta Secreta”, uma canção composta pelo autor de “Ele e Ela”, Carlos Canelhas, com a qual atingiu o 5.º lugar, a sua melhor posição neste festival e que se revelou um dos maiores êxitos da sua carreira. Eu gostava especial deste "Como o Tempo Passa."

A última vez que representou o seu país na Eurovisão foi em 1974, com “Dona e Senhora da Boina”. Este foi um Festival da Canção muito particular, dele viria a sair a primeira senha para o arranque do Movimento das Forças Armadas que viria a devolver a liberdade e a democracia aos portugueses. Este Festival realizou-se a 7 de março no Teatro Maria Matos em Lisboa e teve apresentação de Artur Agostinho e de Glória de Matos.

Foi também ator em diversas peças e filmes e em algumas produções da RTP. De 1978 a 1998, com menos atividade nos palcos, foi proprietário de uma loja de discos, em Lisboa. Em 1977 fez com Amália Rodrigues uma digressão aos Estados Unidos.

Foi homenageado em 2005 pela Câmara Municipal de Lisboa, aquando dos 50 anos da sua carreira. Em 2015, participou no espetáculo “Scarllaty – 40 Anos, A Vida à sua Maneira”, dedicado a Guida Scarllaty, a personagem criada por Carlos Alberto Ferreira, pioneiro do transformismo em Portugal.


Fontes:

https://www.dn.pt/cultura/morreu-o-cantor-artur-garcia-13571211.html

https://www.jn.pt/artes/morreu-cantor-artur-garcia-nome-da-musica-ligeira-portuguesa-da-decada-de-60-13571252.html

https://festivaiscancao.wordpress.com/2018/08/09/artur-garcia-no-xi-grande-premio-tv-da-cancao-portuguesa-1974/

https://youtu.be/Ow9JOPf1nQs

 

05/04/2021

Cheias em Timor e Indonésia provocam dezenas de mortos

Como se não bastasse a situação de pobreza que afeta esta zona do globo, Indonésia e Timor estão a ser afetados por fortes chuvadas. Em Timor, as cheias repentinas provocaram a morte a, pelo menos, 27 pessoas, embora tenham sido encetados esforços para evacuar a população das áreas mais afetadas. "Há ainda várias pessoas dadas como desaparecidas, algumas delas estarão soterradas na sequência de deslizamentos de terra." A capital, Dili, foi a zona mais afetada. Para complicar ainda mais a frágil situação que ali se vive, o país está a braços com um dos maiores surtos de Covid desde que a pandemia foi declarada. 


"As inundações afetaram várias estruturas usadas no combate à doença, como o Centro de Isolamento de Vera Cruz, onde estão três doentes considerados moderados e um doente grave, e que tiveram que ser realojados no Hospital de Lahane. Registaram-se ainda inundações no Laboratório Nacional e no centro de isolamento de Tasi Tolu, bem como no Serviço Autónomo de Medicamentos e Equipamentos de Saúde (SAMES), a farmácia central timorense."


Já na Indonésia, "o número de óbitos confirmados ultrapassa as sete dezenas mas há ainda muitos desaparecidos." Os estragos são incalculáveis, levando milhares de pessoas a procurar abrigo em centros de acolhimento. As equipas de resgate tentam ainda resgatar possíveis sobreviventes que tenham ficado presos nas infraestruturas, principalmente, na ilha das Flores, mas muitos podem estar soterrados na lama. "O dilúvio fez transbordar reservatórios de água e inundou milhares de casas, enquanto as equipas de resgate lutavam para prestar assistência às vítimas."




 



Fontes:


https://pt.euronews.com/2021/04/05/cheias-em-timor-leste-e-indonesia-provocam-dezenas-de-mortes


https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2021/04/04/o-maior-desastre-natural-em-timor-leste-cheias-ja-causaram-11-mortos/233114/


https://www.dnoticias.pt/2021/4/5/256613-pelo-menos-66-mortos-em-cheias-e-deslizamento-de-terras-na-indonesia/

28/03/2021

Catedral atacada na Indonésia

Um atentado suicida contra a catedral de Makassar, a leste da Indonésia, ocorreu após a missa do Domingo de Ramos. Esta cidade portuária de 1,5 milhão de habitantes é a capital da província de Sulawesi do Sul.


Do lado de fora do templo, as testemunhas relatam pedaços de corpos mutilados pela explosão. Pelas ruas, também muitas pessoas feridas e desorientadas. Os feridos incluem peões que estavam próximos da catedral, bem como fiéis que assistiam à missa de domingo de Ramos, que marca a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, de acordo com a tradição cristã, e representa o início da Semana Santa.


Os responsáveis pelo atentado terão sido dois membros de um grupo extremista vinculado ao Estado Islâmico. Os dois (um homem e uma mulher) entraram com uma motorizada no complexo da da catedral do Sagrado Coração de Jesus, no sul das ilhas Sulawesi onde se fizeram explodir. Faziam parte do Jamaah Ansharut Daulah (JAD), grupo extremista que terá sido responsável pelos atentados ocorridos em março de 2018, em Surabaya, segunda maior cidade da Indonésia, e que no ano seguinte terá também sido responsável pelo atentado à bomba em Jolo, nas Filipinas. 


Os costumes de tolerância do povo Indonésio tem sido posto à prova, nos últimos anos, devido ao desenvolvimento de correntes islâmicas conservadoras e muitas vezes radicais, pondo em perigo a coexistência religiosa com minorias religiosas cristãs, budistas e hinduístas. Em 2002, mais de 200 pessoas morreram em atentados na ilha de Bali atribuídos ao grupo islamita indonésio Jemaah Islamiyah.


Fontes:


https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2021/03/28/interna_internacional,1251360/vinte-feridos-em-atentado-suicida-em-catedral-da-indonesia-no-domingo-de-ra.shtml


https://www.dn.pt/internacional/papa-lembra-vitimas-do-ataque-a-uma-igreja-na-indonesia-durante-oracao-do-angelus-13509328.html


https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2021/03/28/ataque-a-catedral-na-indonesia-foi-atentado-suicida/232331/


 


 


 

11/03/2021

Atentados em Espanha - 15 anos depois

Estavamos na manhã de 11 de março de 2004. Três dias depois, realizar-se-iam as eleições gerais espanholas. Tinha passado ainda pouco tempo desde o 11 de setembro e todas as ameaças eram tidas em conta e colocavam-nos em alerta. Em Portugal, ainda havia calma e uma certa tranquilidade, mas o facto de se darem ataques em Espanha e França, mexia bastante com o nosso sossego. Nesse dia, há 15 anos, a paz foi abalada por uma série de explosões em estações de comboio que lançaram o pânico.


Destas explosões resultaram 193 mortos e 2 050 feridos. As explosões ocorreram entre as 7h39m e as 7h42m da manhã nas estações de Atocha (onde deflagraram três bombas), El Pozo de Tío Raimundo (onde rebentaram duas bombas), Santa Eugenia (onde  rebentou uma bomba) e num comboio a caminho de Atocha (onde explodiram 4 engenhos explosivos). As forças de segurança encontraram mais três bombas, que segundo o ministro do Interior Ángel Acebes, estariam preparadas para explodir quando chegassem os primeiros socorros às vítimas.


Segundo as investigações decorrentes, os ataques terão sido cometidos por uma célula terrorista inspirada na Al-Qaeda, apesar de não se ter provado nenhuma participação direta do grupo extremista. Os explosivos terão sido vendidos por mineiros espanhóis, que foram entretando detidos.


Apesar de se ter inicialmente culpado a organização separatista basca Euskadi Ta Askatasuna - ETA, pelos ataques, veio depois a ser feita a ligação com a intervenção espanhola na Guerra do Iraque. Por outro lado, investigações posteriores vieram indicar que os atentados de 11 de março de 2004, foram idealizados em Karachi no final de 2001 como vingança pelo desmantelamento da célula que a Al Qaeda tinha estabelecido sete anos antes na Espanha, um grupo batizado de Abu Dahdah em alusão ao que foi seu líder desde 1995. 


Os atentados foram os piores ataques terroristas da história espanhola e da Europa. Foi o ataque que mais mortes causou no continente europeu desde o Atentado de Lockerbie, no Reino Unido, em 1988. 


Estes atentados têm características em comum com outros atentados da Al Qaeda e nessa mesma tarde do dia 11 de Março foi encontrada, na região de Madrid, uma cassete com orações em árabe numa carrinha com detonadores.


Ao seguir as pistas, a polícia conseguiu encontrar um imóvel no qual ao serem confrontados, sete dos terroristas que lá estavam, se suicidaram, detonando bombas e matando também um dos polícias. Nos destroços foi encontrado um vídeo contendo ameaças de novos ataques, que aconteceriam na Semana Santa.


Só em agosto de 2007, a Al-Qaeda declarou estar orgulhosa dos atentados realizados em Madrid.


O julgamento dos culpados, só se deu depois de 25 meses de investigações. Entre os principais condenados estão Jamal Zougam - que somou 42917 anos de prisão pela participação direta nos atentados - e o ex-mineiro José Emilio Suárez Trashorras, sentenciado a 34715 anos de prisão. Porém, o Código Penal espanhol prevê pena máxima apenas 30 anos. No decurso das investigações, fcou comprovado o envolvimento do GICM (Grupo Islâmico Combatente Marroquino), formado por combatentes veteranos do Afeganistão financiados por Bin Laden. A participação do ETA foi descartada.


Na estação de Atocha foi erguido em 2007, um monumento em homenagem às vítimas do 11 de Março. O edifício de aspecto futurista com onze metros de altura tem uma forma cilíndrica, sendo todo envidraçado o que lhe dá uma aparência translúcida. Segundo os seus autores o objectivo é que o monumento seja um“espaço imaterial de luz e silêncio. No interior do edifício e ao longo das paredes é possível ler as várias mensagens, deixadas há três anos na estação de Atocha, em homenagem às vítimas. Estes pequenos textos estão escritos em várias línguas e vão subindo em círculo ao longo da estrutura de vidro, que alterará as tonalidades de cor, consoante a luz exterior for mudando.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Atentados_de_11_de_mar%C3%A7o_de_2004_em_Madrid


https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/terror-na-espanha-atentado-de-11-de-marco-completa-cinco-anos.htm


https://expresso.pt/actualidade/monumento-de-homenagem-as-vitimas-do-11m=f108995


 


 

08/03/2021

Dia da Mulher

Eu sou mulher e ter um dia que nos é dedicado a nós, faz-me muito orgulhosa. Mas eu nunca fiz nada para merecer este dia. Sou apenas eu, mãe e trabalhadora, que faço o que posso, mas nada de excecional.


Mas na minha vida tive e tenho mulheres excecionais. A minha mãe que já me deixou foi uma delas, uma lutadora até ao fim, sempre de cabeça erguida enfrentava o mundo. A mãe que nos trazia sempre limpas, arranjadas, mas que nos deixava brincar na terra, apanhar caracóis de chinelos e chegar a casa cheias de picos, ou subir às figueiras para roubar figos na Fonte de Carvalho. Que às 07h da manhã nos levava ainda ensonadas para a cozinha da Santa Casa, para ir trabalhar. A mãe que me levava à noite para o carnaval, que me ensinou como "sobreviver" à confusão e a amar aquela festa, desfilando comigo e com a minha irmã nos primeiros anos, na escola de samba "Juventude na Baía". Que me mostrou que podemos mentir mas só no dia das mentiras, que podemos fazer badalos no carnaval e colocar espuma de barbear em todos os carros da rua (incluindo no do meu pai, para os vizinhos não desconfiarem). Ainda me viu entrar para o meu curso, que sempre apoiou, mas que já não me viu completar o 1º ano, nem nunca chegou a andar de carro comigo. Na verdade, a minha primeira viagem a conduzir de carta acabadinha de tirar foi de minha casa para o IPO e nas (poucas) semanas seguintes era assim que treinava a condução, no carro do meu pai ou do meu tio, vingando "sozinha" nas rotundas de Lisboa, na auto estrada - nunca fui medrosa a conduzir.


Dela herdou a minha irmã muitas caraterísticas e por isso a admiro todos os dias mais, por estar sempre, sempre, pronta a ajudar. Mesmo nos piores momentos, levanta-se e parece um furacão enfrentando tudo e todos. Quase telepaticamente, dou-me a pensar em ligar para ela e está o telemóvel a tocar. Independente muito cedo, tal como eu, fez da raiva e da tristeza força, uma força imensa que leva tudo à frente se preciso for. E que me deu as meninas mais lindas do mundo que amo como se fossem minhas tanto como amo o meu filho.


E a minha avó, sem a qual nada disto teria sido possível. Pois foi ela que lutou com unhas e dentes por salvar os filhos e a si mesma, dando-lhes uma vida melhor, que enfrentou todos e depois, nos deu a nós tudo. A minha avó esteve sempre lá, a perda da sua menina fez-la sofrer até hoje e deixou marcas muito profundas, mas é aquela avó a quem recorremos quando precisamos de alguma coisa, que nos dá tanto sem "mostrar" que dá. 


A avó onde ficavamos o verão todo para podermos ir para a praia com os nossos primos e os nossos amigos. Que me deixava ler aqueles livros que estavam nas prateleiras e que ainda não eram para a minha idade. E que ensinou a ler, a escrever, a contar, somar multiplicar, dividir. Que me ia todos os dias levar o lanchinho ao portão da escola, a casa de quem eu ia almoçar e depois lanchar e às vezes onde eu ficava também para jantar ou dormir. 


Estas foram as mulheres que mais me influenciaram no meu crescimento. As que tenho em mente sempre que tenho de fazer uma escolha. As que moldaram a minha personalidade.

Numa praça de gente madura

Hoje, numa " praça de gente madura ", o povo saiu à rua. Não foram pôr cravos nas lapelas, nem nas espingardas dos militares, como...