Ao tocar as badaladas do novo ano, não senti que tivesse havido uma mudança. Não saí de casa, apenas espreitámos da janela o fogo de artifício, mas o sentimento era de angústia.
Este ano, apenas pedi saúde, mesmo sabendo que o ritual é uma estupidez, mas não quis arriscar a perder uma oportunidade de pedir saúde, mesmo que seja a mim mesma. As mudanças partem em primeiro lugar de nós mesmos e não de milagres.
Mas tal como previra, o novo ano, não trouxe milagres. Terminados os festejos do Natal e do Ano novo, o balanço é trágico. Basta olharmos como estão os hospitais.
À porta, há pessoas idosas, que continuam a ser abandonadas pelos seus na época festiva. Não é novidade que nos dias antes do Natal há um acréscimo de velhos doentes, que são deixados nas urgências para que a família passe a quadra sem o trabalho que dá a sua presença. Vão depois buscá-los uns dias depois da passagem de ano. Assisti a diversas situações dessas na primeira pessoa quando trabalhava como socorrista. Alguns diziam descaradamente que essa era a sua intenção, como se não percebessemos que os estavam a abandonar. Era vê-los arrancar com o carro já carregado de malas para irem passar o natal ou o ano novo a qualquer lado, enquanto nós levamos o seu ente para a urgência. O Covid não veio mudar isso... as pessoas só fingem que estão melhores, mas no fundo, continua a desumanidade.
Este ano, vêm-se nas salas de espera onde as máquinas de comida não são abastecidas, à espera que alguém os vá buscar ou, pelo menos, que lhes leve uma sopa. O ser humano é assim mesmo. Miserável.
Um homem, seus 80 anos, agarra a porta do carro de uma mulher e abre-a, tentando sentar-se no lugar do pendura, pedindo que o leve a casa, por favor, que "se esqueceram dele ali". A pandemia não justifica a miséria humana, a falta de amor ao próximo. A família, que reza ao jantar de Natal e reclama por ter de estar agora confinada, ou sem trabalhar, é a mesma que sobrecarrega os serviços hospitalares com o abandono dos seus, enquanto outros morrem dentro da célula sanitária de uma ambulância sem chegar a dar entrada no hospital por falta de espaço.
E não acredito que as coisas vão melhorar nos próximos tempos. Mesmo com as vacinas, vendo aquilo que nós estamos a ver na comunicação social, ainda há tanto a fazer. Mas o amor ao próximo não vem numa vacina!
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