29/01/2026

Depois da tempestade...

... poderia vir a bonança, mas a chuva continua a cair com intensidade e o vento, embora menos forte, continua a fazer estragos. As notícias, que ontem já eram alarmantes e nos davam conta da tragédia que o país estava a viver, mostram-nos hoje que os danos são bem maiores do que inicialmente se previa.

As regiões de Leiria, da Batalha, de Santarém e de Coimbra ficaram praticamente destruídas. Os distritos de Castelo Branco e de Portalegre também sofreram fortes danos. Os rios estão na capacidade máxima e começam a ser abertas as comportas para se libertar os rios da grande pressão a que as barragens estão sujeitas - não se quer que rebentem, então há que as ir escoando. Isto levou a agravar a situação em alguns municípios, como foi o caso de Alcácer do Sal, onde o "Rio Sado acabou por galgar o muro de suporte na frente ribeirinha."

Na zona da Marinha Grande, fortemente atingida por este corredor de tempestades, está a ser feita uma recolha de "mantas e cobertores (em bom estado) para apoiar as pessoas desalojados, após a passagem da depressão Kristin," de forma a salvaguardar algum conforto a quem teve de sair de casa. A autarquia ativou ainda um "Gabinete de Apoio Social para apoiar quem possa estar a sentir dificuldades devido à Tempestade Kristin." Muitas outras câmaras formaram gabinbetes de crise em que se uniram esforços para socorrer quem precisava. E os pedidos des ajuda não pararam ainda de chegar!

Além da destruição direta causada pela tempestade, há agora problemas derivados da afetação dos cabos de linha elétrica e de redes de comunicações. Pelo país são vários os Centros de saúde que se encontram encerrados por não haver eletricidade, o mesmo estando a acontecer com farmácias, escolas, estações de correio, entre outros serviços. Então, parece que pouco se aprendeu com o apagão. Nos serviços municipais, continuam a faltar geradores e, não há água corrente em diversas aldeias e cidades do nosso território. Mais de 24 horas depois da tempestade, ainda há zonas completamente isoladas. Por volta das 6h de ontem, dia 28, havia ainda "cerca de um milhão os clientes da E-Redes sem energia eléctrica em Portugal continental, a maioria nos distritos de Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Leiria, Santarém e Setúbal." As falhas de eletricidade levaram também a falhas nos "abastecimento de água" e no "acesso a telecomunicações." Segundo a E-Redes, só no "distrito de Leiria, o mais afetado pela passagem da depressão Kristin," havia esta manhã, dia 29, cerca "de 260 mil clientes afetados" levando a que fosse ativado o "estado de emergência", tendo a empresa instalado naquela zona "30 geradores e estando a ser mobilizados mais cerca de 200." Foram identificados pelos técnicos da E-Redes, "450 postes de Alta e Média Tensão partidos ou danificados, assim como 24 subestações afetadas, das quais oito permaneciam por ligar, estando as dificuldades de acesso a condicionar a identificação total dos danos e a sua reparação."

No caso de Leiria, algumas habitações começava a ter eletricidade, esta manhã, "mas apenas estão a beneficiar das estações móveis ligadas aos postos de transformação que a E-Redes está a instalar junto das "infraestruturas nevrálgicas", como são os "quartéis de bombeiros, hospital ou centros de saúde." Nesta zona, há ainda a lamentar a destruição do pinhal de Leiria, do "terminal de autocarros," do "estádio municipal Dr. Magalhães Pessoa" e também de uma parte do "Santuário de Nossa Senhora da Encarnação." Em Fátima, o Santuário também teve danos significativos." Em Figueiró dos Vinhos, "cerca de 120 agregados familiares sofreram estragos nos telhados das suas habitações, o que poderá levar a autarquia a proceder a realojamentos" e a "mata municipal do Cabeço do Peão," também ficou com danos que tão cedo serão irreparáveis.

Em Gondomar, devido à subida do rio Sousa, uma equipa da Guarda Nacional Republicana, em colaboração com a "Proteção Civil" e com a "Polícia Municipal de Gondomar", ajudaram a "retirar 25 cães de instalações na freguesia de Covelo." Os animais foram postos em segurança.

Os presidentes de junta têm de ir aos quartéis pedir para usar telefones de satélite, quando os há para pedir ajuda. Não estamos preparados. As nossas câmaras estão muito fracas ao nível da proteção civil e não digo que a culpa seja de quem lá está, neste momento, mas culpo sim a falta de preparação e de antecipação. Continuem a fazer simulacros em que está tudo avisado e sai tudo muito bonito e ão vejam o que pode realmente acontecer.

Temos no terreno em apoio direto à população milhares de meios - esses não costumam falhar e trabalham com os parcos recursos que têm - da cruz vermelha e dos bombeiros. Acrescentem-se os homens e mulheres do exército, da GNR, da PSP, das associações de proteção aos animais e muitas mais - eles estão lá a ajudar, a trabalhar diariamente, muitas vezes muito além das suas capacidades. E os grupos de proteção civil pertencentes aos municípios também estão no terreno, funcionários das câmaras municipais, das juntas de freguesia e populares que se uniram para cuidar dos seus, para limpar as ruas, reconstruir telhados... mas não chega! É preciso reforçar as zonas mais atingidas. Foi declarado Estado de Calamidade, o que significa que estão previstos "limites ou condicionamentos à circulação e a fixação de cercas sanitárias. Quem desobedecer, poderá mesmo incorrer num crime." Agora os recursos têm de ser direccionados para as regiões que mais precisam.

Digo só, só tivemos cinco vítimas mortais (as confirmadas até agora), mas porque aconteceu durante a noite e, nisso funcionou muito bem, houve dezenas de alertas às populações, avisos por mensagem ou nas televisões, jornais e rádios. Toda a imprensa se mobilizou e, desta vez, até foi pior do que fizeram crer. Mas as pessoas ficaram em casa - na sua maioria - cumpriram o que lhes era pedido, prepararam-se. O fenómeno é que foi bem mais forte do que nós achavamos que seria possível de atingir o nosso país. Não estamos acostumados, mas temos de nos mentalizar que este tipo de fenómenos vai começar a ser cada vez mais frequente.

Já aqui tinha deixado, num post anterior, referência a muitos dos danos causados pela Ingrid. Muitas pessoas acordaram com o barulho de telhas a cair e de vidros a partirem-se. Logo o vento e a chuva começaram a entrar também dentro das habitações. A destruição, em muitas casas, não foi apenas exterior. Algumas das árvores que caíram, derrubaram chaminés, varandas, rasgaram telhados e abriram fendas nas paredes das casas. Outras esmagaram viaturas como se fossem folhas de papel. Ontem estava a ouvir na rádio, o autarca da Batalha e fiquei de coração apertado. Além dos seis desalojados, muitas casas acabaram por sofrer danos. Descreve um cenário desolador, com centenas de árvores e de poste caídos, havendo ainda "danos significativos" em vários edifícios industriais e "até num pavilhão desportivo." Tal como noutras regiões, também ali a rede SIRESP deixou de funcionar e o autarca precisou de se deslocar até Ourém para pedir auxílio.

Lembro-me da grande tempestade de 1941 (não me lembro, não era nascida, mas ouvi falar dele muitas vezes e tenho vindo a pesquisar sobre os seus efeitos), um ciclone que atingiu o nosso país. Neste caso, o fenómeno "teve origem numa vasta depressão centrada a oeste da Irlanda mas abrangendo a sua influência à Europa Ocidental e a Península Ibérica," provocando elevados estragos numa "vasta área de Portugal e metade do Noroeste da Península Ibérica." No caso do ciclone de 1941, sabe-se que as "tempestuosas velocidades de vento (de nascente) observadas" decorreram da "conjugação de forte actividade ciclogénica com a aproximação e passagem de uma superfície frontal fria." No caso que se passou esta semana, não foi considerado um ciclone, mas sim um "comboio" de tempestades: depois das depressões Ingrid e Joseph, chegou a mais forte de todas, a Kristin. 

Em 1941, houve um "elevado número de vítimas mortais, superior a uma centena, e o número indefinido de feridos. Muitas das vítimas mortais, em especial, em Lisboa, Alhandra, Sesimbra, Alhos Vedros terão sido por afogamento devido a inundações que ocorreram nas áreas ribeirinhas." Felizmente, agora isso não ocorreu e, penso eu, por dois motivos: a população estava avisada e as casas são agora mais resistentes a este tipo de intempéries do que eram naquela altura.

 

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclone_de_1941

https://www.publico.pt/2026/01/28/azul/noticia/kristin-deixou-tras-cinco-vitimas-mortais-rasto-destruicao-2162842

https://www.jn.pt/pais/artigo/seis-desalojados-na-batalha-e-rede-siresp-deixou-de-funcionar-devido-ao-mau-tempo/18045868

https://sicnoticias.pt/meteorologia/2026-01-29-video-inundacoes-em-alcacer-do-sal-algumas-zonas-tem-um-metro-de-agua-e-situacao-pode-agravar-se--abec9ff6

https://sicnoticias.pt/meteorologia/2026-01-29-depressao-kristin-deixa-rasto-de-destruicao-beb621d0

 

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