09/05/2020

As seitas, os chalupas e as fachadas para redes de pedofilia

"Há registos que apontam para a existência de mais de 10 mil cultos, seitas e religiões espalhadas pelo mundo."


Ana Saldanha, escreveu um belíssimo artigo no GQ que discrimina algumas destas seitas: o Raelianismo (ufológicos) que acreditam na existência de extraterrestres;  a Ordem do Templo Solar, que previa um apocalipse em que apenas uma elite iria  sobreviver, sendo transportada para a estrela Sírius; a Cientologia - que até tem estatuto de religião em vários países, incluindo Portugal, mas que a maioria dos países europeus considera uma seita - baseia-se na ideia de que as pessoas são seres imortais que se esqueceram da sua natureza e que, para alcançar essa imortalidade e outras habilidades sobre-humanas, devem fazer uma reabilitação psiquiátrica espiritual.


E muitas mais... que levaram a terríveis acontecimentos, como suicídios em massa, assassinatos de bebés e de crianças e outros crimes, alguns dos quais se tornaram conhecidos ao longo dos tempos.


O Tempo do Povo é apenas um dos exemplos, do qual Ana Saldanha, também nos fala no seu artigo. É fundado em 1955 por Jim Jones no Indiana, mudando-se na década de 70, para a Califórnia onde estabeleceu vários locais de culto pelo estado, chegando a ter mais de 20 mil membros. "Jonestown" foi o nome dado à comunidade no Guiana, para onde se mudou com algumas centenas de seguidores em 1977. E foi aí onde se deu em em novembro de 1978, a assassinato de um grupo que tinha ido "investigar" algumas denúncias seguido de um "suicídio" em massa que levou à morte de 909 pessoas (centenas das quais crianças, que foram mortas pelos próprios pais). A loucura de um, levou à loucura coletiva de muitos. 900 eram suficientes para se imporem a um, mas a crença foi maior do que a vontade própria, numa fila para beber a mistura mortal e "ajudados" por soldados armados, para que não desistissem no último momento. O próprio líder foi encontrado morto com um tiro na cabeça, aparentemente autoinfligido.


Mas o que é que distingue uma seita e uma igreja, sendo que a maioria das seitas se autodenominam igrejas? No nosso país, esta distinção não acontece na lei. Quer o legislador constitucional, quer o legislador ordinário, no momento da elaboração da Lei da Liberdade Religiosa (Lei n.º 16/2001, de 22 de junho), não definem o que é religião, igreja, comunidade religiosa ou seita. A ideia original do que é uma seita surgiu no início do século XX, através de grupos de pessoas que discordavam das doutrinas defendidas pela Igreja Católica, expressando as suas ideias de forma metódica e inflexível e muitas interpretaram de modo inadequado e demasiado literal as várias doutrinas bíblicas, terminando em teorias da conspiração que ainda hoje pairam sobre o pluralismo religioso. Podemos ler no artigo da jornalista, Cláudia Pratas, no Observador: "sabemos que o homem é um ser que tem necessidade de se relacionar com o desconhecido, com o Divino e, por isso, muitos tentam aproveitar-se de forma danosa do vazio que existe no ser humano."


Para haver uma seita, há desde logo um líder: tem normalmente uma personalidade carismática e é dono de uma capacidade oratória superior à da maioria. Estes líderes, acabam por fascinar quem os ouve, mas apesar da sua aparente bonomia, rapidamente mostram a sua verdade, promovendo a desigualdade entre os membros, colocando-se a si mesmo no topo de uma hierarquia elitista, de falso paternalismo.


Estas seitas, na maioria das vezes, afastam as pessoas das suas famílias, retiram-lhes a sua identidade e constróem relações das quais elas não conseguem sair de forma livre. Deixam de ter direitos próprios, ao mesmo tempo que lhes é impingida a ideia de que todos os outros estão errados - as leis de um Estado, a sociedade capitalista, a ciência e os próprio sistema educativo e de saúde são postos em causa e são abolidos das suas vidas. As crianças deixam de ir à escola convencional, seguem um modelo educativo próprio com as suas próprias ideias. Impingem coisas tão chalupas como a teoria do Geocentrismo ou a teoria de que a Terra é plana.


Em Portugal, também existem seitas - embora algumas bem escondidas.


Em 2013, em Brejos do Assa, Palmela, um homem começou uma "seita": num "falso local de culto, de uma falsa seita religiosa, inventada por um falso psicólogo".Chegado à aldeia, Pedro foi a um café acompanhado da mulher e dos dois filhos pequenos. Foi a mulher dele quem os apresentou, através de uns cartões de visita que o identificavam como “psicólogo”. E foi assim que Pedro ficou conhecido pela vizinhança. As consultas e explicações eram a forma de atrair as crianças à sua quinta. Os pais confiavam-lhe os filhos sem suspeitarem do que ali se passava. Pedro até era de perto e a mulher também. Ele tinha experiência como treinador de futebol e conseguiu um lugar no Clube Desportivo de Algeruz, a treinar os Esferinhas.


Depois, para camuflar o esquema que tinha engendrado, Pedro de 34 anos, utilizando os seus conhecimentos enquanto Testemunha de Jeová, criou uma seita a que chamou “Verdade Celestial”. Segundo a PJ, elaborou um conjunto de regras, com categorias hierárquicas, e alegava ser ele o “mestre” — que por sua vez respondia a um mestre espanhol, de nome Pablo. O próprio Pedro terá abusado sexualmente de várias crianças e criado um negócio de pedofilia. A chamada "purificação" não era nada mais nada menos do que atos de cariz sexual. Pedro dava consultas de psicologia e explicações às crianças e aproveitava-se do facto de elas por vezes passarem a noite na quinta para trazer os clientes pedófilos até lá. Enquanto as crianças dormiam, eram sujeitas a abusos sexuais vários. Sempre sozinhas, para que os crimes não fossem testemunhados por outras crianças.


Em junho de 2015, após uma denúncia em que inicialmente nem os membros da PJ queriam acreditar, foi feita uma busca à quinta de onde foram recolhidos computadores, vestígios de sémen, papéis com regras e todas as provas que pudessem confirmar a história da testemunha que de lá tinha fugido. Seguiram-se horas de interrogatórios, de identificações das crianças, de cruzamento de provas — que incluíam chats na internet, vídeos, fotografias feitas na casa. O caso deixa-nos desde logo um alerta - desconfiar! Seriam os pais assim tão crédulos? Em 2017, o homem foi condenado a 23 anos de prisão no processo de crimes de abusos sexuais de oito crianças. Dos restantes sete arguidos, cinco (quatro homens e uma mulher) foram condenados a penas de prisão entre os sete e os 19 anos, enquanto outras duas mulheres foram absolvidas.


 


Fontes:


SALDANHA, Ana, in https://www.gqportugal.pt/loucos-de-fe-cultos-seitas-religioes


PRATAS, Cláudia Alves, in: https://observador.pt/opiniao/as-seitas-lobos-no-meio-das-ovelhas/


https://observador.pt/especiais/a-falsa-seita-que-abusava-de-criancas-em-palmela/


https://www.dn.pt/sociedade/pena-maxima-para-lider-da-seita-de-palmela-8980257.html


 

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