08/01/2025

Charlie Hebdo - 10 anos depois, o que mudou?

Fez ontem 10 anos que o mundo olhou em choque para as imagens de uma redação de um jornal francês a ser atacado. O ataque "matou 12 pessoas nas instalações do jornal satírico francês Charlie Hebdo," dos quais "oito membros da redação."


O tempo passa quase sem darmos por isso e, neste caso, foi ontem ter visto algumas publicações que me direccionavam para a frase "Je suis Charlie" que me fez lembrar o ataque. Nesse dia, lembro-me que estava a trabalhar e que me senti revoltada com a situação. Não tinha sido aqui, nem perto de ninguém conhecido, mas fez-me pensar que estamos expostos a uma catrefada de doidos que por aí andam. Felizmente, o nosso cantinho ainda está protegido.... diziam alguns. Não me parece que estivesse na altura ou que esteja agora. Só que nós não temos nenhum jornal que arrisque publicar uma fotografia de um profeta em poses mais eróticas. Arriscou algo parecido Gil Vicente, pondo a nú muitos dos celeumas sociais da época, incluindo uma clara imagem da devassidão do clero da época...mas depois dele, poucos o terão feito.


O movimento de apoio sob o lema "Je suis Charlie", encheu as redes sociais e preencheu capas de jornais, acabando por correr mundo. Se algo de positivo podemos tirar desta memória triste, é que nos fez falar sobre a liberdade de expressão. 10 anos volvidos, será que ainda há medo?


A 7 de janeiro, dois irmãos franceses de origem argelina, entraram "de kalashnikov em punho," dando início a "três dias de horror na região de Paris, que terminaram com a morte de 17 inocentes," (12 neste ataque e, outros cinco, num outro ataque no dia seguinte). Ficaram ainda feridas 11 pessoas, cinco das quais com gravidade. Os irmãos "Kouachi," terão reagido perante a publicação "de uma representação caricaturada do profeta Maomé," a qual foi considerada ofensiva para muitos muçulmanos. Um desenho que, no entender de muitos muçulmanos, era um insulto direccionado ao seu profeta e à própria religião.


No mesmo dia, um outro muçulmano de nacionalidade francesa, e que estaria "ligado aos atacantes do jornal," atacou um polícia na região de Montrouge. No dia seguinte, o mesmo indivíduo "invadiu um supermercado kasher perto de Porte de Vincennes," tendo assassinado quatro dos reféns que ali fez. "Este novo ataque" só "terminou após a invasão do estabelecimento pela polícia francesa." Esta não tinha sido a primeira publicação a despertar o ódio contra os cartoonistas deste jornal. Em 2011, a capa de uma das suas edições, com o título "Charia Hebdo, mostrava uma caricatura do profeta islâmico Maomé," o que resultou num ataque à bomba às instalações do jornal.


Apesar disto, em 2012, o jornal voltou a mostrar que uma caricatura é uma forma de crítica, apresentando "uma série de caricaturas de Maomé, incluindo caricaturas de nudez," no seguimento de "uma série de ataques contra as embaixadas dos Estados Unidos no Oriente Médio, supostamente em resposta ao filme anti-islâmico Innocence of Muslims." Estes ataques tinham levado "o governo francês a fechar embaixadas, consulados, centros culturais e escolas internacionais em cerca de 20 países de maioria muçulmana." A publicação tentava mostrar que, as ameaças iniciadas por uma religião, faziam um país como a França, encerrar a sua presença nesses países, cedendo de certa forma, às ameaças.


Charb, que seria depois um dos principais alvos no massacre de 2015, estaria desde 2013 "na lista dos mais procurados pela Al-Qaeda, juntamente com três funcionários do Jyllands-Posten: Kurt Westergaard, Carsten Juste e Flemming Rose." Mesmo com conhecimento desta situação e de haver uma atenção redobrada sobre estas publicações ("Charlie Hebdo", em França e "Jyllands-Posten", na Dinamarca), as autoridades não foram capazes de intercetar o ataque.


A 8 de janeiro, era mostrada na capa, uma caricatura da autoria de "Michel Houellebecq," acompanhado de um dos desenhos de Charb que, nessa mesma edição, ilustrava a frase "Ainda nenhum ataque terrorista na França."


Apesar do ocorrido, o jornal parisiense não cedeu e continua o seu trabalho tendo mesmo sido feito um concurso no final de 2024 para que os cartoonistas ilustrassem o tema: "Rir de Deus", mostrando através do seu trabalho, a sua "cólera perante o controlo que todas as religiões exercem sobre as suas liberdades". 


E por cá? Somos um Estado laico, (o mesmo princípio foi "consagrado na legislação francesa em 1905, e em 1945 passou a fazer parte da Constituição), mas ainda há muito medo em nos manifestarmos contra a religião (mas se for a favor, está tudo bem). Ainda temos um país em que anda o "credo" na boca do povo e em que a religião católica faz gastar milhões ao país. Somos verdadeiramente livres ou, teremos afinal, medo de dizer o que pensamos sobre os tantos deuses e profetas que por aí andam?


Fontes:


https://pt.euronews.com/2025/01/06/ataque-ao-charlie-hebdo-foi-ha-dez-anos


https://pt.euronews.com/2015/02/07/charile-hebdo-franca-nao-esquece-vitimas-dos-atentados


https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ataque-terrorista-ao-jornal-satirico-charlie-hebdo-foi-ha-dez-anos_a1625741


https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_Charlie_Hebdo

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