Ontem, a grande maioria dos portugueses foi surpreendida por uma falha de energia elétrica. O que nos primeiros minutos se pensou ser algo mais localizado, era de facto uma falha que atingia também Espanha e uma zona de França. Não atingiu toda a Europa como ainda se chegou a ouvir. Aliás, durante o dia de ontem (e hoje ainda mais, pois hoje é que as pessoas foram regressando às redes) tem sido divulgada muita informação duvidosa. E se numas vezes, pode ser mesmo por desconhecimento e por tentativa de encontrar uma causa para esta situação, noutras terá mesmo sido divulgada informação falsa com a intenção de lançar o caos e de prejudicar os envolvidos. Nem uma nem outra coisa deveriam ter sido feitas e era bom que se encontrassem os responsáveis por começarem a lançar teorias da conspiração através (não apenas, mas principalmente) na Internet.
No meio disto tudo, e apesar de em algumas regiões do país a eletricidade ter regressado ao final da tarde, muitas pessoas acabaram por estar sem luz, sem comunicações e sem água até perto das 23h00 (sendo que nalgumas regiões a situação só se restabeleceu pela manhã de hoje).
A falha de eletricidade num país vai afetar, não apenas o consumidor final desse tipo de energia, como também outros sistemas que dependem de eletricidade para funcionar, como é caso do fornecimento de água, cujas bombas são elétricas, e o caso das torres de telemóveis, que ao longo do dia foram ficando sem sinal.
O que nunca nos abandonou foi a rádio. Neste dia, muitas das rádios estiveram em transmissão ininterrupta, trabalhando para encontrar e transmitir à população o máximo de informação possível. Mesmo com as dificuldades de filtragem de toda a informação, a rádio acabou por prestar um excelente serviço à comunidade - tenham sido as rádios nacionais, tenham sido as rádios locais.
Não vou divagar muito sobre este tema, uma vez que acho que, apesar de ser muito importante, está a ser, erradamente, aproveitado para se fazer campanha política. Acho, no entanto, que devo dar os parabéns àqueles profissionais que, mais uma vez, continuaram a trabalhar para que a situação regressasse à normalidade o mais rapidamente possível. E um destaque para os funcionários dos supermercados: parabéns pela vossa paciência, para aturar coisas que não lembra a ninguém.
A nossa sociedade continua a não estar preparada para eventos destes. A marioria das pessoas não sabia o que fazer, não estava organizada com a família para que fossem tomadas decisões assertivas. Dou um exemplo que aconteceu com algumas famílias. Por não conseguirem encontrar transporte, muitas pessoas entraram em pânico por não conseguirem contatar com ninguém para o filho ou a filha serem recolhidos da escola, ou da creche. Foram vários casos destes que aconteceram e, claro, é natural que se fique ansioso, mas tem de haver um plano familiar pré-definido que, nestes casos, possa ser executado. As creches, Jardins de Infância e escolas de 1º ciclo e 2º ciclo, não poem crianças sozinhas no meio da rua e mesmo nas escolas em que os alunos são mais velhos, a ordem foi para só se deixar sair aqueles alunos que, já nos outros dias, saem sozinhos.
O que eu senti, e que entendo perfeitamente, foi a necessidade das pessoas resolverem a sua própria situação no imediato, numa impaciência motivada talvez pela falta de comunicação das entidades competentes. Mas temos de nos lembrar que, no decorrer destas horas, muitas das pessoas ligadas às entidades competentes estavam a gerir situações. E essa gestão, feita de acordo com procedimentos organizados, tem ordens de prioridades e obedece a tempos que muitas vezes não são os mesmos que a cada um de nós poderia interessar.
De acordo com informação do "operador de rede de distribuição de eletricidade E-Redes", a meia noite estariam já "ligadas parcialmente 424 subestações," o que dava para fornecer energia a cerca de 6,2 milhões de clientes" dos 6.5 milhões de consumidores.
Não acho, porém, que tenha sido um bom dia. Houve situações graves que podiam ter corrido muito mal e se, ainda, não temos registos de mortos, foi porque no meio do possível caos que se começou a fazer sentir, houve algumas pessoas que usaram uma capacidade que se chama resiliência, enquanto outras usavam o "chico-espertismo." Por favor, isto não foi nada bom, podia ter sido bem pior. Agora que já passou, podemos refletir - a nível pessoal e familiar, o que correu bem ou mal, o que podia ter sido feito de outra forma e, claro, a nível comunitário, encontrando não tanto soluções, mas caminhos.
Este apagão acabou por levar ao encerramentos dos aeroportos, ao "congestionamento nos transportes e no trânsito nas grandes cidades," ao encerramento de lojas e serviços e à "falta de combustíveis," e de ter sido até considerado como um dos mais graves a acontecer na Europa nos últimos anos. Para muitos, foi um incómodo, um dia diferente que nos surpreendeu e transtornou, mas para algumas pessoas, foi mesmo uma situação de uma gravidade extrema, principalmente naqueles casos em que a presença de uma tomada elétrica pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
Foi o caso de doentes que necessitam de dispositivos como ventiladores, bipap, cipap ou outros (apesar de haver baterias, por vezes, as pessoas esquecem-se de as carregar e de ter baterias extra caso aquelas se tenham de gastar até ao fim ou avariem), ou podem sofrer um agravamento da sua situação devido ao stress causado pela falha elétrica em si. Outros casos bastante graves - as pessoas que ficaram retidas em comboios, elétricos e elevadores (felizmente a falha começou às 11h30 porque se fosse na hora de ponta em que os transportes vão completamente apinhados, acredito que aí sim a situação teria sido bem pior), as que estavam em veículos suspensos (teleféricos) ou em gruas e estruturas elevatórias. Muitos destes sistemas funcionam a eletricidade e, apesar de terem sistemas de descida redundantes (por exemplo, manuais) ou hidráulicos.
Esperemos que uma situação destas não se volte a repetir, mas que esta tenha servido de aprendizagem para muitas pessoas. Principalmente no que se refere à prevenção.
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