Foi necessária uma grande audácia e preparação para que no dia 3 de janeiro de 1969, dez presos se evadissem da Cadeia do Forte de Peniche.
Além de Álvaro Cunhal, fugiram também "Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues." Cunhal, estava "preso em Peniche" desde que a "27 de julho de 1956, deixou a Penitenciária de Lisboa."
José Alves, um dos guardas do Forte, estava também dentro do plano. Ao guarda, que era contra a existência de presos politicos e simpatizava com Ávaro Cunhal, foi prometido o valor de "150 contos e a saída para um país da cortina de ferro," com a sua "mulher e dois filhos menores." José Alves opta pela Roménia, "por lá se falar algo mais semelhante ao português."
Rogério Paulo, ator, já falecido, foi o responsável pelo sinal, parando "um carro com o porta-bagagens aberto em frente ao forte." Depois do guarda ter passado os fugitivos um a um debaixo do seu capote até uma figueira que lhes serviria de escada.
Depois do sinal, os "presos desceram um a um, por uma corda, as paredes da muralha," e depois de passarem pelo "fosso exterior, ainda" tiveram de saltar um muro. Depois de passarem o muro, dois carros esperavam pelos homens. Ao volante estavam Lindim Ramos e Carlos Plácido de Sousa. A fuga não corre como esperado, uma vez que o soldado da GNR "entra em pânico, larga a sua missão e começa ele próprio a descer pela corda, fazendo um barulho enorme com as botas a bater nas paredes da muralha." Quando chega à rua, desata a correr, com o intuito de se entregar," mas, perseguido por Joaquim Gomes, acaba por ser travado. Enfiam-no num carro onde já está Cunhal e para o sossegar dão-lhe a beber uma garrafa de vinho."
Apesar de tudo, a fuga acaba por ser considerada um "verdadeiro milagre, presenciado por moradores das casas de Peniche próximas ao forte."
Esta fuga "só foi possível graças a um planeamento muito rigoroso e uma grande coordenação entre o exterior e o interior da prisão", como se pode ler na inscrição oficial colocada no forte. Os caminhos foram todos estudados por um jovem militante de PCP, Adelino.
Com apenas 20 anos, Adelino entrou formalmente para o PCP e uma das primeiras coisas que o mandaram fazer, foi tirar "a carta de condução," o que fez em apenas quinze dias. Depois foi-lhe pedido que temporizasse distâncias e trajetos entre Peniche e Lisboa.
Coagida pela censura, só no dia 7 a imprensa publica a situação, mas sem referir nomes. Dois dias antes, o "diário francês L`Humanité, conhecedor da situação por um comunicado emitido pelo Partido Comunista Português," deu a notícia, ainda que de forma cautelosa: “Corre o rumor em Lisboa que uma dezena de prisioneiros políticos, entre os quais o secretário-geral do Partido Comunista clandestino, Álvaro Cunhal, ter-se-ão evadido da fortaleza de Peniche, onde estavam detidos." Nenhuma confirmação pôde até agora ser obtida das autoridades. Mas é um facto que a polícia efetuou buscas domiciliárias em Peniche, como nos arredores, nas últimas 48 horas”. A família do guarda Alves é "apertada" pela PIDE. A mulher e os cunhados ficam detidos por terem escondido o dinheiro recebido e não terem denunciado a situação, enquanto que José Alves, só em maio acaba por conseguir fugir para Espanha. É depois levado "para França e finalmente," faz "escala na Checoslováquia para chegar ao destino final: Bucareste. Irá ter a companhia da família em outubro do ano seguinte, quando Cunhal – que entretanto é efetivamente eleito secretário-geral do PCP (março de 1961) – já está a salvo na União Soviética.
Em Bucareste, a situação de Jorge Alves agrava-se devido ao consumo de álccol. Muitas vezes é "agressivo para Emília, a mulher, que se queixa ao controlador do partido comunista romeno. A situação assume tamanha gravidade que Cunhal vê-se forçado a ir a casa de Alves meter-lhe juízo," ameaçando que o separa da família. Em 1967, a família de Jorge Alves acaba mesmo por fugir para "uma outra localidade" romena e o guarda suicída-se "num jardim central de Bucareste."
Cunhal, acabou por ser recebido como recebido como herói, mas de quem o ajudou a escapar, pouco se soube. Muitas foram as críticas de que foi alvo, em particular da esposa do guarda Alves.
No bolso do casaco, Álvaro Cunhal levava um manuscrito "mas na precipitação da fuga perde parte dele. É um romance com o nome A Mulher do Lenço Negro – que após a revolução será publicado com o título Até Amanhã, Camaradas."
Fontes:
https://www.publico.pt/sociedade/interactivo/peniche-13-rostos
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