Vivia-se em Portugal um período de grande instabilidade política. A República tinha substituído a Monarquia, mas estava longe de ter o sucesso prometido. A crise política vivida entre 1920 e 1921, com "a nomeação de António Granjo como presidente do Ministério do 31.º Governo Republicano e a demissão" de Liberato Pinto "do cargo de Chefe de Estado-Maior da Guarda Nacional Republicana," terá levado à sublevação de um grupo de militares da GNR que se juntaram "ao movimento revoltoso" que envolvia também "vários militares do Exército e da Armada Portuguesa." Ensina-se história nas escolas, sem se falar nos acontecimentos que terão levado ao fracasso da 1ª República. Não se fala naqueles que foram figuras chave neste conturbado período, falando-se em vez disso, apenas da "Loucura dos anos 20," como se Portugal fosse um país de raíz cosmopolita, sem tensões internas.
O movimento, que ficou conhecido como "Noite Sangrenta," levou a que na madrugada de 19 para 20 de outubro de 1921, fossem "assassinados, entre outros, António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois dos históricos da Proclamação da República Portuguesa, o comandante Freitas da Silva, secretário do Ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, no Arsenal da Marinha."
Terão sido mais de mais de sete mil os militares da Guarda Nacional Republicana que "tomaram a Rotunda (atual Praça do Marquês de Pombal), o Parque Eduardo VII e o Terreiro do Paço, em Lisboa."
A Marinha Portuguesa, que também aderiu em força, "tomou o quartel de Alcântara e o Arsenal da Ribeira das Naus, posicionando ainda o couraçado Vasco da Gama e outros navios no rio Tejo, como forma de ameaça ao governo e persuasão para os vários movimentos de civis que se elevaram e se juntaram à causa." Da fragata Vasco da Gama, chega a resposta aos "três tiros de canhão disparados da Rotunda pela artilharia pesada da GNR." Dava-se assim início à revolta.
Um grupo composto por cerca de 300 cidadãos armados dirige-se "até ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda," para libertar José Júlio da Costa. "Os edifícios públicos, os centros de comunicações, os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos sublevados."
Nessa tarde, os revoltosos terão usado uma camioneta de caixa aberta (que ficaria conhecida como a camioneta fantasma) para irem recolher aqueles que consideravam ser traidores. Começam por ir a casa de Cunha Leal, "afecto ao Partido Democrático," onde sabem estar escondido António Granjo, Presidente do Conselho (atual Primeiro Ministro). Temendo pela vida do primeiro-ministro demissionário, o seu amigo Cunha Leal só aceita que ambos se entreguem quando lhes é dito que seriam levados para bordo do couraçado Vasco da Gama, onde ficariam "a salvo até um novo governo ser implementado e a paz restabelecida." No entanto, assim que chegam ao "Arsenal da Marinha," são recebidos com apupos e ameaças, acabando por ficar "sob a mira das armas de vários marinheiros, enquanto se dirigiam para a embarcação que os levaria ao Vasco da Gama."
Durante a confusão que se estabelece, os revoltosos acabam por levar a melhor sob aqueles que lhes tinham prometido proteção e sob gritos que clamam "a morte do ex-presidente do Ministério," vários tiros são disparados. António Granjo acaba por ser ferido por dois tiros no pescoço e Cunha Leal também é baleado. Devido aos ferimentos, são levados para uma enfermaria por "um pequeno grupo de marinheiros", que se opunham à execução dos dois políticos. No entanto, estes não são capazes de travar a entrada do "grupo de revoltosos" que à força queria terminar a sua missão. Conta-se que, ao ouvir a multidão, António Granjo saiu do quarto e enfrentou a turba, gritando "«Matem-me, que matam um bom republicano». Crivado por uma chuva de balas e ainda trespassando no ventre por um sabre de um corneteiro da GNR, faleceu." Francisco da Cunha Leal foi, logo após, "resgatado por alguns homens da Junta Militar, liderados pelo tenente Armando Agatão Lança," que o levaram para o hospital, onde acabaria por sobreviver.
José Carlos da Maia, "herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais," acabaria por ser outra das vítimas do grupo que fazia a recolha na Camioneta fantasma. Surpreendido em sua casa, Carlos da Maia inicialmente "não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados," que alegavam que o iriam levar "ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária." Carlos da Maia acabou por ser também assassinado.
Seguindo a sua viagem, não conseguem encontrar o ministro da Marinha, Pais Gomes, tendo em vez dele prendido o "seu secretário, o comandante Freitas da Silva, que caiu, crivado de balas, à porta do Arsenal. O velho coronel Botelho de Vasconcelos, um apoiante de Sidónio, foi igualmente fuzilado."
Por volta das duas da manhã, "a camioneta fantasma dirigiu-se à Rua José Estêvão, onde residia" o almirante António Machado Santos. A este foi ordenado que se vestisse e, sob ameaça de arma, "forçado a entrar na camioneta." Na Avenida Almirante Reis, próximo do Largo do Intendente, a camioneta acaba por avariar e é mesmo ali que o almirante é "fuzilado pelos oito homens que seguiam na camioneta," depois de ser mandado encostar contra uma parede.
O Presidente da República era António José de Almeida, que se tinha recusado a entregar o poder sob ameaça dos revoltosos. No entanto, mais tarde apercebe-se que a sequência de "eventos sangrentos" tem de ser contida. Isto, ou o facto de ter tomado "conhecimento de que o seu nome também constava na lista de políticos a abater," levou-o a entregar embora "relutantemente, a posse do governo a Manuel Maria Coelho."
Estes assassinatos marcaram de forma única aquele que seria o "começo do fim da Primeira República," apesar de, formalmente, ela continuar até 28 de Maio de 1926. Ao nascer do dia, o grupo radical considerava-se "salvador da república" e nem lhes passava "pela cabeça que viriam a pagar pelos crimes" que ali tinham sido cometidos. Como consequência direta dos acontecimentos dessa noite, "a GNR seria sumariamente desconjuntada, desarmada e despromovida, transformando-se numa mera polícia rural."
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_Sangrenta
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Granjo
https://chaves.blogs.sapo.pt/antonio-granjo-2335080