Esta manhã mais uma mensagem sobre uma menina de 16 anos, dada como desaparecida desde ontem, na zona do Porto, era partilhada no Facebook e noutras redes sociais. Vai e volta, aparecem estas mensagens, apelos aflitos de pais e de amigos que não sabem o que fazer. Neste caso, infelizmente, acabaram por encontrar hoje o corpo de Amélie Bastos, que tinha apenas 16 anos. Suspeita-se, de acordo com informações dadas pelos pais que a jovem se terá suicidado. Fiquei sem palavras, mas de repente pensei que não nos podemos calar. Quantos jovens, passam por nós, lidam conosco e não damos conta do seu sofrimento?
Segundo nos relata o jornal Observador , a mãe afirmou nas redes sociais que a filha corria "risco de suicídio, está há um ano em tratamento psiquiátrico de depressão. Levou todos os medicamentos, incluindo todos os calmantes que lhe receitaram para tomar só em caso de emergência. Deixou a chave de casa em casa, que não é costume. Despediu-se de mim de manhã de uma forma especial e tem o telemóvel desligado desde ontem à noite”. Horas depois, a mochila pertencente a Amélie, apareceu numa esplanada na zona da Foz, o que fez com que os meios fossem direcionados para aquela zona. Populares também se juntaram às operações. A Polícia Marítima "confirmou que na praia dos Ingleses, uns metros ao lado, foram encontradas no mar, perto da zona de rebentação, uma camisola e um casaco pretos". Mais tarde,, a Polícia Marítima confirmou que "o corpo de Amélie foi encontrado na mesma praia."
Tal como refere Marta Rebelo, num artigo brilhante na revista Visão em que aborda esta problemática dando o seu próprio testemunho, há uma "ausência de intervenção preventiva para enfrentar um problema de saúde pública – só 38 países têm planos nacionais de prevenção do suicídio, segundo a Organização Mundial de Saúde."
Muitos fatores podem contribuir para o aumento das tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes, entre eles o aumento da depressão na adolescência (especialmente em meninas), aumento das prescrições de opioides para os pais, exposição a taxas crescentes de suicídio entre adultos em seu círculo, relacionamentos conflituosos com os pais e estresse acadêmico.
As tentativas de suicídio frequentemente envolvem pelo menos alguma ambivalência quanto ao desejo de morte e podem ser um pedido de ajuda. Podem ser despoletados por situações de stress em crianças que já tenham um distúrbio da saúde mental. Caraterísticamente, crianças com risco de suicídio podem estar deprimidas ou ansiosas, retraídas das suas atividades, podem conversar sobre assuntos relacionados à morte ou alterar seu comportamento subitamente.
Um outro aspeto que devemos todos compreender é que tanto os familiares como os amigos devem levar todas as ameaças ou tentativas de suicídio a sério. O encaminhamento precoce é fundamental, para que os profissionais de saúde tentem determinar quão grave é o risco de suicídio. Em alguns casos, o tratamento pode envolver hospitalização, medicamentos para tratar outros distúrbios de saúde mental e terapia individual e para a família.
O comportamento suicida às vezes resulta quando uma criança imita as ações de terceiros. Suicídios amplamente cobertos pela comunicação social, por exemplo, como os de celebridades, são com frequência seguidos de outros suicídios ou tentativas de suicídio. De maneira similar, suicídios por imitação às vezes acontecem em escolas. Pais, médicos, professores e amigos podem estar numa posição que lhes permita identificar as crianças que podem tentar o suicídio, em particular aquelas que tiveram uma recente mudança de comportamento. Crianças mais velhas e adolescentes com frequência confiam somente nos seus pares, que devem ser veementemente encorajados a não guardar segredos que possam conduzir à morte trágica da criança suicida. As crianças que exprimem abertamente pensamentos de suicídio (como “quem me dera nunca ter nascido” ou “gostaria de dormir e nunca mais acordar”) estão sob risco, da mesma forma que crianças com sinais mais sutis, como retraimento social, retrocesso escolar ou abrir mão de objetos preferidos.
O número de jovens que tenta o suicídio é muito maior do que o daqueles que o realmente concretizam. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças forneceram recentemente informações sobre tendências crescentes de suicídio em vários grupos e períodos de tempo:
No caso das meninas (10 a 14 anos de idade), a taxa global de suicídio aumentou de 0,5% em 1999 para 2% em 2019.
No caso dos meninos (10 a 14 anos de idade), a taxa global de suicídio aumentou de 1,9% em 1999 para 3,1% em 2019.
O suicídio é mais provável em famílias nas quais transtornos do humor são comuns, especialmente caso haja um histórico familiar de suicídio ou outros comportamentos violentos.
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